Capítulo 5 Rosas
Capítulo 5
Don Antony
Sinto o vento gelado batendo no rosto e sei que já se passaram muitas horas. Passo a manga da camisa na testa e vejo o quanto estou suado, mas não quero parar.
Ouço o barulho dos sapatos da minha irmã, mas não tenho coragem de olhar para ela.
— Tony... está tudo bem. Venha tomar um banho e se vestir, você pode ficar resfriado — falou suavemente, mas neguei com a cabeça. — Eu sei que a terra te acalma, mas a sua noiva já está bem, está em segurança.
— Ela nunca vai me perdoar, Laura. Eu perdi a cabeça outra vez... — Juntei as pétalas soltas que caíram das rosas brancas. — Olha só, até as rosas estão tristes, Laura.
Senti a mão dela tocando a minha, e a olhei.
— Vai ficar tudo bem. Amanhã será um novo dia e você terá outra oportunidade de se redimir, ou se desculpar.
— Tem razão — lembrei que de manhã eu seria o jardineiro e ela não me olharia como olhou hoje.
Levantei e fui tomar um banho, nunca fui possessivo, mas o fato de imaginar que outros homens a visitam e talvez até a beije como beijei... me deixou louco.
O tio dela me deixou assim, falando aquelas coisas, e talvez amanhã eu tenha oportunidade de perguntar.
No dia seguinte:
Antes do sol nascer, eu já havia colhido as rosas mais lindas do meu jardim. Peguei de todas as cores e eu mesmo lhe fiz um buquê. Fiquei atrás da mureta, e quando ela saiu eu joguei uma pedrinha lhe chamando a atenção.
Os olhos dela brilharam, não sei se foram as rosas ou o fato de me ver, mas eu nunca havia recebido um abraço tão caloroso, e simplesmente retribuí.
— Você voltou.
— Eu trouxe rosas para você. Você gosta?
— São lindas — falou engolindo o choro e segurando o buquê. O seu olhar admirava as belas flores, mas estavam tristes e eu sabia que era culpa minha.
— Quer conversar? — ela me olhou nos olhos e parecia me analisar.
— Eu tenho a impressão de que te conheço de algum lugar — puxou o meu boné e arrumou o meu cabelo bagunçado com as mãos macias. — O seu cabelo é bonito, só está desalinhado.
— Obrigado... eu estava louco para te ver de novo.
— Olha... eu estou muito triste, pois não poderemos mais nos ver. Eu estou prometida a outro homem — tive vontade de contar pra ela que eu sou esse outro homem, minha boca chegou a abrir, mas não tive coragem e me calei.
— E como se sente? — levei a mão até seu cabelo e a acariciei.
— Um objeto. Completamente manipulável e sem saída. Odeio o Don Antony — aquilo fez meu peito doer, mas precisei me conter. Se ela souber agora quem sou, não poderei me aproximar, ela vai odiar todas as minhas versões.
— Se foi o Don que a escolheu, não poderá mudar nada.
— Como sabe?
— São as regras da máfia italiana, ele até pode ser rejeitado, mas as consequências são altas... — ela se encolheu.
— Eu não sei o que fazer.
— Fuja comigo hoje. Amanhã já é sexta-feira, certamente ele a buscará para se preparar, então vamos aproveitar seu último dia — ela me olhou em dúvida.
— Mas, e o meu tio?
— O Don não permitirá que ele faça nada, e enquanto estiver comigo eu também não deixarei... venha, antes que ele apareça — estendi a mão e fiquei feliz quando ela aceitou.
Saímos quase correndo pelo barranco, e usamos o matagal para sairmos sem que nos vejam.
— Porque odeia tanto o Don? — perguntei.
— Ele pensa que é o dono de tudo, e não sou uma mercadoria — segurei ela pelo braço quando estávamos atrás de uma árvore e a encostei ali.
— Não, você não é... acontece que é a mulher mais linda de Roma e ele deve ter ficado louco por você, não conseguiu se conter — cheguei bem perto.
— Você o conhece? Como sabe tanto sobre ele?
— Eu apenas, imagino — passei os dedos nos lábios dela. — Eu sei que eu também faria qualquer coisa para poder te beijar agora... a sua pele delicada, o som doce da sua voz, a maciez dos seus lábios... — Cheguei bem perto.
— O meu tio me mataria se eu o beijasse — sussurrou.
— Por quê? Ele não precisa saber — sussurrei de volta.
— Ele protege a minha união com o Don com unhas e dentes. Ontem ele te viu me beijando e me xingou por não respeitar o Don.
— O Don?
— Sim.
— Eu confesso que ouvi parte da conversa e pensei que fossem outros namorados seus.
— Não... eu nunca beijei ninguém, aqui. Apenas no colégio, quando eu tinha dezesseis anos, antes da formatura, depois disso nunca mais — fiquei a olhando por um tempo e percebendo o quanto fui burro.
Ela estava sendo julgada por minha culpa e eu ainda a humilhei naquele banheiro. Respirei fundo e a abracei, inquieto. O meu coração estava estranho, doendo. Com a mão direita passei de sua nuca até seu cabelo, com os dedos entreabertos, então com a outra tirei os cabelos de seu rosto e beijei sua testa, por mais que eu esteja morrendo de vontade de beijá-la, irei respeitar seu desejo, meu pai já me explicou demais como o respeito funciona com as mulheres, e não quero deixá-la decepcionada com o jardineiro também.
— Vamos, vem conhecer um rio muito bonito que fica escondido entre aqueles dois terrenos — apontei.
— Não é privado? Nunca ouvi ninguém dizendo que foi até lá, até comentam que é do Don.
— Fique tranquila, eu conheço o dono.
— Está bem.
Me olhou com aquele sorriso lindo e então segurei sua mão e fomos juntos até a parte de trás do jardim que meu pai e eu reformamos, em frente à casa onde vamos morar quando nos casarmos, e espero que esses momentos bons possam ser lembrados depois, quando ela souber a verdade.
