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Capítulo 3

A casa de Brice ficava na extremidade norte do condado de Nacogdoches, onde a cidade ia, aos poucos, dando lugar a estradas secundárias sinuosas, pastos de cavalos e muralhas densas de pinheiros tão espessas que engoliam a luz da lua inteira.

A antiga casa estilo rancho pertencia à família dele desde muito antes de nós nascermos. Todo mundo na cidade conhecia os Rowlands. O avô dele criava gado nos arredores de Chireno, e o pai serviu quinze anos no departamento do xerife antes de ser levado pelo câncer.

E Brice? Brice tinha virado algo entre uma lenda da cidade e uma dor de cabeça local quando se formou no ensino médio. Era o capitão do time de futebol americano, campeão estadual de luta, e depois entrou direto para a polícia. As mães adoravam; já os criminosos, em geral, não.

O SUV preto estalou sobre a brita antes de parar ao lado da varanda. Uma luz amarela e quente se derramava pelo quintal a partir das janelas da cozinha, iluminando os canteiros de flores que a mãe dele tinha plantado anos atrás.

Mesmo depois da morte dela, Brice ainda os mantinha vivos. Algo dolorido apertou fundo no meu peito. Lar era exatamente a sensação que aquele lugar passava, e talvez fosse por isso que, de repente, eu quis chorar.

Brice desligou o motor antes de se virar para mim.

— Você tá com fome?

A normalidade da pergunta quase me desmanchou.

— Sério? — perguntei, encarando-o.

— O quê? — ele rebateu, calmo. — As pessoas ainda precisam comer, Ry.

Ry. Eu congelei. Ele não me chamava assim havia anos, desde a faculdade. Não usava esse nome desde que eu comecei a colocar, com cuidado, uma distância entre nós depois de perceber que meus sentimentos por ele tinham ficado perigosos demais para sobreviver.

Brice ou não notou minha reação, ou escolheu não reconhecer. Conhecendo ele, provavelmente era a segunda opção.

Ele desceu do SUV, e eu o segui devagar. O ar de outubro trazia o cheiro de fumaça de lenha vindo de propriedades vizinhas, enquanto uma música distante ecoava baixinho da cidade. Alguém ali perto já estava fazendo uma fogueira de festa antecipada das Noites da Colheita.

Nacogdoches amava o outono. Todo ano, a cidade se transformava por completo quando outubro chegava. Abriam-se plantações de abóboras, igrejas organizavam passeios de carroça com feno, e a praça do centro ficava cheia de enfeites e música ao vivo todo fim de semana até o Halloween. Pessoas normais provavelmente estavam tomando sidra em volta de fogueiras agora. Enquanto isso, eu tentava não pensar nas palavras pintadas naquela parede apodrecida.

Brice segurou a porta da frente aberta para mim antes de trancá-la com firmeza atrás de nós. O calor familiar da casa me envolveu na hora, revelando piso de madeira escura, uma lareira de pedra e fotos de família alinhadas nas paredes do corredor. O cheiro de café permanecia no ar como algo permanente.

Eu tinha passado metade da minha infância dentro daquela casa. Ashley e eu costumávamos correr por esses cômodos como duendes selvagens, enquanto Brice gritava com a gente por mexer nos troféus de futebol americano dele. A lembrança quase me fez sorrir.

— Você pode ficar no quarto de hóspedes — disse Brice, jogando as chaves da caminhonete na ilha da cozinha. — O banheiro já tá abastecido.

— Você fala como se isso acontecesse com frequência — observei, colocando minha bolsa sobre um banquinho.

Os olhos dele correram até mim por um instante. “Você está sendo caçada por serial killers psíquicos? Não. Vai ficar aqui depois de trabalhar até tarde? Sim.”

Pisquei. Aquela resposta pareceu doméstica demais. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o celular dele vibrou alto contra a bancada. Brice olhou para a tela e atendeu na hora.

“Rowland”, rosnou.

A postura inteira dele mudou, ficando profissional e perigosa. Eu me apoiei em silêncio na bancada, ouvindo metade da conversa.

“Sim”, ele murmurou, e então ficou completamente imóvel. “Faz quanto tempo?” Ele fechou os olhos, beliscando a ponte do nariz. “Jesus Cristo.”

Um gelo escorreu pelo meu estômago. Brice passou uma mão pela linha do maxilar antes de voltar a falar.

“Não, ainda não solta nada pra mídia”, ele ordenou, a voz tensa. Fez uma pausa, conferindo o relógio. “Chego aí em vinte minutos.”

Ele encerrou a ligação e me encarou, sombrio.

“O que aconteceu?”, perguntei, a voz mal passando de um sussurro.

“Mais um corpo”, ele respondeu.

O cômodo pareceu inclinar levemente. “Não”, eu soltei, sem ar.

Brice assentiu uma vez. “Mulher. Encontrada perto do lago Nacogdoches.”

Meu pulso começou a martelar na mesma hora. Outra visão pressionou com violência as bordas do meu crânio. Ainda não. Por favor, ainda não. Apertei os olhos com força, mas era tarde demais.

O cheiro veio primeiro, trazendo lama, água do lago e sangue. Depois, os flashes. Eu vi pele branca sob o luar. Eu vi dedos arrastando na terra encharcada. Eu ouvi um grito sendo interrompido de repente. A dor explodiu nas minhas têmporas com força suficiente para me arrancar um suspiro.

“Rylee”, Brice chamou, chegando até mim bem na hora em que meus joelhos cederam. Mãos fortes seguraram meus braços na mesma hora. A cozinha se borrava violentamente ao meu redor, enquanto as memórias de outra pessoa se enfiavam na minha cabeça como uma lâmina rachando osso. Vi uma garota correndo. Ela estava descalça e chorava. Vi pinheiros, água escura e senti medo — tanto medo.

Puxei um fôlego irregular e me desvencilhei da visão com um solavanco. A cozinha voltou a entrar em foco, pedaço por pedaço. Brice estava agachado bem à minha frente agora, as duas mãos apertando meus ombros com força suficiente para me manter ancorada. Os olhos dele vasculhavam os meus, intensos.

“Fala comigo”, ele exigiu, num tom baixo.

Engoli em seco contra o gosto metálico que cobria minha língua. “Ela correu”, sussurrei, trêmula.

A expressão de Brice escureceu na mesma hora. “O quê?”

“A vítima”, expliquei, com a voz tremendo ainda mais. “Ela tentou correr.”

O ambiente ficou em silêncio. Brice me encarou por vários segundos longos, antes de fazer a pergunta que eu vinha temendo havia nove anos.

“Como você está fazendo isso, Rylee?”, ele sussurrou.

O medo apertou meu peito na mesma hora. Não era medo dele; era medo da verdade.

Do lado de fora da janela da cozinha, o vento sussurrava de leve entre os pinheiros, enquanto, em algum ponto distante da cidade, sinos de igreja ecoavam por Nacogdoches, marcando oito horas. A vida seguia. Havia jogos de futebol, festivais, fogueiras, mesas de jantar e famílias. Enquanto isso, o mal permanecia escondido em algum lugar sob aquelas mesmas árvores, usando um rosto humano. E, de algum jeito — impossível — estava me deixando assistir.

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