Capítulo 2 Capítulo 2 — Uma Vida Para Poucos
Hayley Moser tinha vinte e cinco anos, e sua vida sempre fora uma loucura. Foi tranquila apenas até os quatorze anos, depois disso só ladeira abaixo.
Sua mãe, uma pessoa que ela preferia nem qualificar, chamada Joan, se apaixonou pelo jardineiro da família, um homem quinze anos mais novo que ela. Seu pai, Will, era dono de uma imobiliária e trazia uma boa grana para casa, era um amor de homem, ou melhor, tinha sido. Joan, decidida a viver aquele amor proibido, deu um golpe no marido: vendeu a imobiliária para os concorrentes e sumiu com todo o dinheiro.
Desesperado, Will começou a beber, e numa noite chuvosa, ao volante embriagado, sofreu um acidente grave. O carro capotou sete vezes até parar na beira de um penhasco, um milagre ele não ter despencado. Do acidente, restou um homem sem os movimentos do pescoço para baixo e que nunca mais voltou a falar. Hoje ele vivia num asilo por escolha própria, e Hayley se virava para pagar o melhor tratamento possível para ele, visitando sempre que podia.
Na época do acidente, por azar, Hayley namorava um idiota cujo nome ela preferia nem lembrar. A única coisa boa que sobrou daquele relacionamento foi a amizade inabalável com a irmã dele, que se tornou sua melhor amiga: Wendy Vaught, também de vinte e cinco anos. Wendy era simples, gostava das coisas simples da vida, e sua bissexualidade deixava sua rotina bem agitada, já que não ficava seis meses num relacionamento. Se estivesse com um homem e aparecesse uma garota do tipo dela, Wendy não pensava duas vezes e mergulhava numa aventura. Mas não traía ninguém, preferia terminar antes, para o caso de um recomeço mais tarde.
Wendy a ajudou financeiramente no começo de tudo, até que o ex namorado egocêntrico de Hayley, Dereck Vaught, descobriu um ano depois que a irmã estava ajudando a ex e bloqueou os cartões e contas dela para impedir. Claro que ele apareceu com uma proposta ridícula e indecente para Hayley, que respondeu com um tapa na cara dele e uma joelhada tão certeira que Wendy contou tê lo visto andando estranho por mais de uma semana depois.
Sem a ajuda de Wendy, Hayley precisou se virar sozinha para continuar pagando o tratamento do pai. Arrumou alguns empregos, mas o que ganhava era muito pouco, até que um casal de irmãos gêmeos, conhecidos num dos trabalhos horríveis que teve, ensinou alguns truques para faturar dinheiro extra nos cassinos da cidade. Funcionou bem, conseguiu pagar o asilo e se sustentar, mesmo sendo uma adolescente de dezesseis anos solta pelas ruas, comendo qualquer besteira.
Só que nada é perfeito para sempre, e ela acabou entrando na mira do chefão, o dono de tudo. Nunca tinha visto o homem pessoalmente, mas os amigos avisaram para não deixá lo irritado. Passou a circular por cassinos diferentes da cidade, e cada vez ficava mais difícil se esconder. Da última vez que tentou a sorte, quase foi pega por Doug Saunders, e pelo que ouviu falar, não era nada bom ser pega por ele, já que o homem tinha fama de abusar de mulheres como ela antes de decidir o destino delas. Mas isso era só o que ela tinha ouvido, não sabia se era verdade, e sinceramente preferia nunca descobrir.
Naquela noite, sua melhor amiga Wendy a convidou para ir ao Cassino Império, o mais luxuoso da cidade. Não era a primeira vez que Hayley pisava ali, mas da última fora expulsa a mando do próprio dono, que percebera que ela não jogava limpo. Dessa vez, porém, estava ao lado de Wendy, como convidada oficial. A amiga tinha recuperado tudo havia um ano e queria voltar a ajudá la financeiramente, mas Hayley recusou, já estava acostumada a se virar sozinha e não queria depender dela para sempre. Ainda assim, aceitou de presente o look que usava naquela noite, a maquiagem impecável e o penteado no cabelo, já que o lugar exigia estar à altura.
Foi direto para a mesa de vinte e um, onde tinha mais sorte, e não só por sorte de verdade.
— Hayley, amiga, vou até o bar dar início à minha noite perfeita. Em meia hora estou de volta. Se comporte e não faça nada que eu não faria — disse Wendy, sorrindo antes de se afastar.
— Difícil, né, amiga, o que você não faria — respondeu Hayley, rindo. — Traz alguma coisa pra eu beber. Pode ser aquele uísque com sobrenome de playboy iludido, eu gosto do sabor.
Wendy saiu rindo, deixando quase cem mil dólares em fichas com a amiga. Hayley não ganhou nada na mesa de vinte e um, tentou a sorte no blackjack e também perdeu. Seria assim a noite toda? Ela não estava ali para perder, ainda mais usando o dinheiro de Wendy.
Decidiu ir para a roleta e apostou todas as fichas, mas de novo não teve sorte. Foi quando um homem comentou que a casa emprestava fichas, valores bons, e ela pensou que não custava nada tentar, afinal sua amiga milionária estava logo ali para socorrê la se precisasse. Pegou emprestado quinhentos mil dólares em fichas do próprio cassino, calculando que, se ganhasse, pagaria Wendy e ainda sobraria uma boa grana para viver tranquila por um tempo.
Voltou para a mesa de vinte e um, decidida a distrair um pouco o crupiê para garantir a vitória.
Deu tudo errado. Por pura falta de cuidado, ela foi pega. Quando pensou em sair correndo dali, sem encontrar a amiga em lugar nenhum, sentiu duas mãos a segurarem pelos braços. Por mais bonitos que fossem, ninguém na situação dela queria ver Doug e Henry bem à sua frente, segurando os em cada lado.
— Então, gata, acho que precisamos dar um passeio agora. Não vai se arrepender — disse Henry, com um sorriso que não tranquilizava nada.
— Olha, muito obrigada pela gentileza, mas acho que peguei um resfriado e preciso me cuidar agora mesmo. Não seria legal da minha parte passar minhas bactérias pra vocês — tentou Hayley, sem sucesso.
Eles a seguraram ainda mais firme. Ela pensou onde Wendy poderia estar, aquela doida tinha sumido justo na hora que mais precisava dela. Só podia estar transando em algum banheiro por aí, era o único motivo que a faria desaparecer daquele jeito.
Levaram na até o terceiro andar do cassino e a obrigaram a sentar numa cadeira, longe de qualquer conforto. Distraída, olhando ao redor, ela ouviu uma voz rouca e sensual vindo da direção de uma mesa próxima. A cadeira estava virada para o lado errado, e quando o homem finalmente se virou para encará la, Hayley perdeu o ar. Que homem lindo era aquele.
— E não é que eu peguei a rata que andava me roubando — disse Dylan, com um sorriso perigoso no rosto. — Deve saber quem eu sou, né? Espero que saiba, vai ser um prazer ver o pânico estampado no seu rosto em três, dois, um...
Meu Deus, pensou Hayley, o coração disparado. Fudeu. Era o dono do império de bebidas com sobrenome de playboy iludido. Não, espera, não podia ser. Sua idiota, ele era o dono de tudo ali, e ia acabar com a sua alma. Pediu silenciosamente por qualquer ajuda divina, mas era como se o próprio destino já tivesse respondido: lamento, Hayley, a sorte não está a seu favor. Descanse em paz.
