Capítulo 1
~RYLEE~
2021
Hospital Memorial de Nacogdoches
Nacogdoches, Texas
“Não vá embora, Marshall Cody”, alertou a voz. “Fique, ou aqueles que você ama também vão morrer.”
As palavras não ecoaram pelo quarto; em vez disso, deslizaram silenciosas pela minha cabeça, lisas como óleo e duas vezes mais sufocantes.
A escuridão ao meu redor continuava espessa e absoluta, enquanto o bip constante do monitor cardíaco se esticava até virar um único som longo e estridente.
Em algum lugar bem longe, pessoas gritavam, passos retumbavam e metal tilintava. Mas tudo soava distante, abafado pela calma que me engolia por inteiro.
Era para eu ter ficado apavorada. Mas, em vez disso, parecia tranquilo e sem peso, como flutuar sob água escura depois de lutar tempo demais para manter a cabeça fora dela. Então alguma coisa me agarrou.
Não eram mãos, e não eram médicos… era algo mais fundo, algo violento. A sensação rasgou através de mim sem aviso, enfiando garras invisíveis no que ainda restava de mim, antes de puxar com força.
A paz se estilhaçou na hora quando o ar golpeou meus pulmões num estouro brutal e irregular; a dor veio em seguida.
O monitor voltou à vida, e vozes explodiram ao meu redor. Meu corpo convulsionou sob os lençóis do hospital enquanto o caos varria o quarto.
“Ela voltou!”, alguém gritou, se lançando por cima da cama.
“Chamem a respiratória aqui!”, outra pessoa berrou, apertando o botão de emergência na parede.
Outra voz latiu perto do meu ouvido. “Rylee, você consegue me ouvir?”
~ Três anos depois ~
As Piney Woods carregavam um tipo diferente de silêncio do resto do Texas — mais denso, mais antigo. Os pinheiros altíssimos ao redor da casa abandonada balançavam de leve sob o vento de outubro, seus galhos rangendo bem acima, enquanto agulhas mortas estalavam sob minhas botas.
Em algum ponto mais fundo entre as árvores, um corvo grasnou, e então o som sumiu dentro da mata.
A casa em si estava torta, sob a vegetação tomada, logo além dos limites da cidade de Nacogdoches, enfiada no fim de uma velha estrada do condado que os moradores mal usavam mais — a não ser que estivessem caçando, pescando ou estúpidos o bastante para sair procurando confusão.
A julgar pela fita amarela de cena do crime tremulando no poste da caixa de correio, alguém tinha encontrado confusão de qualquer jeito.
Saí do SUV dos Texas Rangers e encarei a propriedade. Dez anos atrás, este lugar tinha pertencido aos Whitaker. Eu me lembrava da filha deles vendendo geleia de mirtilo no Texas Blueberry Festival, no centro, todo verão, enquanto o pai dela trabalhava em leilões de gado fora da cidade.
Agora, a antiga casa do rancho parecia meio devorada pelo tempo. A varanda que dava a volta na casa cedia, tomada por apodrecimento e abandono. Roseiras mortas subiam pelo corrimão em emaranhados espinhosos. Janelas estilhaçadas fitavam o vazio através das árvores.
A propriedade inteira parecia errada. Não parecia abandonada; parecia ocupada — e isso fez um nó pequeno se formar no meu estômago.
Ao meu lado, Brice Rowland bateu a porta do motorista antes de ajustar os punhos da jaqueta escura dos Rangers. Com um metro e noventa, ombros largos e um físico como se tivesse sido talhado direto do chão do leste do Texas, Brice era exatamente aquilo que a maioria das pessoas imaginava ao ouvir as palavras Texas Ranger. Ele era perigoso, controlado e impossível de ignorar.
Vários delegados parados perto das viaturas se aprumaram um pouco quando ele se aproximou. Isso acontecia em todo lugar aonde íamos. O pessoal de Nacogdoches respeitava Brice. Diabos, metade do condado tinha visto o homem crescer.
— A cena está segura? — Brice perguntou com calma, parando perto do pneu dianteiro.
O delegado Aaron Pike assentiu depressa, apertando uma prancheta contra o peito. — Sim, senhor. O xerifado isolou o perímetro faz uns vinte minutos.
Brice lançou um olhar para a casa. — Quantos corpos?
— Dois, por enquanto — Pike respondeu, a voz descendo um tom enquanto conferia as anotações.
Ao ouvir aquilo, um arrepio desceu pela minha espinha.
O maxilar de Brice se contraiu de leve antes de ele fazer um gesto para eu segui-lo pela calçada rachada.
Quando subimos os degraus da varanda, a madeira velha gemeu sob as botas dele.
— Cuidado onde pisa — ele resmungou sem olhar para trás, estendendo um braço para se apoiar no corrimão. — Este lugar está a um espirro mais forte de desabar.
— Reconfortante — respondi, seca, pisando com cuidado na varanda.
O canto da boca dele se mexeu quase imperceptivelmente. Aquele quase sorriso minúsculo mexeu comigo por dentro de um jeito que não tinha o menor cabimento, dadas as circunstâncias.
A porta da frente estava entreaberta, e o cheiro nos alcançou na mesma hora: decomposição, mofo e alguma coisa metálica por baixo de tudo. Meu pulso disparou, irregular, contra a garganta.
No instante em que cruzei a soleira, o mundo tombou violentamente para o lado e eu congelei. Letras brancas se estendiam pela parede do fundo, em traços grossos e irregulares.
EU TROUXE VOCÊ DE VOLTA DA MORTE, RYLEE. AGORA VOCÊ ME DEVE.
Todo o sangue sumiu do meu rosto. Não. Não, não, não.
De repente, o cômodo pareceu pequeno demais e quente demais. As bordas da minha visão escureceram enquanto uma pressão gelada se enroscava na nuca. Ele estivera ali. Aquela consciência invasiva e familiar pressionou meus pensamentos como dedos cutucando feridas antigas. Depois de nove anos, eu reconhecia aquela sensação na hora.
Meu estômago revirou com força e eu me virei, tropeçando de volta para a varanda antes de cair de joelhos na grama morta ao lado dos degraus. A náusea me rasgou por dentro.
Atrás de mim, botas martelaram as tábuas da varanda, até que uma mão quente pousou firme na minha nuca.
— Rylee — Brice chamou, o tom carregado de preocupação.
A aspereza profunda da voz dele me ancorou melhor do que o ar frio de outubro jamais conseguiria. Apoiei uma mão na terra, tentando estabilizar a respiração.
Meu corpo inteiro tremia sob o peso da pressão fantasma que ainda persistia dentro do meu crânio.
Brice se agachou ao meu lado sem hesitar. — O que aconteceu? — perguntou baixinho, os olhos vasculhando meu rosto.
Eu não conseguia responder porque a verdade horrível estava entalada no meio da minha garganta. A coisa dentro daquela casa sabia o meu nome.
Não escreveu Marshall Cody nem Srta. Cody. Escreveu Rylee, como se conhecesse o meu nome — como se me conhecesse pessoalmente.
O polegar de Brice pressionou devagar a base do meu pescoço, bem onde aquele aperto invisível e gelado ainda parecia permanecer sob a pele. — Fala comigo — ele murmurou, o rosto a poucos centímetros do meu.
Por fim, ergui os olhos para ele. Meu Deus, o medo que atravessou o rosto dele quase me quebrou. Não era medo por si mesmo; era medo por mim. E, de repente, o aviso de três anos atrás ecoou alto na minha mente outra vez. Fica, ou os que você ama também vão morrer.
O assassino não estava mais escalando. Ele estava se aproximando em círculos e, lá no fundo — em lugares que eu não queria examinar com cuidado demais —, eu já sabia que aquilo não era só mais uma cena de assassinato.
