Vendida para o Don

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Capítulo 2 O jardineiro

Capítulo 2

Fabiana Prass

— Mas, que droga. Por que me enganou dessa maneira? Já não basta ter me tirado do Brasil prometendo uma vida melhor? Agora também vai tirar proveito e me vender? — bati a mão no porta-luvas do carro, muito brava.

— Eu ouvi falar bem da família Strondda. Depois que o pai dele assumiu, Roma ficou muito segura. Você deveria me agradecer, vai ter casa boa, comida boa e sair do meio do lixo.

— Eu não sou interesseira, e você sabe disso. Vim para trabalhar, e não para me sujeitar a isso, imagina quando todos ficarem sabendo lá no Brasil. Se é que um dia vou ter o contato deles novamente, já que você fez o favor de perder os nossos celulares num “bag” no dia da venda — falei com a voz embargada... lembrar que tenho família e não saber onde e como estão, é triste.

— Agora está feito. E acho bom obedecer, sabe que quando o Don quer uma coisa ele consegue, e se não facilitar é perigoso matarem a gente — o olhei assustada.

— Acha que ele faria isso, mesmo? — Fez uma careta duvidosa, e tive vontade de enfiar pedaços de papel naquela boca grande dele.

— Eu só sei que agora vamos ficar ricos. Com um lugar para separar o lixo, a máquina prensadora e ainda um caminhãozinho...

— Mas é burro, mesmo. Ainda nem soube pedir... não acredito que não valho mais que um pedaço de terra e uma máquina — coloquei a cabeça para fora da janela e ele parou o carro.

— Ué não vai pegar os sacos de lixo?

— Já chega. Vamos pra casa.

— Já sabe que se parar mais cedo, fica sem jantar — olhei para a sacola com pães e bolo.

— Tudo bem, eu não quero jantar — escondi a sacola, senão ele tomaria de mim.

Me neguei a trabalhar mais, e fomos para a casa dele. Me tranquei no quarto assim que tomei um banho, e comi apressada aqueles alimentos da casa do Don, mas foi difícil dormir.

Acordei cedo, pois achei melhor separar o lixo de uma vez, já que hoje eu não conseguiria descansar nada. Abri vários “big bags”, um do lado do outro, e então comecei a olhar saco por saco na minha bancada.

De repente vi algo de valor numa sacolinha, mas escutei um barulho de batida de carro e me assustei, derrubando a sacolinha no chão. Como o lugar onde moro é alto e embaixo tem grades, deve ter ido parar lá na estrada, e desci apressada para pegar.

Quando cheguei, me assustei com um homem muito bonito parado na rua, e ele olhava para a sacolinha que parou perto de seus pés.

— Essa sacola é minha — falei e ele se abaixou para pegar.

— Claro. Eu pego pra você — ele ficou me olhando diferente, e fiquei sem graça. Quando fui pegar a sacola, as nossas mãos se tocaram, e levantei as sobrancelhas o fitando.

— Obrigada...

— Você é muito bonita. A mais bela de Roma, eu diria. Aposto que não é daqui... — aquela voz serena e grossa me fez arrepiar dos pés à cabeça. — Esses olhos me dizem muito sobre você...

— O que os meus olhos dizem? — perguntei sem delongas, e me surpreendi com minha coragem, nossos olhos fixados e me perdi naqueles olhos escuros.

— Dizem que é perfeita... que tem um coração bom, e uma beleza única.

— Pare de dizer mentiras, olha para a minha roupa, os meus cabelos...

— A sua roupa não diz nada sobre você. Pelo contrário... — pareceu pensar. — Elas dizem que é esforçada e corajosa. Sem contar que esses cabelos naturais são como águas doces em um rio limpo e adornado por belas flores — engoli seco.

— Sou Fabiana — estiquei a mão. — Vim do Brasil... — Ele a segurou e então me lembrei que estava suja. — Oh, não encoste aí. Eu estava trabalhando — ele sorriu, e então vi quão lindo era aquele sorriso, esse homem parece de mentira.

— Não se importe tanto com detalhes. Eu também estava mexendo na terra, só parei por causa de um barulho alto, mas foi o escapamento de um carro que passou — ele se abaixou e pegou uma daquelas flores amarelinhas de beira de estrada e notei que suas mãos estavam sujas de terra. Então a colocou na minha orelha e me encantei por esse homem.

Ele é o oposto do idiota que me comprou, parece mais humano, sensível... usa palavras leves, parece um homem romântico e imediatamente sei que estou em apuros, pois jamais deixarei aquele ogro, parente do Shrek encostar em mim.

— FABIANAAA! — meu tio gritou, me tirando da bolha tão bonita que estive envolvida.

— Preciso trabalhar, senão arrumarei problemas, meu tio não deixa passar — falei meio sem graça.

— O que quer dizer com isso? — parecia sério agora, seu semblante ficou carregado.

— Vamos deixar para a próxima conversa, você mora por aqui, não é?

— Sim, moro aqui perto... amanhã de manhã passarei por aqui novamente — fiquei o olhando e penso que até os meus olhos sorriam, eu não queria me afastar desse homem.

— FABIANAAA! — ouvimos outro grito e eu fiquei com medo, então simplesmente saí correndo.

— Eu preciso ir... até amanhã — fui falando enquanto corria e só depois me lembrei que não perguntei o nome daquele homem tão gentil, só me apressei em trabalhar, já apanhei do meu tio por não trabalhar direito, e hoje, prefiro evitar.

— Onde foi que voltou tão sorridente? Saiu daqui disposto a matar um dos nossos homens, e voltou sorrindo? — Minha irmã, Laura, me perguntou com um abraço caloroso. — Ah. Vejo que foi mexer nas plantas de novo, mas não é só isso.

— Eu fui visitar a minha noiva, acertar os detalhes do nosso casamento — fui lavar as mãos.

— E, acertou? Pois com essas mãos sujas, acho difícil — zombou, me ajudando com as mangas da camiseta velha que coloquei para mexer na terra.

— Não sei..., espero que sim — respondi com um sorriso, mesmo sabendo que aquela ragazza tão bela não me reconheceu com o boné e as roupas simples.

— Vou avisar a mamãe que ela pode voltar para a cerimônia. Você vai sobreviver ao casamento — brincou Laura.

— Com toda a certeza — respondi ao me imaginar possuindo aquela ragazza na noite de núpcias.

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