Capítulo 4 4
Visto uma calça jeans, uma blusa confortável e faço apenas uma maquiagem leve para disfarçar a noite mal dormida.
Prendo o cabelo em um rabo de cavalo, coloco tudo dentro da bolsa e calço meu All Star preto. Por fim, visto a jaqueta jeans.
Pego minhas malas que já estavam prontas ao lado da porta e desço carregando tudo.
O silêncio que tomava conta da casa indicava que Bethany ainda dormia.
Ótimo.
Era exatamente o que eu esperava.
Vou até a cozinha e preparo seu café da manhã.
Mamão com iogurte, pão integral com uma fatia de queijo e um copo de suco natural de morango.
Poucos minutos depois, a campainha toca.
Caminho até a porta e a abro.
— Olá.
Uma mulher de aproximadamente trinta anos confere o papel que tinha nas mãos antes de voltar a olhar para mim.
— Emily Collins?
— Isso.
— Sou Ella Hunt. — Ela estende a mão livre.
Aperto-a com um sorriso.
— É um prazer. Entre.
Assim que entra, seu olhar cai sobre as malas próximas à porta.
— Está viajando?
Dou um pequeno sorriso, embora ele não alcance meus olhos.
— Na verdade... estou me mudando. Por isso precisei dos seus serviços.
— Oh... — Ela coloca a bolsa no chão. — Boa sorte nessa nova fase.
— Obrigada.
Conduzo Ella até a cozinha e entrego a ela uma folha onde havia anotado toda a rotina da minha tia.
Horários dos remédios; alimentação; restrições médicas; consultas.
Tudo estava organizado.
Ela analisa o papel rapidamente.
— Fácil de gravar.
— É. Ela deve acordar a qualquer momento e... eu preferia não estar mais aqui quando isso acontecer.
Ella sorri com compreensão.
— Algum problema para você?
— Não, tudo bem. Já cuidei de senhoras bem idosas e bastante ranzinzas.
Solto uma pequena risada.
— Duvido que alguma seja pior que ela.
Nós duas rimos.
— Bem... é isso. A casa não é muito grande. Você pode ficar no quarto que era meu.
Faço uma breve pausa.
— Eu não pretendo voltar.
Ella apenas assente.
— Tudo bem.
— Obrigada, Ella. Se acontecer qualquer problema sério, me ligue.
— Pode deixar.
— O café dela já está preparado.
— Perfeito.
Pego minhas malas, atravesso a porta e as levo até a varanda. Antes de sair definitivamente, retiro do bolso as chaves da casa e da minivan. Coloco ambas sobre a pequena mesa do hall de entrada.
Era estranho deixar aquelas chaves ali.
Durante cinco meses, elas representaram minha responsabilidade.
Agora, significavam liberdade.
Olho pela última vez para o interior da casa.
Nenhum adeus, nenhuma despedida.
Talvez fosse melhor assim.
— Tchau, Ella!
— Tchau, Emily!
Ela sorri para mim.
Solto um leve suspiro e me despeço daquela vida apenas dando as costas para a casa.
Com o endereço de Elizabeth apertado entre os dedos, começo a caminhar pelas ruas de Doncaster, puxando duas malas que pareciam ficar mais pesadas a cada esquina.
Não fazia ideia de como seria minha vida dali em diante. Tudo o que eu sabia era que não podia voltar.
[...]
Paro em frente a uma bela casa e confiro o papel mais uma vez.
Depois olho para o número preso ao muro.
Bem...
Acho que é aqui.
Respiro fundo, ajeito as malas ao meu lado e toco a campainha.
Ouço algumas vozes do lado de dentro, seguidas pelo som de passos rápidos.
A porta se abre.
Uma menina loira, de enormes olhos azuis, sorri para mim.
— Você é a Emily!?
— Sim!
— Olá! Sou Kiara, mas pode me chamar de Kia!
— Olá, Kia.
— Entre! — Ela dá um passo para o lado. — Minha melhor amiga também se chama Emily!
Sorrio.
— Que demais!
— É. — Ela observa minhas malas com curiosidade. — Você vai dormir aqui?
A pergunta me pega de surpresa.
— Hum... não. Eu... pode chamar a Elizabeth para mim?
— Posso. — Ela olha para o corredor. — MAMÃE!
Depois volta a me encarar.
— Acho que ela está tomando banho. Ela disse que você viria depois do café.
— Eu sei. Mas aconteceram alguns imprevistos. Queria conversar com ela justamente sobre isso.
— Ah! Então deixa suas coisas aqui.
Ela aponta para um canto próximo à porta.
— E vem conhecer a Arabella!
Mal tenho tempo de responder.
Deixo as malas onde ela indicou e permito que Kia me puxe pela mão até a cozinha.
Assim que entro...
— EMILY! — as gêmeas gritam ao mesmo tempo.
As duas se levantam das cadeiras e correm para me abraçar. Acabo rindo enquanto retribuo o abraço.
— Tudo bem, meninas?
— Sim! — respondem juntas.
— É verdade que você vai trabalhar aqui? — pergunta a menina de rosa, que imagino ser Ayla, enquanto passa a mão pelo meu cabelo.
— É sim. Gostaram da novidade?
As duas assentem energicamente.
Atrás delas, percebo duas meninas um pouco mais velhas trocando um olhar.
— Como é possível ela não saber? — a loirinha que eu ainda não conhecia sussurra para Kia.
Franzo a testa.
— Não saber o quê?
Antes que alguma delas responda...
— Emily!
Viro-me.
Elizabeth atravessa a cozinha sorrindo e abre os braços para mim.
— Oi!
Nós nos abraçamos.
— Esperava você um pouco mais tarde.
— Eu sei. Me desculpe.
— Não se preocupe.
Ela mantém uma das mãos em minhas costas e me conduz até onde as meninas estavam.
— As gêmeas você já conhece. A maior é a Kiara... e essa aqui é a Arabella.
Sorrio para as duas.
— São lindas. Loiras, de olhos azuis... que genética maravilhosa.
Elizabeth ri.
— É verdade.
Passo os olhos novamente pelas quatro meninas.
— E agora vem o Ernest. O primeiro homem da família. Estão animadas?
As meninas mais velhas trocam um olhar discreto.
— Tem o Lou. — diz Lis, segurando minha mão.
Olho para Elizabeth, surpresa.
— Ah... pensei que fossem só meninas.
Por um instante, ela parece hesitar.
— Hum... Kia, pode levar as meninas para cima, por favor?
Depois olha para a outra garota.
— Vá com elas, Arabella.
— Okay, mamãe.
As quatro passam por mim entre risadas.
Quando desaparecem escada acima, Elizabeth volta a falar.
— Sente-se, Emily. Já volto.
Faço o que ela pede.
Enquanto espero, minhas mãos permanecem inquietas sobre meu colo.
Pouco depois, ela retorna.
Trazia um porta-retrato nas mãos.
Puxa uma cadeira à minha frente e se senta.
— Posso lhe fazer algumas perguntas?
— Claro. Fique à vontade.
Ela sorri.
— Você nasceu aqui? Em Doncaster?
— Sim. Mas eu morava do outro lado da cidade.
Ela faz um leve gesto com a cabeça antes de continuar.
— Você costuma ouvir música? Assistir televisão? Essas coisas típicas de adolescente?
