Capítulo 6
Emma
Sebastian apertou um botão no telefone de mesa. “David. Entre.”
A porta se abriu na mesma hora. O assistente dele entrou carregando uma caixa preta e fina.
“A srta. Hartley vai precisar de um telefone novo”, disse Sebastian, sem olhar para nenhum de nós. “Criptografado. Três contatos — o meu, o seu, a recepção da Zenith. O número antigo dela continua ativo, mas é assim que vamos nos comunicar. Configure agora.”
David abriu a caixa. Um iPhone novo, ainda embalado. Ele ligou e começou a configurar enquanto eu ficava sentada ali, vendo minha vida se reorganizar em torno das exigências de Sebastian.
“Senha?” David me perguntou.
Eu disse uma. Ele digitou, adicionou os contatos e me entregou. A tela mostrava três nomes. Só isso. Como se eu não existisse fora desse arranjo.
“Fique com seu telefone antigo”, disse Sebastian. “Use para todo o resto. Este aqui é para mim. Quando eu ligar ou mandar mensagem por este, você atende imediatamente. Entendido?”
Assenti. Minha garganta estava apertada demais para falar.
David saiu. Sebastian empurrou uma pasta pela mesa. “Confirmação da transferência bancária. A clínica do seu pai vai receber o pagamento até as oito da noite. O resto quita suas outras dívidas.”
Abri. Vi os números. Meio milhão de dólares saindo da conta dele para o hospital. Outros 120 mil divididos em pagamentos mensais. A dívida com Derek Morrison — sumiu. Os cartões de crédito — sumiram. Tudo em que eu vinha me afogando, apagado com uma assinatura.
“A conta do seu pai vai estar quitada até as oito da noite”, ele disse. “Você pode vê-lo amanhã, quando o transferirem para a ala psiquiátrica.”
Ele foi até a janela. Tirou um charuto. Acendeu.
Eu estava dispensada.
Levantei. Minhas pernas pareciam instáveis. Eu tinha dois celulares na bolsa agora. Um que era meu. Um que era dele. Um que me ligava à minha vida. Um que me ligava ao que quer que eu tivesse acabado de concordar em me tornar.
Na porta, parei. Olhei para trás.
Ele estava de pé na janela, de costas para mim, a fumaça subindo em espirais até o teto. A cidade se espalhava lá embaixo como se ele a tivesse conquistado.
Como se ele tivesse acabado de me conquistar.
Eu fui embora.
Às duas da tarde, o hospital confirmou a transferência. “A conta do seu pai está em dia. Você pode visitar amanhã, quando eles o transferirem para a ala psiquiátrica.”
Amanhã. Não hoje.
Eu fiquei na esquina do lado de fora do prédio da Zenith, encarando o nada. O dinheiro estava lá. Meu pai estava estável. A crise tinha acabado.
Eu devia ter sentido alívio.
Em vez disso, eu me senti entorpecida.
Eu tinha assinado um contrato que me deixava disponível para Sebastian Pierce por seis meses. Eu tinha assinado abrindo mão do meu direito à privacidade, à autonomia, a qualquer fingimento de que meu corpo era meu. Eu tinha feito isso de olhos abertos. Tinha feito sabendo exatamente o que significava.
E eu faria de novo. Essa era a pior parte. Se ele colocasse aquele contrato na minha frente agora, eu assinaria de novo. Porque a alternativa era ver meu pai morrer.
O celular novo pesava na minha bolsa. Preto. Elegante. Caro. Uma coleira disfarçada de tecnologia.
Ele não tocava. Não vibrava. Só ficava ali, esperando.
Peguei o metrô de volta para o Brooklyn.
Quarta-feira. 9h. Hospital Psiquiátrico Estadual de Connecticut. Um prédio antigo de tijolos, com grades em algumas janelas. Um posto de segurança na entrada, onde conferiram meu documento e me fizeram esvaziar os bolsos numa bandeja de plástico.
Eles me conduziram por portas trancadas que zumbiam e estalavam atrás de mim. Por corredores com cheiro de desinfetante e desespero. Até o quarto 512.
Meu pai estava sentado perto da janela, com roupas de hospital — calças largas de algodão e uma camisa de botão que ficava pendurada no corpo dele. Soro no braço esquerdo. O cabelo mais ralo do que eu lembrava. O rosto acinzentado.
Quando ouviu a porta abrir, ele se virou.
“Emma.” A voz dele estava áspera. “Você veio.”
— Claro que eu vim. — Puxei uma cadeira para perto e segurei a mão dele. Parecia papel. Como se, se eu apertasse com força demais, fosse rasgar.
Ficamos sentados em silêncio. Eu não sabia o que dizer. Sinto muito parecia pequeno demais. Vai ficar tudo bem soava como mentira.
— As contas — ele disse, por fim. — Eles me disseram que está tudo pago. A conta inteira. Como você...
— Eu resolvi. Não se preocupe com isso.
Os olhos dele se encheram d’água. — Emma, me desculpa. Eu devia ter sido mais cuidadoso. Eu devia ter visto isso chegando. — A voz falhou. — O investimento parecia tão sólido. Toda a papelada estava em ordem. Eu conferi tudo duas vezes.
Apertei a mão dele com cuidado. — Pai, você se lembra dos últimos meses antes de tudo desabar? Quem estava ajudando o senhor com os documentos do fundo?
Ele franziu a testa, tentando se concentrar apesar da névoa dos remédios. — Tinha aquele rapaz da empresa de compliance. Muito profissional. Tinha todas as credenciais certas. — Fez uma pausa. — Por que você pergunta?
— Eu só estou tentando entender a sequência das coisas. Quando a Sophia começou a aparecer no escritório?
— Sophia? — Ele pareceu confuso. — Sua irmã foi algumas vezes no ano passado. Disse que queria aprender sobre o negócio. A Linda achou que seria bom para ela. — A testa dele se vincou. — Ela fez muitas perguntas sobre as contas offshore. Eu achei que era só curiosidade.
Meu peito apertou. — Que tipo de perguntas?
— Sobre os protocolos de assinatura. Os procedimentos de transferência bancária. — Ele balançou a cabeça devagar. — Na época, eu não dei importância. Ela é da família.
Família. A palavra tinha um gosto amargo.
— Ela chegou a se encontrar com alguém enquanto estava lá? Algum dos seus sócios?
O olhar do meu pai ficou distante. — Eu não... eu não consigo lembrar direito mais. Tudo daquela época está embaralhado. — As mãos dele começaram a tremer. — Eu fico tentando entender onde foi que eu errei. O que eu deixei passar.
As peças começavam a se encaixar. Sophia perguntando sobre protocolos de assinatura. Adrian, de repente, tendo acesso a informações das contas offshore. Os documentos falsificados que apareceram com a assinatura do meu pai. E o timing de tudo — logo depois de eu apresentar Adrian à família, bem quando a Sophia começou suas visitas “curiosas” ao escritório do meu pai.
Fazia sentido. Sentido demais.
Mas eu não podia ter certeza. Ainda não. Suspeita não era prova. O padrão parecia certo, mas padrões podiam ser coincidência. Eu precisava de documentos. Registros de transferências. Rastro de e-mails. Alguma coisa concreta que ligasse Adrian às assinaturas falsificadas, que mostrasse Sophia repassando informação.
Sem evidência, era só uma teoria. Uma teoria terrível, plausível, que explicava tudo — mas ainda assim só uma teoria.
E eu não podia contar ao meu pai. Não daquele jeito, medicado e frágil, se culpando por erros que talvez nem tivesse cometido. Não quando eu não tinha prova. E se eu estivesse errada? E se eu os acusasse e no fim fosse outra coisa, completamente diferente?
Mas eu não estava errada. Eu sabia que não estava.
Eu só precisava provar.
Os olhos dele começavam a perder o foco. O remédio o puxando para baixo.
— Estou cansado — ele sussurrou. — Tão cansado.
— O senhor Hartley precisa descansar agora — disse uma enfermeira, da porta.
Fiquei sentada mais um instante, observando-o. O jeito como os ombros dele caíam para a frente. O tremor nas mãos, mesmo quando estavam paradas.
Pensei no rosto de Adrian naquela noite, na garagem do estacionamento. O anel que eu tinha dado a ele ainda no dedo. O jeito como ele me dispensou com um gesto, como se eu não fosse nada.
Pensei no sorriso de Sophia através do vidro do carro.
Alguma coisa endureceu no meu peito. Silenciosa e fria.
Cada documento. Cada transferência. Cada mentira. Eu ia encontrar tudo.
E então eu ia garantir que aquilo não pudesse ser enterrado.
