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Capítulo 5 As Contas Que Não Se Pagam

Rubi

Acordei com o barulho seco do balde caindo no chão da cozinha. Levantei num pulo, o coração disparado no peito, certa de que a dinda tinha caído. Saí do quarto descalça, sem ligar pro frio do piso, e encontrei ela ajoelhada, tentando segurar um pano de prato enquanto a água escorria por todo lado.

— Dinda, o que a senhora tá fazendo?! — corri até ela e a levantei com todo o cuidado do mundo.

— Eu... queria limpar o chão... tinha derramado café — disse ofegante, os olhos baixos, como uma criança que fez algo de errado e teme ser repreendida.

— Tá maluca? A senhora não tem força nem pra ficar sentada direito e vem querer limpar chão? Me ajuda, Senhor...

Levei ela devagar até o sofá, ajeitei o travesseiro nas costas dela e sentei ao lado. As mãos dela tremiam tanto que faziam barulho leve ao encostar no tecido do cobertor. A pele estava mais amarelada do que na véspera, os dedos finos, parecendo que a carne ia se esvaindo pouco a pouco. Cada respiração parecia pesar uma tonelada.

Peguei uma toalha limpa, enxuguei o rosto dela com carinho e fui buscar um copo de água com açúcar. Aquela imagem não saía da minha cabeça, grudada como uma ferida aberta que não cicatriza.

Ela estava piorando. E rápido demais.

Voltei pra cozinha, respirei fundo e limpei o chão com raiva. Raiva de mim mesma por não poder fazer mais. Raiva do mundo que gira ao contrário pra quem já sofre. Raiva de não ter um centavo sequer pra comprar o tempo que ela precisa. Cada gota de água que eu enxugava parecia um grito preso na minha garganta.

Quando terminei, fui até a estante, peguei a pastinha azul onde guardava todos os papéis: exames, pedidos médicos, receitas. Abri tudo no chão da sala, espalhando os papéis amassados.

Era como se eu estivesse espalhando a nossa ruína ali mesmo.

A última consulta particular: trezentos e oitenta reais.

O exame urgente que o SUS ainda não tinha liberado: mil, duzentos e sessenta reais.

A quimioterapia inicial? Oito mil e quatrocentos reais — e isso era o pacote “básico”, como se o preço de uma vida pudesse ter descontos.

— Como é que eu vou tirar isso de onde, meu Deus? — sussurrei, apertando os papéis com tanta força que as folhas amassaram nos meus dedos.

Dona Irene me olhava em silêncio do sofá, com aquele olhar que doía mais do que qualquer palavra dura.

— Você está tentando, Rubi... eu sei. Mas se não der... tá tudo bem, minha flor...

— Não fala isso! — levantei de uma vez, juntando os papéis de volta na pasta com mãos trêmulas. — Não diz que tá tudo bem, porque não está! Eu não aceito perder a senhora, ouviu? Eu não vou aceitar!

Ela só sorriu. Um sorriso tão fraco, tão resignado, como quem já tinha entendido que o seu tempo ali estava acabando.

E aquilo me matou por dentro.

Mais tarde, fui até a farmácia buscar o remédio contra a náusea. O dono me olhou com aquela cara de pena que eu já odiava conhecer quando pedi pra anotar no fiado.

— Rubi, esse mês já tá cheio, gata... não dá mais.

— Eu sei. Mas ela precisa disso pra ontem. Juro que até semana que vem eu pago tudo.

Ele assentiu, contrariado, e me entregou o remédio num saquinho amassado. Agradeci baixinho, engolindo o orgulho seco junto com a vontade de chorar.

Na saída, vi dois homens parados na esquina. Não conhecia um deles, mas o outro era o Gordo Léo — segurança do tal Rei. O olhar dele bateu em mim e ficou ali, demorado. Não era assédio comum. Parecia que ele estava me analisando, marcando cada detalhe, como quem confere se o produto está de acordo.

Meu coração disparou de novo.

Passei reto, mas senti o peso daquele olhar nas minhas costas até dobrar a esquina. Uma voz dentro de mim dizia que o meu nome já estava circulando por onde não devia.

Em casa, dei o remédio pra dinda, preparei um arroz com ovo e sentei ao lado dela pra comer. Fingi estar bem. Fingi que a comida estava gostosa. Fingi que tudo estava sob controle.

Mas por dentro eu só gritava.

Os dedos tremiam sobre o prato. A boca estava seca. O mundo parecia ter me encurralado por todos os lados possíveis.

O celular vibrou no meu colo.

📱 Vanessa 💬

“Me desculpa por ter falado aquilo. Eu só... não sei mais o que fazer.”

“Mas acho que a proposta sempre foi pra você, Rubi. A mulher me mandou mensagem agora pouco. Disse que ‘a garota do sutiã’ já chamou atenção há um tempo.”

Meu estômago revirou de uma vez. O garfo escorregou dos meus dedos e caiu no chão, fazendo um barulho seco que ecoou na sala quieta.

A dinda me olhou preocupada, mas eu forcei um sorriso no rosto, aquele sorriso de quem mente pra proteger quem ama.

— Só uma mensagem boba, dinda. Nada demais...

Mas por dentro, o frio já tinha tomado conta de tudo.

Já não era mais uma ideia solta, uma conversa de desespero. Era real.

Eles sabiam quem eu era. Eles já estavam de olho em mim há mais tempo do que eu imaginava.

E se eu fosse a escolhida?

Se fosse o meu corpo, a minha coragem, o meu limite posto à venda em troca de um pouco mais de tempo pra quem eu amo?

Apertei os olhos com força, tentando afastar o pensamento, mas ele não ia embora.

Apenas um nome continuava ecoando na minha cabeça, como uma sentença que eu ainda não tinha coragem de aceitar:

Rei.

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