Capítulo 3 - me chute enquanto eu estou triste, por que você não (Editado, novo conteúdo adicionado)
5 dias depois
Ouvi uma batidinha suave na minha porta.
— Posso entrar, Genni?
Soltei um suspiro bufado. Eu não estava com a menor paciência pra “mais uma” conversa sobre como a minha vida não era completamente uma merda.
— Tá aberta, Luc — respondi.
E me arrependi na hora, fazendo uma careta de dor, porque a dor de cabeça com a qual eu tinha acordado parecia ainda pior. Me puxei na cama até conseguir ficar encostada na cabeceira e esperei o Lucas se sentar na beirada.
— Você tá bem, Genni? Você tá com as bochechas meio vermelhas — meu irmão perguntou, com preocupação na voz.
— Tô com uma dor de cabeça que não passa. Mas tá tudo bem, Luc — falei, tentando e falhando em acalmar a preocupação dele.
— Você precisa sair desse quarto, Genni. Não tá te fazendo bem ficar trancada aqui. Você tá aqui desde a festa, só sai do quarto pra comer umas frutas. Isso não é bom pra você...
Deixei meu irmão tagarelar sobre como eu precisava aceitar o que tinha acontecido. Seguir em frente. Aceitar que eu tinha que começar minha vida como humana, que meu pai ainda me amava muito, blá blá blá.
Eu, por outro lado, estava pensando que, se eu comesse só fruta por um tempo, talvez eu emagrecesse o suficiente pra alguém — qualquer pessoa — me querer. Meus olhos voltaram pro meu irmão quando a voz dele invadiu de novo meu cérebro estressado.
— O quê? — eu disse, olhando pra ele sem acreditar. — O que foi que você acabou de falar?
— Bom, mana... eu tenho escutado a Mamãe e o Papai conversando, e eles acham que talvez já esteja na hora de te mudar pra cidade aqui perto... talvez arrumar um emprego, talvez um apartamento.
Eu saltei da cama e falei num tom baixo:
— Vocês estão me expulsando da casa da matilha? Eles querem que eu vá embora?
Eu encarei ele como se não soubesse quem ele era.
— Não é te expulsar. Nunca. Eles só acharam que você ficaria mais confortável no mundo humano agora que você... você sabe, é humana. Eles acham que vai ser difícil pra você morar aqui, cercada de lobos, sabendo que você nunca vai ser uma.
— Vocês conversaram sobre isso com você, né? — perguntei, e a frase saiu carregada, como se eu já soubesse a resposta.
Eu fuzilei meu irmão. O choque ainda martelava no meu peito e na minha cabeça.
— Eu quero saber o que VOCÊ acha, Lucas. Você concorda com eles? Você acha que eu tenho que arrumar minhas coisas e ir embora?
Eu estava a um passo de ter um ataque. Lancei um olhar suplicante enquanto esperava a opinião dele.
Lucas puxou o ar bem devagar, bem fundo, e soltou do mesmo jeito. Aquilo começou a me irritar, mas lá no fundo eu já sabia o que ele ia dizer.
— Olha, Genni... eu nunca te pediria pra ir embora. Mas eu esperava que você chegasse a essa conclusão sozinha — ele falou bem baixinho, quase como se estivesse tentando me convencer. — Eu concordo com o Papai e a Mamãe. Sim. Mas eu também não quero te perder como minha irmã. Eu te amo, Genni.
Eu só consegui encarar o Lucas, com a boca meio aberta. Só encarar.
— Então vocês estão me chutando pra fora, é isso? O quê? Do nada minha família não me quer mais? Vocês têm tanta vergonha de mim que... que vão me fazer largar tudo o que eu já conheci?
Eu não conseguia acreditar que meu pai faria isso comigo. Por quê? Por que vocês acham que o certo pra mim é me despachar pra cidade e esquecer a matilha? A matilha era parte da minha família. Eu tinha crescido com eles, cercada pelos membros a vida inteira. Eu não conseguia acreditar que isso estava acontecendo. Eu estava tremendo de uma raiva que eu nem sabia que era capaz de sentir.
Eu precisava resolver esse absurdo. Eu não ia embora sem ouvir isso da boca do meu pai.
— Eu preciso falar com o Papai. Onde ele tá?
Agora eu estava gritando. Eu sabia que, se eu falasse com ele, ele ia ficar do meu lado e querer me manter aqui, na minha própria casa.
Com todo aquele berreiro, eu esperava que minha mãe entrasse a qualquer momento. Como eu previ, a porta voou aberta e minha mãe apareceu, entrando cheia de pose.
— Que história é essa? Dá pra te ouvir gritando lá do meu quarto!
— Se explica, Genevieve.
Eu encarei ela e meu irmão. Eu não conseguia processar a informação que tinham enfiado na minha cabeça.
— O Lucas acabou de me dizer que o Papai, você e ele... vocês três concordaram que eu devo ir embora e começar uma vida como humana! É isso mesmo, Mãe? Você e meu pai querem que eu vá embora? A sua única filha? Eu preciso falar com o Papai pessoalmente e resolver isso.
— Você não pode. Ele não tá aqui. Você conhece seu pai. Ele saiu pra resolver coisas do conselho...
Era impressão minha, ou a voz da minha mãe estava mais aguda e apressada do que o normal?
Eu não fazia ideia de como eu sabia disso, mas eu sabia que era verdade.
Eu fiquei olhando pra ela, depois pro meu irmão. Tinha alguma coisa acontecendo ali, e eu queria saber o quê. Eu ia perguntar quando um pensamento estalou na minha cabeça. Fechei os olhos e puxei um ar fundo antes de dizer:
— Ele não sabe, né? — eu acusei. — Ele não sabe que vocês estão fazendo isso? Por que, Mãe? Por quê?
Eu sei que a minha mãe e eu nunca tivemos a melhor relação, mas sério? Eu sei que eu era mais próxima do meu pai e do meu irmão, mas a minha mãe nunca se interessou por mim. Ela sempre fazia um teatro impecável quando a gente estava em público, ou se algum membro da alcateia pudesse estar por perto para ouvir — afinal, ela era a Luna. Mas nunca havia muito ali no quesito carinho. Ela adorava o meu irmão mais velho, Lucas. Eu sempre achei que era porque eu era uma criança desajeitada e bem sem graça, além disso. Mas pedir que eu deixasse tudo o que eu já tinha conhecido na vida? Com certeza nem a minha mãe seria tão cruel assim. Embora a nossa relação estivesse muito tensa no momento, minha mãe parecia ter ainda menos tempo do que o normal. Eu tentei pensar na última vez em que a gente conversou de verdade, só nós duas. Eu me esforçei para lembrar de um único momento nos últimos meses. Eu não tinha prestado atenção o suficiente para perceber que a nossa “conversa da semana” não acontecia havia meses.
Tinha alguma coisa estranha, eu só não sabia o quê. Respirei fundo e quase gritei:
— Eu quero ver o pai.
Eu disse de novo, dessa vez com determinação na voz. Eu comecei a sair do meu quarto, e a minha mãe me puxou de volta e falou rápido:
— Olha, esquece o que eu disse, tá bom? Não aconteceu nada, não tem problema.
E ela saiu do meu quarto como se nada fosse, com o meu irmão indo atrás. Pelo menos ele teve a decência de olhar para o chão enquanto saía do meu quarto.
Eu não sabia se ficava magoada ou com raiva. Eu estava tão confusa, e a minha dor de cabeça virou uma enxaqueca.
— Que maravilha... — eu resmunguei, indo até o armário de remédios.
Algumas horas depois, eu abri os olhos com a minha mãe me chamando. Eu parei e pensei por um momento: era a minha mãe mesmo ou eu tinha sonhado? Eu não tinha percebido que tinha dormido por tanto tempo. Eram 6 da manhã, e a luz entrava fraquinha pelas persianas meio abertas. Eu conseguia ouvir os passarinhos nas árvores, e eu conseguia ouvir as crianças brincando no gramado... Espera, O QUÊ? Crianças brincando? Não tinha criança nenhuma por perto da casa da alcateia, e qualquer membro que tivesse companheiro(a) e família morava em casas separadas. Não muito longe da casa da alcateia, mas longe o suficiente para ouvidos pequenos não escutarem os guerreiros xingando e brigando por coisas idiotas. Eles eram lobos. No fim das contas.
Franzi a testa para mim mesma; eu devia estar ainda dormindo! Tá, vamos tentar de novo. Abri os olhos e vi a luz entrando pelas frestas da persiana; ok, bom. Normal. Eu conseguia ouvir os pássaros; ok, normal. E eu conseguia ouvir crianças brincando???? Aí eu soube que estava acordada de verdade. Levantei, confusa. Balançando a cabeça, fui até o banheiro e me enfiei no chuveiro. Não faço ideia do motivo de a minha mãe ter me acordado tão cedo, mas era melhor eu ir descobrir.
Depois de toda aquela conversa sobre me expulsar da casa da matilha e do meu desejo enorme de não ver nem minha mãe nem meu irmão, eu tinha me trancado no meu quarto por cinco dias. Eu senti que precisava fazer um mínimo de esforço para parecer normal. Então decidi ir ver o que ela queria. Eu não estava com a menor vontade de falar com ela, mas se ela tivesse me chamado e eu não soubesse por quê, eu ia me meter em encrenca de novo.
Eu estava vestindo um short jeans cortado quando ouvi meu nome de novo, bem baixinho, mas era definitivamente o meu nome. Franzi a testa outra vez e, enfiando uma camiseta larga pela cabeça, saí do quarto e fui procurar a Luna.
Andei descalça, de mansinho, até a sala do apartamento procurando minha mãe, mas ela não estava ali. Com a testa franzida, fui olhar na cozinha, embora eu soubesse que não ia encontrá-la lá. Mamãe não cozinhava e odiava a cozinha, dizia que era escura demais. Ela também não estava lá.
Quando eu saí da cozinha, ouvi a porta da frente abrir e vi o Lucas entrando. Dava pra ver que ele tinha saído pra correr e ele parecia tão chocado quanto eu.
— Porra, Genni, você quase me deu um ataque do coração. O que você tá fazendo acordada a essa hora da manhã?
Ele tinha razão. Eu odiava acordar cedo e nunca via esse horário do dia. Dando uma risadinha, eu disse:
— A mãe me chamou. Mandou eu levantar. Então aqui estou eu.
— A MÃE mandou você levantar? — ele perguntou, com a testa franzida.
— A mãe não tá aqui — ele disse. — Ela saiu por volta das três da manhã pra se encontrar com o pai. Eles tinham que ir pra umas reuniões.
Ele soltou uma risadinha, como se estivesse se divertindo sozinho.
— Você tá ficando doida, mana.
Mas aí ele olhou bem pra mim.
— Você tá bem?
Eu consegui ouvir a preocupação na voz dele.
— Você sabe que eu te amo, né — ele disse, me apertando num abraço.
— Eu sei, mano — eu disse.
E, apesar de toda a coisa desagradável de alguns dias atrás, eu também te amo. Agora vai tomar um banho, porque você tá fedendo.
Quando ele foi se afastando, eu chamei o Lucas:
— Por que tem crianças brincando no gramado? E tão cedo assim?
Lucas me olhou e, com mais uma ruga na testa, disse:
— Não tem criança nenhuma brincando no gramado. Você ouviu alguma coisa?
Agora ele estava me encarando com preocupação de verdade, então eu tratei de aliviar, dizendo:
— Eu devo ter continuado dormindo.
Eu ri, pensando que tinha ouvido minha mãe e crianças, e não tinha ninguém ali. Com certeza eu devia estar dormindo.
Eu me virei pra voltar pro meu quarto quando ouvi a voz “feminina” de novo, bem baixinho, mas eu ouvi, sim. Girando no lugar, olhei ao redor, mas não consegui ver ninguém. Ok, oficialmente eu estava apavorada pra caralho agora. Eu corri de volta pro meu quarto e tranquei a porta.
