Capítulo 1
Emma
Ouvi ela primeiro.
O gemido de uma mulher, baixo e sem fôlego, ricocheteando nas paredes de concreto do estacionamento. Meu cérebro travou por um segundo — talvez uma TV em algum lugar, talvez o celular de alguém. Aí veio o grunhido, ritmado e inconfundível, e meu estômago despencou.
Não. Não, não, não. Não aqui. Não agora. Não ele.
A BMW do Adrian estava a três fileiras dali. Cinza grafite, placa personalizada — “LEGACY1”. Os vidros embaçados por dentro, a umidade grudada no vidro. Balançando.
Eu conhecia aquele carro. Eu tinha sentado naquele banco do passageiro mil vezes. Eu tinha dormido nele em viagens longas para o interior. Eu tinha beijado ele ali depois do nosso primeiro encontro de verdade, nervosa e eufórica, achando que tinha encontrado algo bom.
O carro continuava balançando. Um ritmo constante. Inconfundível.
Outro som — um suspiro agudo, e então: “Ai, porra, isso, bem aí—” A voz dela falhando na última palavra. Depois o gemido grave dele, daquele tipo que significava que ele estava perto. Os sons que eu costumava fazer ele fazer.
Meus pés continuaram andando mesmo com meu cérebro berrando para eu dar meia-volta. Mas eu não conseguia parar. Eu precisava saber.
Pelo vidro embaçado, eu via formas. A silhueta dela montada nele no banco do motorista, cabelo escuro caindo para a frente, a cabeça jogada para trás. As mãos dele nos quadris dela, apertando forte, guiando o ritmo.
“Porra, você é tão gostosa—” A voz dele, áspera e desesperada.
Ela riu — sem fôlego, encantada — e o som me atravessou como uma lâmina. “Melhor do que ela?”
Uma pausa. Só um batimento. Então: “Muito melhor.”
As palavras me atingiram como um golpe físico. Eu parei de respirar.
Cheguei mais perto. Perto o bastante para enxergar por uma pequena clareira no embaçado. As unhas vermelhas dela cravadas nos ombros dele. A curva pálida da coxa nua, a saia embolada na cintura. A camisa dele aberta, a boca dela no pescoço dele. O jeito como se moviam juntos, frenéticos e urgentes, como se estivessem famintos por aquilo.
Como se já tivessem feito aquilo antes. Muitas vezes antes.
“Meu Deus, Adrian—” Ela arfava agora, os movimentos ficando mais rápidos, mais desesperados.
“Isso, baby. Pega o que você precisa.” As mãos dele subiram pelas costas dela, se enroscando no cabelo, puxando a boca dela para a dele.
Minhas chaves escorregaram da minha mão e bateram no concreto com um estrondo que ecoou pelo estacionamento inteiro.
Tudo parou.
O movimento dentro do carro congelou. Um segundo. Dois. Três.
“Merda. Você ouviu isso?”
“Não é nada.” A voz dele. Baixa e áspera e um pouco ofegante. “Provavelmente só alguém pegando o carro.”
“Adrian, e se—”
“Shh. Tá tudo bem. Vem cá. A gente não terminou.”
O carro começou a se mexer de novo. Mais devagar agora, mais cuidadoso, mas ainda se mexendo. Ainda transando. Como se quem quer que estivesse lá fora não importasse. Como se eu não importasse.
O vidro do motorista abriu uma fresta — só um dedo — e uma mão apareceu de repente. Eu conheci aquela mão antes mesmo de ver o anel. Dedos longos. A cicatriz no polegar de quando ele tentou consertar minha estante no ano passado. O anel de prata no dedo anelar pegando a luz fluorescente.
O anel que eu tinha dado a ele. O que eu tinha escolhido com cuidado na Tiffany’s, gravado com as coordenadas do restaurante onde ele tinha me dito pela primeira vez que me amava.
Aquela mão — a mão dele, usando o meu anel.
Nem a decência de sair do carro. Só aquela mão, aquele anel, me mandando sumir para ele poder terminar o que tinha começado.
Como se eu não fosse nada. Como se três anos da minha vida pudessem ser descartados com um movimento do pulso enquanto o pau dele ainda estava enterrado na buceta daquela mulher.
O vidro subiu de novo. Pela fresta estreita, eu ouvi ela outra vez: “Eles foram embora?”
Uma pausa. Aí a voz dele, irritada agora. Impaciente. “Não sei. Não me importa. Agora, onde a gente estava?”
O carro voltou a balançar. Mais rápido dessa vez. Mais forte. Os gemidos dela ficaram mais altos. Mais agudos. Crescendo para alguma coisa. “Ai, meu Deus, ai, meu Deus, eu vou—”
“Vai. Goza pra mim.”
Ela gritou — alto o bastante para ecoar pelo estacionamento — e o carro sacudiu violentamente por alguns segundos antes de ficar imóvel.
Silêncio. Só respiração pesada. Então a risada dela de novo, satisfeita e preguiçosa.
“Porra. Aquilo foi—”
“Eu sei.” A voz dele estava áspera. Saciada. “Você é incrível.”
Era o Adrian. O Adrian que me trazia café todas as manhãs. O Adrian que me abraçou quando minha mãe morreu. O Adrian que ficou comigo no hospital quando o papai adoeceu pela primeira vez e prometeu que a gente ia passar por aquilo juntos. O Adrian que disse que queria se casar comigo um dia.
Minhas mãos tremiam. Meu corpo inteiro tremia.
Pensei em socar a janela. Gritar. Exigir respostas.
Mas não fiz.
Porque, em algum lugar por baixo do choque e da dor, eu já sabia. Eu já sabia o que significavam aquelas “ligações de trabalho” tarde da noite, aquelas “reuniões com clientes” nos fins de semana e aquela colônia nova que eu não reconhecia. Eu já sabia o que tudo aquilo queria dizer.
Eu sabia havia semanas. Talvez meses. Só não queria enxergar.
Ouvi movimento dentro do carro. O roçar de tecido. “A gente provavelmente devia ir.”
“É. Volta pro seu lugar. Eu te levo pra casa.”
O som dela saindo de cima dele, indo para o lado do passageiro. Um zíper. O palavrão baixo dele ao se ajeitar. Depois, o clique dos cintos.
O motor ligou. Os faróis da BMW acenderam, fortes e cegantes, batendo direto no meu rosto.
Dei um passo para trás por instinto, indo para a direita até ficar atrás de um pilar de concreto. Encostei nele, observando o carro pela borda.
Quando o carro virou para sair, as luzes fluorescentes fracas foram o suficiente para iluminar o interior pela janela do lado do passageiro. Adrian estava concentrado na estrada à frente. Mas ela — a mulher no banco do passageiro — estava com o rosto virado para o meu lado.
Só aqueles poucos segundos, só o tempo suficiente para eu vê-la com clareza.
Cabelo escuro. Batom vermelho borrado pela boca e pelo queixo. Ajustando a alça do vestido. O pescoço coberto de marcas recentes — chupões, marcas de mordida, a prova do que tinham acabado de fazer.
Então ela me viu.
Nossos olhos se encontraram através do vidro.
Sophia.
Minha meia-irmã. A enteada do meu pai. A garota que tinha morado na nossa casa nos últimos cinco anos, que se sentava na minha frente no jantar todas as noites, que me chamava de “mana” e pegava minhas roupas emprestadas.
Por um segundo congelado, a gente só ficou se encarando.
Eu esperei culpa. Vergonha. Algum lampejo de remorso.
Em vez disso, ela sorriu.
Não um sorriso de desculpas. Nem de culpa. Um sorriso triunfante. Como se tivesse ganhado alguma coisa. Como se estivesse competindo por um prêmio que eu nem sabia que estava em disputa, e finalmente tivesse reivindicado.
Então ela ergueu a mão — de propósito, devagar, sem desviar o olhar do meu — e limpou com o polegar o batom borrado do canto da boca. Levou o dedo aos lábios. Lambeu, limpando tudo.
O gesto foi obsceno. Deliberado. Um “vai se foder” embrulhado num sorriso.
“Adrian”, ela disse, com a voz doce e preguiçosa, virando-se para ele. A mão dela deslizou para a coxa dele. Possessiva. Marcando território. “A gente pode se ver de novo amanhã?”
“Claro.” A voz dele, quente e carinhosa. Sem olhar uma única vez na minha direção.
O carro subiu a rampa.
As lanternas traseiras desapareceram, e eu fiquei sozinha na garagem com minhas chaves caídas e o som da minha própria respiração ecoando no concreto.
Abaixei para pegar as chaves. Minhas mãos tremiam tanto que precisei tentar três vezes.
De manhã, o advogado tinha dito que alguém falsificou as assinaturas do papai. Alguém com acesso aos documentos pessoais dele. Alguém em quem ele confiava.
Adrian tinha esse acesso. Adrian, que tinha sido tão prestativo com as finanças do papai. Adrian, que passava horas no escritório do papai “ajudando” com os investimentos.
E Sophia sempre parecia tão interessada nos negócios do papai. Sempre fazendo perguntas, sempre rondando o escritório quando Adrian estava lá, analisando os arquivos.
Meu Deus.
O pensamento me atingiu como uma onda.
Meu telefone tocou.
Eu o puxei com as mãos trêmulas. Número desconhecido.
“Srta. Hartley?” Uma voz de mulher, profissional e pesarosa. “Aqui é a enfermeira Patterson, do Greenwich Psychiatric Care Center. Seu pai tentou improvisar uma forca com os lençóis hoje à noite. Nós o encontramos a tempo, mas o doutor Morrison acha que a senhora deve vir imediatamente.”
O telefone escorregou da minha mão. Bateu nos degraus, descendo três lances. A tela rachou, mas eu ainda conseguia ouvir a voz dela, metálica e distante: “Srta. Hartley? A senhora está aí?”
Eu me deixei escorregar pela parede e sentei no chão de concreto da escada.
O papai tentou se matar.
Adrian estava transando com a Sophia.
E eu era a idiota que tinha deixado os dois destruírem a gente.
