Capítulo 2
Seis horas depois, o centro brilhava sob cordões de luzes laranjas do festival. Normalmente, aquela visão teria me feito sorrir.
Todo outubro, a cidade se enfeitava para o outono como se a avó entusiasmada demais de alguém tivesse explodido abóboras por toda Nacogdoches.
As vitrines ao longo da Main Street transbordavam de fardos de feno, espantalhos, crisântemos e placas de madeira pintadas dando boas-vindas aos turistas.
Famílias passeavam pelas calçadas carregando sacolas de compras e sidra quente, enquanto estudantes da Stephen F. Austin lotavam os restaurantes e bares em volta da praça.
Hoje à noite, tudo aquilo parecia irreal, como se eu estivesse olhando para minha cidade natal através de um vidro grosso.
O SUV preto de Brice passou devagar pela praça do tribunal, enquanto música country vinha de uma caixa de som do lado de fora, perto da antiga loja de secos e molhados.
Em algum lugar perto da fonte, crianças riam, onde a cidade tinha montado uma exibição de abóboras para o festival Harvest Nights, que começaria naquele fim de semana.
Meu cotovelo repousava na janela do passageiro enquanto eu encarava as ruas familiares. Eu conhecia cada centímetro daquela cidade, cada beco, cada lanchonete. Cada estrada vicinal se enroscando pelos pinheiros fora dos limites da cidade.
Aprendi a dirigir no estacionamento vazio da igreja perto da Starr Avenue. Fiquei bêbada pela primeira vez ao lado do Lake Nacogdoches e dei meu primeiro beijo atrás das arquibancadas antigas do campo de futebol, no Dragon Stadium, durante o baile de boas-vindas do segundo ano.
Esta cidade vivia dentro dos meus ossos, e alguma coisa maligna tinha se plantado bem no meio dela.
— Você está quieta há vinte minutos — Brice resmungou por fim, os olhos acompanhando o trânsito à frente.
Eu não olhei para ele, mantendo o olhar fixo nas vitrines que passavam. — Só pensando.
— Isso geralmente significa encrenca — ele retrucou, as mãos relaxadas no volante.
— Engraçado vindo de você — devolvi, mudando o peso do corpo contra a porta.
O grunhido baixo dele quase dava para chamar de diversão.
O silêncio se instalou de novo enquanto ele conduzia o SUV pelo trânsito do centro. As pessoas acenavam para ele das calçadas e das portas das lojas quando passávamos. Dona Hernandez, da padaria, levantou a mão; Brice assentiu de volta.
Dois garotos adolescentes do lado de fora da loja de artigos esportivos se endireitaram na hora quando reconheceram o emblema dos Rangers na lateral do veículo, e um grupo de homens mais velhos sentado do lado de fora da loja de ração parou de conversar completamente quando passamos.
As notícias corriam rápido. De manhã, todo mundo em Nacogdoches saberia que tinham encontrado corpos na County Road 714. Amanhã à noite? A cidade já estaria cheia de teorias.
Brice virou na Pilar Street antes de falar de novo.
— Vai me dizer o que aconteceu lá atrás?
A pergunta pesou dentro da cabine. Engoli em seco, lutando contra o aperto repentino na garganta.
— Não.
O aperto da mão dele aumentou um pouco no volante.
— Rylee — ele advertiu, baixando o tom.
— Eu disse não — insisti, cruzando os braços com força sobre o peito.
O SUV diminuiu num sinal vermelho ao lado de uma lanchonete familiar que brilhava sob letreiros de neon e cordões de luz. Pelas janelas da frente, eu vi metade da cidade espremida lá dentro, comendo torta e bife empanado frito, sob enfeites de Halloween pretos e laranjas.
Por um segundo perigoso, eu quis tanto a normalidade que meu peito chegou a doer de verdade; uma garçonete rindo. Placar do futebol. Adolescentes dividindo batata frita. Senhoras fofocando com café.
Em vez disso, eu tinha sangue nas botas e um assassino dentro da minha cabeça.
— Você quase desmaiou — Brice disse, baixo.
Arranquei os olhos da janela da lanchonete.
— Eu estou bem.
— Conversa fiada — ele cravou, sem rodeios.
Eu me virei para ele. O brilho âmbar das luzes do centro desenhava sombras no rosto dele, destacando a tensão que pesava ao longo da linha da mandíbula.
Ele parecia bravo. Não, não bravo… com medo. Essa constatação me atingiu em cheio. Brice não se assustava com facilidade.
Dez minutos depois, entramos na entrada de cascalho da minha casa. A pequena casa de fazenda, de dois andares, ficava escondida sob pinheiros enormes, logo além dos limites da cidade.
Quando comprei o lugar, oito meses atrás, me apaixonei na hora. A propriedade dava para um riacho raso, e a varanda em volta de toda a casa praticamente implorava por chá gelado de noite e tempestades.
Agora, o mato ao redor parecia claustrofóbico e vigilante. Havia algo errado. Eu senti de imediato, e cada músculo do meu corpo se retesou.
Brice percebeu a mudança em mim na mesma hora. “O quê?”, ele exigiu, a mão descendo mais perto da cintura.
Examinei a linha das árvores devagar, as sombras se mexendo sob os galhos. “Eu não sei.”
A noite parecia errada, quieta demais. Até os insetos tinham se calado. A mão de Brice deslizou em direção ao coldre no quadril enquanto ele estudava a propriedade.
“Fica atrás de mim”, ele ordenou, subindo o primeiro degrau de madeira.
Eu quase discuti por reflexo, até perceber o quanto a expressão dele tinha ficado séria. Fomos em direção à varanda juntos.
No instante em que Brice destrancou a porta da frente e a empurrou para dentro, a escuridão nos recebeu. Escuridão total. Meu estômago afundou.
“Eu deixei as luzes acesas”, sussurrei, tateando às cegas em busca da minha própria arma.
Brice puxou a arma imediatamente. Eu fiz o mesmo, nossos canos cortando o ar escuro em uníssono. O cheiro veio em seguida. Podridão. Cobre. Decomposição. Cada pelo do meu braço se arrepiou.
“Pra trás”, sussurrei com urgência, puxando de leve o tecido da manga dele. “Brice, tem alguma coisa errada.”
Pela primeira vez, ele não discutiu, e recuamos devagar, descendo os degraus da varanda, armas erguidas na direção da porta aberta.
Já no meio do quintal, Brice de repente agarrou meu braço com força o bastante para me parar na hora, antes de me empurrar fisicamente para trás dele.
“O que você está fazendo?”, sibilei, tentando enxergar por cima do ombro largo dele.
“Entra no SUV”, ele ordenou, o corpo maior bloqueando completamente minha visão.
“Brice”, protestei.
“Agora”, ele rosnou. A ponta perigosa na voz dele não deixava espaço nenhum para debate.
Disparei em direção ao SUV enquanto ele cobria a casa. No segundo em que entrei, ele se moveu rápido, contornando a frente do carro antes de deslizar para o banco do motorista e trancar as portas imediatamente.
Ele engatou a ré com tanta força que espirrou cascalho pelo quintal. Só quando chegamos à estrada do condado ele finalmente voltou a respirar.
Encarei-o, o coração martelando nas costelas. “Que porra foi essa?”
Os olhos dele continuaram fixos na estrada escura à frente. “Sua porta da frente já estava aberta quando eu destranquei.”
Gelo correu pelas minhas veias. “O quê?”
“Você não notou porque estava ocupada demais vigiando as árvores”, ele explicou, o maxilar se contraindo com força.
Revi o momento na hora. Ele tinha razão. “Meu Deus”, sussurrei, apoiando as mãos nos joelhos.
A pegada de Brice continuava branca no volante. “Tinha alguém lá dentro.”
As palavras abriram um buraco no meu peito. Meu refúgio tinha acabado. O assassino tinha roubado aquilo também. A compreensão se acomodou feia e pesada dentro de mim enquanto o SUV disparava pelas estradas de terra sob pinheiros gigantes.
Então Brice destruiu, em silêncio, o pouco de compostura que ainda me restava. “Você vai ficar comigo até a gente descobrir o que está acontecendo”, ele anunciou, a voz baixa e absoluta.
Virei para ele, o corpo endurecendo. “Não é necessário.”
“É sim, porra”, ele rebateu, sem me dar um centímetro.
Do lado de fora do para-brisa, o centro de Nacogdoches cintilava ao longe sob as luzes do festival e as decorações do fórum, enquanto em algum lugar além daquelas ruas, escondido sob florestas de pinheiros e velhas estradas do condado, um monstro me caçava na escuridão.
