Capítulo 4
Sebastian
“Emma Hartley.”
O nome não significava nada para mim. Uma desconhecida de um bar. Uma mulher se afogando em luto.
E então meus dedos encontraram alguma coisa na parte de trás do pescoço dela. Levemente elevada. Em forma de crescente.
Meu corpo inteiro enrijeceu.
Uma lua crescente. Do lado direito do pescoço, logo abaixo da linha do cabelo. Exatamente onde ficava a de Isabelle. Exatamente o formato que eu vinha procurando havia vinte anos.
Eu me obriguei a continuar movendo a mão devagar. Mas meu peito estava apertado, o coração martelando.
Isabelle tinha essa marca. Eu a havia contornado com a ponta dos dedos mil vezes ao longo de quatro anos, acreditando que ela era a escolhida. A garotinha que tinha me salvado quando eu tinha oito anos, me tirando de um afogamento na propriedade da minha família em Southampton. A menina com uma marca de nascença em forma de crescente que tinha jogado uma boia salva-vidas para mim.
Até seis meses atrás, quando eu ouvi Isabelle ao telefone: “—a cicatriz cicatrizou perfeitamente, mal dá pra perceber que foi criada artificialmente—”
Ela desligou na hora. Inventou uma desculpa. Mas a dúvida já tinha criado raízes. E se ela tivesse falsificado? Se queimado de propósito para criar a marca que sabia que me faria confiar nela?
Eu tentei ignorar. Pensar que quatro anos juntos significavam alguma coisa. Mas eu nunca consegui me livrar daquilo.
E agora Emma tinha a mesma marca. Meus dedos a contornaram de novo. A pele era lisa. Natural. Não aquela aspereza discreta que eu sempre tinha meio notado no pescoço de Isabelle e ignorado.
Aquilo era uma marca de nascença. Uma de verdade.
“O que é isso?”, ouvi a mim mesmo perguntar.
“Marca de nascença”, ela murmurou. “Eu sempre tive.”
Sempre.
“Desde que nasceu. Por quê?”
Eu não conseguia responder. A menos que Emma fosse a verdadeira. Vinte anos procurando. Quatro anos com Isabelle. Se Emma fosse a verdadeira, tudo com Isabelle tinha sido uma mentira.
Peguei meu celular, digitando com uma mão só.
Quero um levantamento completo sobre Emma Hartley. Tudo. Prioridade: infância e verão de 2003. Se ela ou a família dela compareceram ao baile beneficente na propriedade dos Pierce em Southampton naquele ano. Preciso de prova fotográfica. Até as 9h. —S.P.
Depois uma segunda mensagem:
Separadamente, máxima discrição: investigue se Isabelle Laurent fez procedimentos dermatológicos no pescoço. Lado direito, abaixo da linha do cabelo. Tratamentos de queimadura, revisão de cicatriz. Prontuários médicos. Mesmo prazo. —S.P.
Meu celular vibrou às 5:47 da manhã. Fui até a janela.
Primeiras descobertas: Emma Hartley, 27. Williamsburg, Brooklyn. Pai: Charles Hartley, internado ontem à noite no Connecticut State Psychiatric, tentativa de suicídio, atualmente na UTI. Família Hartley tinha presença sazonal nos Hamptons no início dos anos 2000. Prova fotográfica até as 9h.
Adicional: Emma Hartley é analista júnior, Departamento de Investimentos, Zenith Capital. Começou há 14 meses. Investigação sobre Isabelle em andamento. —D.C.
Ela trabalhava para mim. Estava trabalhando no meu prédio havia mais de um ano.
Família Hartley. Hamptons. Início dos anos 2000. Ainda não confirmado. Mas perto.
Olhei de volta para Emma. O pai dela tinha tentado se matar. Ela estava se afogando em dívidas. Eu não podia contar. Não até ter as fotos. Então, quando ela acordasse, eu seria o CEO. Frio, controlado. Eu a mandaria embora e resolveria o resto depois.
Emma
Quando acordei, uma luz pálida atravessava as janelas. Eu estava sozinha.
6h47. A realidade desabou de volta — meu pai na UTI, vinte e dois mil dólares até as 20h de hoje. Menos de quatorze horas.
Vesti-me depressa, com as mãos tremendo. Quando saí, Sebastian estava junto às janelas, recortado pela luz do sol nascendo. Tinha trocado por um terno novo — cinza-chumbo, perfeitamente ajustado. O cabelo escuro ainda estava úmido, penteado para trás, longe do rosto. Mesmo do outro lado do quarto, ele irradiava aquele tipo de controle que vem de nunca precisar se preocupar com dinheiro. De nunca ter que escolher entre a vida do seu pai e a ruína financeira.
Ele estava com o celular encostado no ouvido, a voz baixa, mas cortante.
— Eu não me importo. Eu preciso de tudo até as nove da manhã. Todas as fotografias. — Uma pausa.
Ele encerrou a ligação e se virou. Seus olhos encontraram os meus — azul-gelo, indecifráveis.
— Chamei um carro para você — disse, sem emoção. — Está esperando.
— Obrigada. — Peguei meu casaco, a mente já disparando. Tomar banho, trocar de roupa, ir para o escritório. Talvez a Claire soubesse de alguma opção de empréstimo emergencial. Vinte e dois mil dólares. Oito da noite—
— Espera. — A voz dele atravessou meu turbilhão.
Ele foi até uma mesinha lateral e tirou algo de uma gaveta. — Você deixou isto.
Meu brinco de pérola. Um dos pontos de luz da minha mãe.
Eu o peguei, nossos dedos se roçando. — Obrigada.
— Seu pai — disse ele. — O hospital. Você conseguiu o dinheiro de que precisava?
— Ainda não. Tenho até hoje à noite.
Ele assentiu uma vez. — O carro vai levar você aonde precisar ir. — Uma dispensa, clara e definitiva. Mas eu mal registrei — minha cabeça já tinha voltado ao prazo, ao valor impossível, às quatorze horas que me restavam.
Saí sem dizer mais nada.
O sedã preto me deixou no apartamento da Rachel quarenta minutos depois. Subi os três lances de escada no piloto automático, ainda com as roupas de ontem à noite.
Rachel me entregou café sem dizer uma palavra.
— Quem era ele?
— Só alguém. — Eu não conseguia pensar nisso agora. — Preciso tomar banho e ir trabalhar.
— Você está bem?
— Eu preciso descobrir como conseguir vinte e dois mil dólares até as oito da noite, ou eles vão parar o tratamento do meu pai. — Minha voz falhou na última palavra.
— Porra. — Rachel pousou a caneca. — E se—
— Eu já tentei de tudo. — Esfreguei o rosto. — Talvez a Claire tenha alguma ideia.
Tomei um banho rápido, peguei uma blusa limpa emprestada e fui para o metrô. O deslocamento da manhã estava lotado, mas eu mal percebia, repassando cálculos que nunca fechavam.
A torre de vidro da Zenith Capital se agigantava à minha frente quando eu saí em Wall Street. Minhas mãos tremiam enquanto eu passava o crachá e pegava o elevador.
Minha mesa estava exatamente como eu a tinha deixado. Entrei no sistema, já formulando um e-mail para a Claire.
Havia um e-mail esperando.
Reunião com S. Pierce ao meio-dia. Escritório dele, 30º andar. —David Chen, Assistente Executivo do CEO
S. Pierce. Sebastian Pierce. O CEO.
Abri o diretório da empresa. Lá estava ele. A foto mostrava o mesmo maxilar marcado, os mesmos olhos azul-gelo que tinham me encarado no escuro.
Meu chefe. Eu tinha dormido com o meu chefe.
Meu celular vibrou.
Bom dia, Srta. Hartley. Não se atrase. —S.P.
Ele sabia quem eu era desde o momento em que eu disse meu nome. Em troca, tinha me dado apenas o primeiro nome.
E agora queria me ver no escritório dele.
