Capítulo 5 5
Dou uma pequena risada.
— Eu escuto música, mas nunca fui apaixonada por cantor ou banda nenhuma. Também não tinha muito tempo para acompanhar essas coisas.
Por algum motivo, ela parece respirar aliviada.
— Entendi.
Então vira lentamente o porta-retrato em minha direção.
— Você já viu esse rapaz?
Meus olhos caem sobre a fotografia.
Por um instante, esqueço até de respirar.
Era, sem exagero, o homem mais bonito que eu já tinha visto.
Os cabelos castanhos estavam levemente bagunçados, a barba por fazer destacava ainda mais o maxilar marcado, os olhos azuis pareciam quase impossíveis de serem reais. E aquele sorriso...
Era o tipo de sorriso que iluminava uma fotografia inteira.
Demoro alguns segundos para responder.
— Acho que sim...
Inclino um pouco a cabeça.
— Mas não consigo lembrar de onde.
Elizabeth sorri.
— Esse é o Louis. Meu filho mais velho.
Ela faz uma breve pausa.
— Ele faz parte de uma banda.
Na mesma hora, uma lembrança vaga surge na minha cabeça.
Alguns anos antes, eu ouvira comentários sobre um garoto de Doncaster que havia ficado famoso por integrar uma banda de enorme sucesso.
Mas nunca procurei saber mais.
Naquela época, minha vida girava completamente em torno do meu pai.
Depois...
Em torno da minha tia.
— Acho que já ouvi alguém comentar sobre isso. — respondo. — Mas sempre fui muito desligada dessas coisas.
Elizabeth ri.
— Confesso que estou um pouco aliviada.
Franzo a testa.
— Aliviada?
— Quando você não nos reconheceu no supermercado, achei estranho. Pensei que pudesse estar fingindo.
Ela sorri, divertida.
— Mas agora entendi.
Acabo rindo também.
— Não sou uma fã disfarçada esperando a oportunidade perfeita para atacar seu filho.
As duas rimos.
— Na verdade... só estou tentando começar a viver a minha própria vida.
O sorriso dela se torna mais suave.
— Eu vi suas malas perto da porta.
Baixo os olhos por um instante.
— Elizabeth... eu trouxe minhas coisas porque... na verdade... não tenho para onde ir.
Ela me encara, surpresa.
— Como assim?
Respiro fundo.
Então conto tudo.
Falo sobre a morte do meu pai; sobre a promessa que fiz; os meses cuidando da minha tia; as humilhações; a discussão.
E, por fim, o momento em que fui expulsa de casa.
Quando termino, Elizabeth permanece alguns segundos em silêncio, completamente boquiaberta.
— Mas que egoísmo...
Ela balança a cabeça, indignada.
— Você passou cinco meses cuidando dela sozinha, e ela faz isso com você?
Dou apenas um pequeno encolher de ombros.
Já não tinha forças para justificar Bethany.
Elizabeth cruza os braços por alguns instantes, como se tomasse uma decisão.
Então sorri.
— Não precisa se preocupar.
Franzo a testa.
— Como?
— Fique aqui.
Arregalo os olhos.
— Não, Elizabeth... eu não posso...
— Pode, sim.
Ela me interrompe antes mesmo que eu termine.
— Temos um quartinho embaixo da escada. É pequeno, mas aconchegante. Tenho certeza de que você conseguirá se acomodar muito bem.
Olho para ela sem conseguir esconder a emoção.
— Mesmo?
— Claro.
Ela sorri calorosamente.
— As meninas gostaram de você desde o primeiro instante. E, sinceramente, vai ser bom ter mais uma pessoa nesta casa.
Sinto meus olhos marejarem.
Naquela manhã, eu tinha saído de casa sem saber onde dormiria.
Agora tinha um teto, um trabalho e pessoas que estavam me tratando com uma gentileza que eu não recebia havia muito tempo.
— Oh, Elizabeth... muito obrigada. Mesmo.
Ela segura minha mão com carinho.
— Não precisa agradecer.
Seu sorriso se alarga.
— Bem-vinda à família Hamilton.
[...]
— Sei que é pequeno. Me desculpe.
Dou mais uma olhada no quartinho antes de responder.
— Não, Elizabeth. É ótimo! — digo, deixando as malas ao lado da pequena cama.
Ela sorri, parecendo aliviada.
— Eu até deixaria você ficar no quarto do Louis, mas ele deve voltar para casa nesses dias.
— Não se preocupe. Vou ficar muito bem aqui.
— Tudo bem. — Ela sorri mais uma vez. — Vou deixar você organizar suas coisas. Se faltar espaço, é só me avisar.
— Pode deixar.
Assim que Elizabeth sai, o silêncio toma conta do pequeno cômodo.
Sento-me na cama e observo aquele que passaria a ser meu novo quarto.
Era realmente pequeno.
Não havia janela, apenas paredes brancas que faziam o ambiente parecer ainda mais compacto. A cama ocupava boa parte do espaço e, embaixo dela, havia duas gavetas embutidas.
Olho para as duas malas.
Não precisaria pensar muito para saber que boa parte das minhas roupas continuaria ali por bastante tempo.
Ao lado da cama havia apenas uma pequena mesa de cabeceira, com uma única gaveta.
Abro minha bolsa e retiro meus dois bens mais preciosos.
Dois porta-retratos.
Coloco os dois cuidadosamente sobre a mesinha.
O primeiro era uma fotografia minha com meu pai.
Foi tirada na minha festa de dezesseis anos.
Lembro exatamente daquele dia.
Ele passou semanas organizando tudo escondido de mim. Dizia que eu só faria dezesseis anos uma vez na vida e queria que fosse inesquecível.
E foi.
Toda vez que olhava aquela foto, conseguia ouvir sua risada.
O segundo porta-retrato guardava uma fotografia de Joan e Nicole.
Meus pais.
A imagem havia sido tirada no dia do casamento deles. Os dois sorriam como se nada no mundo pudesse separá-los.
Pareciam completamente apaixonados.
Às vezes, eu me pegava imaginando como teria sido crescer com minha mãe ao meu lado.
Gostava de acreditar que seríamos melhores amigas. Que ela teria me ensinado a fazer tranças; que sairíamos juntas para fazer compras; que eu teria alguém para pedir conselhos quando meu coração estivesse confuso.
Era uma fantasia...
Mas era uma fantasia bonita.
Respiro fundo, afastando as lágrimas antes que elas apareçam.
Abro a gaveta da mesa e guardo minha caixinha de joias e a nécessaire.
Por enquanto, deixo as malas exatamente onde estavam.
Depois eu organizaria o restante.
Tiro a jaqueta e a deixo dobrada sobre a cama antes de sair do quarto.
Encontro Elizabeth sentada na sala.
— Elizabeth, o que posso fazer?
Ela ergue os olhos da televisão.
— Como assim?
— Quero ajudar. Quer que eu lave a louça?
— Eu tinha pedido para a Kia fazer isso..., mas ela ainda não desceu.
— Então eu faço.
Dou de ombros.
— Depois eu posso... sei lá... fazer mais alguma coisa.
Ela ri.
— Calma, Emily. Eu vou te orientando aos poucos.
Acabo sorrindo também.
— Obrigada.
