Visita íntima

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Capítulo 2 O Silêncio Que Dói

— Sobe aí.

Tuka falou seco, sem sequer me virar o rosto. A moto vibrava sob ele, como se também sentisse toda a tensão que pairava no ar. Ele mascava chiclete com força, o maxilar travado, os olhos escondidos atrás de óculos escuros espelhados que não deixavam adivinhar o que se passava dentro da cabeça dele.

Fiquei parada, braços cruzados, sentindo o suor escorrer entre os seios e a irritação crescer a cada segundo diante daquela postura autoritária. A rua parecia ter ficado mais quieta de repente, e eu percebia o olhar de quem passava — todos esperando alguma reação, alguma cena. Mas eu não ia dar esse gosto a ninguém.

— Desde quando tu virou meu motorista particular? — provoquei, firme no lugar, sem dar um passo sequer em direção à moto.

Ele tirou os óculos devagar, como se estivesse me despindo com o gesto. E então me encarou com aqueles olhos que pareciam enxergar até o que eu escondia de mim mesma.

— Desde que tu resolveu provocar o morro inteiro só de sutiã, bem na cara do João e da rapaziada. E eu não tô com paciência pra brincadeira hoje, Rubi.

— O João é meu amigo, Tuka. — dei um passo à frente, chegando bem perto, sem recuar um milímetro. — E se eu quiser andar pelada por aí, isso é problema meu. Não teu.

— Você adora testar os limites de tudo e de todos, não é mesmo?

— E você adora fingir que não liga, mas não consegue disfarçar nem um segundo. — sorri de canto, torto, desafiador.

Ele suspirou fundo, virando o rosto por um instante, como se lutasse contra o impulso de me puxar ou de ir embora. Eu sabia que ele era uma bomba prestes a explodir. Mas eu também era.

— Sobe logo. — repetiu, mais baixo dessa vez, quase um pedido disfarçado de ordem.

Subi na moto, mas mantive distância. Segurei-me apenas pela ponta dos dedos na lateral do veículo, sem encostar o corpo no dele. Se ele quisesse me proteger, que fosse sem invadir o meu espaço. Se quisesse me ter por perto, que soubesse de uma vez: eu não era de ninguém.

O caminho até em casa pareceu durar uma eternidade, embora tivesse levado poucos minutos. O vento batia forte no rosto, mas não aliviava o calor que parecia queimar por dentro. A tensão entre nós era densa, tão forte que abafava até o barulho do motor.

Quando chegamos na frente da minha casa, desci antes mesmo que ele parasse a moto por completo. Tuka nem desligou o motor; só ficou ali, parado, me olhando como se tivesse mil coisas na ponta da língua e engolisse todas elas.

— Valeu. — falei seca, já com a mão na tranca do portão.

— Rubi...

Parei. Dedos ainda na chave, costas viradas para ele.

— Para de se meter com esse pessoal assim.

Revirei os olhos, sem me virar.

— Tu fala como se tivesse moral pra dar ordens. Como se fosse diferente deles.

— Eu sou diferente.

Virei-me devagar, rindo com uma ironia que doía.

— Não é, Tuka. Tu é o pior de todos. Só sabe mandar, controlar, vigiar. Mas quando eu precisei mesmo... tu sumiu. Então me faz um favor: cuida da tua vida, que da minha cuido eu.

Ele me olhou por um longo segundo, como se tivesse levado um soco certeiro no estômago. Mas não respondeu nada. Apenas engatou a marcha e saiu em disparada, como quem foge de si mesmo.

Suspirei, abri o portão e entrei.

A casa estava abafada, com aquele cheiro misto de café frio, remédios e uma tristeza que parecia ter se instalado ali para ficar. O ventilador de teto rodava devagar, como se também estivesse cansado demais para fazer força. Dona Irene estava deitada no sofá, coberta até o pescoço, mesmo com aquele calor de matar.

Dormia leve, o rosto mais pálido do que nunca, olhos fundos. O lenço na cabeça denunciava o que a boca dela teimava em esconder: o tratamento já tinha começado — e já estava judiando dela.

Fui até a cozinha, peguei um copo de água e voltei com passos leves. Sentei no chão, ao lado do sofá, e encostei a cabeça na almofada onde ela apoiava a cabeça.

— Cheguei, dinda. — falei baixinho, tocando a mão dela, que estava fria.

Ela abriu os olhos devagar, e me deu um sorriso tão fraco que partiu meu coração ao meio.

— Oi, minha flor... tá muito calor lá fora?

Assenti com a cabeça e sorri de volta. Menti no sorriso, como vinha fazendo há dias.

— E a senhora? Comeu alguma coisa?

— Não tô com fome, filha...

— Dinda, a senhora precisa comer. Senão vai ficar mais fraca ainda. — acariciei o braço dela com todo o carinho que tinha. — Quer que eu faça um suquinho bem gelado?

— Não precisa, meu amor. Só fica aqui comigo um pouco.

E eu fiquei. Fiquei ali, sentindo o quanto o corpo dela parecia frágil, como se pudesse se desmanchar a qualquer instante. Minha dinda... minha segunda mãe. O meu alicerce quando o mundo resolveu desabar em cima de mim. E agora era ela quem estava caindo, e eu parecia não ter mãos suficientes para segurar.

— A Vanessa ligou mais cedo. Disse que conseguiu indicação de um médico novo, especialista no caso dela.

— Outro médico? — ela murmurou, com a voz cansada. — Vão dizer a mesma coisa: que é difícil, que é caro, que não tem vaga...

— Mas a gente vai dar um jeito, dinda. Eu juro que a gente vai.

— Rubi... — ela apertou a minha mão devagar. — Promete que não vai fazer nenhuma besteira?

Os olhos se encheram d’água, mas eu não deixei cair uma gota sequer.

— Besteira? Eu? Já faço isso só de sair na rua com essa cara linda — tentei brincar, forçando um tom leve.

Mas ela não sorriu. Apenas me olhou com um amor tão grande que chegava a doer. Como se estivesse pedindo desculpas por estar doente. Como se me pedisse força sem precisar dizer uma única palavra.

Mais tarde, depois do banho, deitei na cama com o cabelo ainda molhado. A luz apagada, a janela aberta, e o som da vida seguindo lá fora: funk batendo ao longe, risadas, motos passando. E eu ali, imóvel, olhando para o teto como se ele tivesse as respostas que eu precisava.

Mas não havia respostas.

Só havia silêncio.

E o silêncio grita. Grita tudo o que a gente teima em não ouvir.

A verdade é que o dinheiro já estava acabando. O plano de saúde não cobria o tratamento completo. E eu... eu dizia que tinha meios, que ia dar um jeito, mas no fundo sabia que estava com as mãos atadas. Ou fingia estar. Porque todo mundo que vive aqui sabe: o morro sempre dá um jeito. Mas quase sempre o preço é alto demais.

E era essa certeza que me fazia tremer por dentro.

O celular vibrou na mesa de cabeceira. Peguei devagar.

📱 Vanessa 💬

“Amiga... apareceu uma coisa. Uma proposta. Mas não sei se a gente vai ter coragem de aceitar. Me liga assim que puder, por favor.”

Meu coração apertou tanto que doeu.

Eu sabia que não era coisa boa.

Sabia também que, se eu abrisse essa porta, talvez nunca mais conseguisse fechá-la. Mas quando a pessoa que você mais ama está prestes a partir... a gente acaba pagando qualquer preço.

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