Capítulo 4
~BRICE~
Rylee sempre foi péssima em esconder o medo. Não porque ela o demonstrasse com facilidade; e sim porque o enterrava fundo demais.
A maioria das pessoas chorava, entrava em pânico, gritava ou desmoronava quando o terror as atingia com força suficiente. Rylee fazia o contrário. Ficava mais quieta, mais fria, mais controlada. Era como se, se ela se fechasse com força suficiente, nada conseguisse alcançar as partes dela que já estavam se rachando por baixo da superfície.
Eu a via fazer isso desde que éramos crianças. Vi depois que a mãe dela morreu. Vi depois de pesadelos, términos ruins e tiroteios. E agora eu estava vendo de novo.
Sentada no chão da minha cozinha sob a luz do teto, com os braços apertados ao redor de si mesma, ela estava exatamente como no verão depois da cirurgia, três anos atrás, quando acordou gritando naquela cama de hospital. Parecia completamente assombrada.
Agachei-me na frente dela, tentando com todas as forças não deixar meu próprio medo aparecer.
— Como você está conseguindo fazer isso, Rylee? — perguntei, mantendo a voz baixa.
A pergunta pesou entre nós.
Lá fora, o vento farfalhava de leve entre os pinheiros que cercavam a propriedade, enquanto sirenes distantes ecoavam fracas de algum lugar na direção da cidade. Nacogdoches já não dormia de verdade, não desde que as mortes começaram três meses atrás. Cinco mulheres estavam mortas. Agora eram seis. E, de algum jeito, toda estrada continuava levando de volta até ela.
Rylee olhou além de mim na direção da janela da cozinha, com a mandíbula tão travada que dava para quebrar os dentes.
— Não sei — ela mentiu, baixinho.
Mentira. Eu também sabia quando ela mentia. Droga, todo mundo sabia. Ela ganhava uma marquinha bem no meio das sobrancelhas sempre que tentava carregar alguma coisa sozinha.
Encostei um pouco nas portas do armário, observando-a com cuidado.
— Você sabia que ia ter outra vítima antes de a central ligar — apontei, acompanhando a expressão dela.
O silêncio respondeu às minhas palavras.
— Você sabia que tinha algo errado com a casa antes mesmo de a gente entrar — continuei, mudando o peso do corpo.
Ainda nada.
— E o que quer que tenha acontecido agora há pouco? — mantive a voz calma, me recusando a recuar. — Você viu alguma coisa.
Por fim, os olhos dela se ergueram para os meus. O cansaço dentro deles quase me acertou em cheio no peito.
— Você não ia entender — ela sussurrou, com a voz falhando.
Deixei escapar uma risada sem humor.
— Então tenta — desafiei.
Por um longo instante, ela só ficou me encarando enquanto o relógio da cozinha tic-tacava alto acima de nós. Então, finalmente, ela puxou um fôlego irregular.
— Ele me mostra coisas — confessou, deixando os ombros caírem.
Cada músculo do meu corpo travou.
— Quem? — exigi.
— O assassino — ela respondeu.
As palavras caíram pesadas no cômodo. O jeito dela dizer não foi dramático nem carregado de exagero; foi totalmente direto. Ela parecia alguém que vinha carregando aquilo sozinha tempo demais. Mantive o rosto cuidadosamente neutro, apesar de meu pulso ter começado a bater irregular contra a garganta.
— Há quanto tempo? — perguntei, me preparando.
Rylee engoliu em seco.
— Nove anos — sussurrou.
Jesus Cristo. De repente, a cozinha pareceu pequena demais.
— Nove — soltei devagar, tentando encaixar a linha do tempo. — Você está me dizendo que esse desgraçado está dentro da sua cabeça desde que você tinha quinze anos?
Os olhos dela voltaram para o chão.
— No começo, eu achei que estava ficando louca — ela admitiu, apertando os braços ainda mais contra o peito.
Algo se retorceu dentro do meu peito. Aos quinze anos, Rylee devia estar se preocupando com jogos de futebol e inscrições para a faculdade, não com visões psíquicas de um psicopata homicida.
— O que mudou? — insisti.
— A cirurgia — ela respondeu, em voz baixa.
Minha mandíbula se contraiu na hora. Três anos antes, Rylee quase tinha morrido durante uma abordagem de trânsito que deu errado nos arredores de Lufkin. Um dos suspeitos abriu fogo antes que qualquer um pudesse reagir. O parceiro dela morreu ali mesmo. Tecnicamente, Rylee morreu na mesa de operação trinta e sete minutos depois. Mas voltou. E, depois disso, tudo mudou.
Eu me lembrava de ficar sentado ao lado da cama dela no hospital enquanto ela dormia sob luzes fluorescentes pálidas, ouvindo médicos explicarem picos neurológicos impossíveis que eles não conseguiam entender. Eu me lembrava das avaliações psiquiátricas, dos pesadelos e do medo. Não era medo vindo dela; era medo por ela.
“Depois que eu morri”, ela sussurrou, erguendo o olhar de novo para mim, “ele ficou mais forte.”
Uma raiva fria e pesada deslizou por dentro de mim. Não era dirigida a ela, e sim a ele. Eu odiava qualquer filho da puta doente que tivesse passado quase uma década violando a mente dela.
Meu celular vibrou de novo contra a bancada. O trabalho chamando. A realidade voltou, trazendo o novo corpo junto. Eu me levantei devagar antes de pegar minha jaqueta dos Rangers na cadeira.
“Precisamos ir”, anunciei, conferindo minha arma na cintura.
Rylee ergueu o olhar, os olhos se estreitando. “Brice”, ela começou, se empurrando para sair do chão.
“Você não vai ficar aqui sozinha”, interrompi, sem dar opção.
“Eu posso trabalhar”, ela argumentou, entrando no meu espaço.
“Eu sei que pode”, rebati.
“Então para de me tratar como se eu fosse frágil”, ela disparou.
Aquilo finalmente soltou alguma coisa dentro de mim. Eu me virei de frente para ela, meu temperamento explodindo. “Quer saber por que eu tô lidando com isso com cuidado?” exigi, minha voz baixando de um jeito perigoso. “Porque você tá falando de um assassino em série rastejando dentro da porra da sua cabeça, Rylee.”
Ela se encolheu com meu tom. O arrependimento veio na mesma hora, como um golpe físico. Passei uma mão pelo rosto, então forcei minha voz a voltar pro controle.
“Eu não tô com raiva de você”, murmurei, soltando um ar áspero.
“Podia ter enganado”, ela sussurrou, cruzando os braços com força.
Eu encarei ela por um longo segundo. Meu Deus, ela parecia completamente exausta, assustada, e teimosa o bastante pra sair no soco com o próprio Deus se pressionassem demais. Era exatamente a mesma de sempre.
“Você devia ter me contado”, falei baixo.
A dor cintilou rapidamente no rosto dela antes de sumir outra vez. “Eu tentei uma vez”, ela retrucou.
Franzi a testa, totalmente pego de surpresa. “Quando?”
“Depois da cirurgia”, ela revelou, a voz tremendo.
A confusão me atingiu na hora. “Do que você tá falando?”
Lágrimas deixaram os olhos dela vidrados pela primeira vez naquela noite. “Você achou que eu tava tendo alucinação”, ela disse, seca.
A acusação entrou como uma faca porque ela estava certa. Naquela época, sentado ao lado da cama dela no hospital, com medicação e trauma se embolando, eu tinha presumido que o falatório apavorado vinha de dano neurológico. Eu não duvidei dela por achar que ela era louca; eu duvidei porque a alternativa era impossível. Agora, eu já não tinha tanta certeza.
Lá fora, pneus trituraram de repente sobre o cascalho. Outro veículo chegou. O dever se encaixou de volta na hora, quebrando a tensão pesada na cozinha. Eu fui até a janela e olhei para fora, para as luzes piscando.
“Viaturas do xerife do condado”, informei, virando de volta. “Perícia. A cavalaria tá chegando.”
Rylee se levantou devagar atrás de mim, a postura rígida. “Você ainda acha que eu sou louca?” ela perguntou.
Eu me virei totalmente para ela. A luz da lua, pela janela da cozinha, se espalhava suave pelo rosto dela, enquanto o medo e a exaustão travavam uma guerra silenciosa por trás dos olhos. E, em algum lugar sob tudo aquilo, havia confiança — frágil, perigosa e assustadoramente importante.
“Não”, respondi com honestidade; então abri a porta da frente e deixei a noite fria do Texas entrar.
