Indo para o Urbana's (editado)
O que diabos está acontecendo comigo hoje? Pelo menos, a enxaqueca de ontem tinha diminuído para uma dor de cabeça leve, então decidi que, já que eu estava de pé e vestida, melhor descer até a cozinha para ver se tinha alguma coisa pra comer.
Enquanto eu descia os dois lances de escada, encontrei alguns membros da matilha. Eu odiava ver aqueles olhares cheios de pena, mas forcei um sorrisinho educado e ouvi as condolências por eu não ter um lobo. Como todo mundo ficou chocado ao descobrir isso, blá, blá, blá.
Finalmente cheguei à cozinha e fiquei espiando, procurando o Cookie.
O nome dele não era Cookie; era exatamente assim que eu sempre tinha chamado ele. O nome de verdade era Cliff, aparentemente. Quando eu era pequena, comecei a chamar ele de “cookie”, e o apelido pegou. Bom... pra mim, pelo menos. Qualquer outra pessoa que fosse pega chamando ele de Cookie levava um tapa — e um bem caprichado. Cookie, como você já deve ter imaginado, é o cozinheiro da casa da matilha. Ele tinha 1,88 de altura e quase a mesma largura. Era completamente careca e coberto de tatuagens. Tinha mãos como pás e pés enormes, sempre enfiados em coturnos. Quando finalmente encontrei ele atrás do balcão servindo o café da manhã para dez membros da matilha, eu entrei mais na cozinha e todo mundo ficou em silêncio. Eu comecei a corar e virei nos calcanhares. Eu ia sair correndo, mas de repente fui puxada para um abraço quente.
Olhei para o rosto do Cookie e abracei ele de volta.
— Ah, querida — ele disse no meu ouvido. — Você sabe que vai ser sempre minha melhorzinha, né?
— Obrigada, Cookie — respondi, segurando as lágrimas.
— Vem cá, vem tomar café. E QUALQUER UM QUE TE DEIXAR DESCONFORTÁVEL VAI TER QUE SE RESOLVER COMIGO!!!!
Agradeci e fui sentar sozinha numa mesa. Recebi alguns olhares, mas nada que eu não aguentasse. Eu estava na metade das minhas panquecas quando Peter, o Beta do meu pai, entrou na cozinha. Quando me viu, ele veio e se sentou.
— Cliff, me dá um cafezinho. Tô tendo abstinência — disse ele, sorrindo para mim.
— Como você tá, Genni?
Havia uma preocupação genuína no rosto dele, e eu via que ele queria dizer alguma coisa.
— Fala logo — eu disse. — Desembucha.
Peter deu um sorrisinho e começou a falar. Não sobre eu sair da casa da matilha, mas sobre eu ficar por perto e ele me arrumar uns trabalhos nas terras da matilha. Eu ri baixinho da empolgação dele e levantei as mãos.
— Tá, tá — eu disse. — Ainda tem um monte de coisa pra fazer por aqui, eu entendi. Obrigada, Peter — falei, grata.
— Escuta, Genni... a Sara tá fora de si de preocupação. Ela tá te mandando mensagem há dias.
Eu sorri quando ele falou o nome da minha melhor amiga e expliquei que eu queria ver a Sara, mas não conseguia criar coragem de sair. Levei cinco dias pra conseguir descer as escadas.
— Minha filha te ama — Peter disse, baixo. — A gente também... Vem comigo mais tarde, e você e a Sara podem ficar juntas um pouco. Eu tenho que ir pro escritório agora e colocar a papelada do Alpha em dia, mas às nove eu já devo ter terminado.
O sorriso dele era tão sincero e tão acolhedor que eu sorri de volta e balancei a cabeça.
— Você sabe onde meus pais foram, Peter?
Peter pareceu meio surpreso com a pergunta e perguntou por que meus pais não tinham me dito pra onde iam. Ele soou quase atrapalhado, e houve um olhar... um olhar rápido, mas com certeza um olhar. Com os olhos apontando para o chão, ele disse:
— Assuntos da matilha.
E saiu depressa, dizendo pra eu encontrar com ele no saguão às nove.
Que diabos está acontecendo com todo mundo hoje!!!!
Peter se levantou pra ir embora, me deu um sorriso de incentivo, acenou pro Cookie e foi para o escritório do meu pai.
Quando terminei o café, decidi não ficar na cozinha como eu normalmente ficaria. Hoje tinha gente demais ali. E olhares de pena não eram exatamente animadores, por mais sinceros que fossem. Eu acenei pro Cookie e ele acenou de volta, erguendo a concha que estava segurando e, consequentemente, espirrando mingau quente em dois lobos guerreiros. “Guerreiros...” eu ri comigo mesma ao ver os dois gritarem feito menininhas por causa do banho inesperado.
Eu só tinha que esperar uma hora pelo Peter, então decidi passar esse tempo na biblioteca da matilha. Eu amava ler sobre as lendas e a história dos lobos e, como a maioria odiava ler, eu sabia que ia ter a sala só pra mim.
Me acomodei numa das poltronas confortáveis, de encosto alto, com meu livro favorito. Eu tinha lido só algumas linhas quando ergui os olhos na direção da porta; não tinha ninguém ali. Mas eu podia jurar que alguém tinha tentado chamar minha atenção. Eu devo estar cansada, ou talvez ainda envergonhada por causa desse lance de não ter lobo. Eu não sabia o que estava acontecendo; eu só sabia que estava me irritando. Talvez eu devesse passar no consultório do médico? Concordando comigo mesma, como se estivesse confirmando a decisão, eu me levantei pra sair quando Peter colocou a cabeça pela porta.
— Aí está você — ele disse com um sorriso. — Pronta? — perguntou.
Eu estava pronta, morrendo de vontade de ver Sara e Molly, então fomos juntas.
Enquanto Peter e eu caminhávamos até a casa dele, conversamos educadamente. A casa deles não ficava longe da casa da alcateia; como Peter era o beta, ele precisava estar perto do meu pai, mas como ele tinha três filhos, ele e a companheira tinham a própria casa. Não que todos os filhos morassem com eles — agora só a Sara ainda estava em casa. Os irmãos mais velhos dela tinham encontrado suas companheiras alguns anos antes, então saíram da casa da família para formar a própria.
Andamos pela trilha por alguns minutos em silêncio e, como o caminho passava bem ao lado da floresta que cercava a nossa vila, ouvi a voz baixa de novo. Parei, olhei em volta e vi apenas as árvores, com folhas verde-esmeralda e troncos altos e majestosos. Eu sempre amei a floresta ao nosso redor. Eu poderia passar horas lá. Mas sempre foi com o sonho de correr entre as árvores na forma de lobo e sentir o chão nas minhas quatro patas — não nas duas em que estou presa agora.
— Você está bem, Genni? O que foi? — perguntou Peter, com o olhar preocupado.
— Você ouviu isso, Peter? Você ouviu essa voz?
— Não, não acho que ouvi. Deve ser alguma das crianças brincando na floresta — disse ele, tentando me tranquilizar.
— É… — eu disse. — Talvez.
Balancei a cabeça de leve e continuei andando. Uns dois minutos depois, chegamos à casa do Peter. A porta se abriu num ímpeto, e Sara veio correndo e se jogou em mim, me abraçando forte.
— Você tá bem? Claro que não tá bem. Que coisa idiota pra eu te perguntar. Ai, eu fiquei tão preocupada com você. Mas a Luna não deixou ninguém entrar pra te ver. E você não respondeu minha mensagem!
Tudo saiu de uma vez, numa frase longa, e Sara ficou me encarando, ofegante, quando terminou. Eu sorri com carinho e disse que eu estava bem… ou que eu ia ficar bem.
— Claro que vai, minha querida — disse Molly.
Espiei por trás da Sara e vi a mãe dela, a segunda mãe da minha vida, sorrindo com os braços abertos. Eu fui para o abraço, feliz. Eu adorava a mãe da Sara; ela era a MÃE em pessoa: cozinhava, fazia bolo, cuidava da casa e amava a família com tudo o que tinha. Ah, e também era uma guerreira e tanto. Como eu disse: perfeita.
— Entra, querida — falou ela, me olhando com aqueles olhos quentes e gentis. — Você já tomou café da manhã?
Assenti e contei que tinha descido hoje até a cozinha da alcateia.
— Eu estou tão orgulhosa de você. Isso exigiu muita coragem da sua parte. Dane-se quem acha que você não pertence mais a esse lugar — disse ela, com um olhar de quem sabia demais.
Ela sabia do que a minha mãe tinha me dito? Antes que eu pudesse perguntar, ouvi a voz baixa de novo.
— Tá bom! — eu disse, girando nos calcanhares. — Quem é que tá de palhaçada?
Todo mundo na sala me olhou, chocado.
— Por que você falou isso? — perguntou Sara.
Eu expliquei que tinha ouvido uma voz baixinha chamando meu nome três vezes, e que aquilo já estava ficando irritante, muito rápido.
— Querida, não teve voz nenhuma — disse Molly, preocupada.
— Confia na gente, Genni. Se tivesse uma voz, Molly e eu teríamos ouvido — completou Peter.
Claro que teriam. Eles têm audição de lobo e conseguem ouvir até um alfinete caindo na casa ao lado.
— Desculpa… — eu disse rápido, com a vergonha estampada no rosto. — Talvez essa não tenha sido uma ideia tão boa — falei, olhando para Sara. — Eu não tenho me sentido muito bem nos últimos dias, e agora estou me sentindo um pouco pior. Vou pra casa deitar.
Sara me deu um abraço, que virou um abraço coletivo, e disse para eu mandar mensagem mais tarde.
— Quer que eu te acompanhe até em casa, Genni? — perguntou Peter.
Eu disse a todos que voltaria sozinha, mas que ia passar pelas árvores para tentar me acalmar um pouco. Como Sara sabia do meu amor pela floresta, ela assentiu, entendendo. Eles se despediram e me viram ir embora.
Eu não estava mentindo; eu realmente me sentia esquisita, mas não conseguia identificar o porquê. Eu já não estava com dor de cabeça, mas sentia calafrios e depois um calor estranho. Não era nada muito forte, admito, mas parecia piorar.
Quando me aproximei da casa da alcateia, desejando com todas as forças um banho e a minha cama, vi um carro desconhecido estacionado ao lado do do meu pai. Meus pais tinham voltado. Ótimo, pensei. Finalmente posso falar com o meu pai.
Assim que entrei na casa da alcateia, trombei numa parede — espera! O quê?! Não tinha parede aqui. Meus olhos subiram até eu encarar os olhos azuis mais claros que eu já tinha visto. Eles me encararam de volta, e a voz baixa que eu tinha ouvido a manhã inteira disse:
— COMPANHEIRA!!!!!!
