Capítulo 3 3
Ela volta a comer como se o assunto estivesse encerrado.
Engulo em seco.
— Eu... eu não recusei.
O garfo para novamente no meio do caminho. Ela o larga sobre o prato e me encara.
— Está pensando que vai trabalhar?
— Eu vou trabalhar.
— E quem vai cuidar de mim?
— Vou contratar uma enfermeira.
— VOCÊ PROMETEU AO SEU PAI!
Aquelas palavras me atingem como um soco.
— Eu sei. — respondo em voz baixa. — Mas preciso começar a cuidar da minha vida.
— EU SOU SUA ÚNICA FAMÍLIA! SUA PRIORIDADE!
— Isso não é verdade.
— CLARO QUE É! — ela esbraveja, batendo a mão contra o braço da poltrona. — VOCÊ PROMETEU AO SEU PAI QUE CUIDARIA DE MIM, DIA E NOITE! E NÃO ESTÁ CUMPRINDO A PORRA DA SUA PROMESSA!
Alguma coisa dentro de mim finalmente se rompe.
Anos engolindo palavras. Cinco meses vivendo apenas para ela.
Eu não conseguia mais.
Levanto-me de uma vez.
— EU SÓ TENHO VIVIDO A MINHA VIDA PARA VOCÊ! — minha voz sai embargada pela raiva e pela mágoa. — FAÇO TUDO O QUE VOCÊ QUER! NUNCA EXISTE UM TEMPO PARA A EMILY! NÃO SAIO, PORQUE NÃO TENHO AMIGOS AQUI! NÃO NAMORO, PORQUE PASSO A MINHA VIDA CUIDANDO DE VOCÊ, SUA MAL-AGRADECIDA!
O rosto dela fica vermelho de fúria.
— ENTÃO É ASSIM? QUERO VOCÊ FORA DA MINHA CASA! NÃO QUERO MAIS SABER DE VOCÊ! O QUE VOCÊ FIZER, O QUE ACONTECER COM A SUA VIDA... POR MIM, QUE SE DANE!
As palavras doem.
Mesmo assim...
Era exatamente o que eu precisava ouvir.
— Era tudo o que eu queria ouvir.
Saio da sala enquanto ela continua gritando meu nome.
Meu prato permanece sobre a mesa.
Eu o lavaria depois.
Subo direto para o quarto.
Sem pensar duas vezes, puxo minhas malas debaixo da cama e as coloco sobre o colchão.
Abro o guarda-roupa.
Começo a dobrar minhas roupas com cuidado, colocando uma por uma dentro da mala.
Não era assim que eu imaginava sair daquela casa. Porque apesar de tudo, dos gritos, da maneira como ela me tratava, eu ainda me preocupava com a saúde dela.
Mas Bethany nunca voltava atrás quando tomava uma decisão.
E, dessa vez...
Nem eu voltaria.
Sabia que, por algum tempo, provavelmente teria de morar em um hotel barato até conseguir dinheiro suficiente para alugar um pequeno apartamento.
Mas isso não me assustava.
Pela primeira vez, eu teria algo conquistado apenas pelo meu próprio esforço.
Depois de cerca de meia hora, todas as minhas roupas e sapatos já estavam guardados.
Durante esse tempo, ouvi minha tia me chamar pelo menos umas dez vezes.
Ignorei todas.
Não havia mais nada para dizer.
Separei uma roupa para vestir no dia seguinte e coloquei maquiagem, joias, documentos e outros objetos pessoais dentro da bolsa, junto com o celular.
Antes de dormir, desci para organizar a cozinha.
Lavei toda a louça do almoço, limpei a bancada e guardei cada utensílio em seu devido lugar.
Quando passei novamente pela sala para buscar o restante das coisas, ela voltou a gritar.
— AÍ ESTÁ VOCÊ! SEU PAI TEM VERGONHA DE VOCÊ!
Fecho os olhos por um instante.
Calma.
Só mais um pouco.
Recolho o restante dos copos e pratos sem responder. Levo tudo para a cozinha, lavo o que faltava e guardo.
Depois subo novamente para o quarto.
Fecho a porta atrás de mim.
Pela primeira vez desde que meu pai morreu, eu não fazia ideia de como seria o dia seguinte.
E, estranhamente...
Aquilo me dava mais esperança do que medo.
[...]
Desperto alguns minutos antes de o despertador do celular tocar.
Quase não dormi.
A noite anterior tinha sido um desastre.
Depois da nossa discussão durante o almoço, ainda precisei preparar o jantar da minha tia. Achei, ingenuamente, que ela estaria mais calma.
Estava errada.
Assim que coloquei a bandeja em seu colo e me virei para sair da sala, ela voltou a atacar.
“— SEU PAI FOI UM HOMEM MARAVILHOSO!
Fechei os olhos por um instante.
— É. Ele foi. Ele sempre vai ser.
Voltei a caminhar em direção à porta.
— Seu pai passou a vida triste depois do seu nascimento.
Meus pés pararam imediatamente. Senti um frio percorrer minha espinha.
— Sua mãe era tudo para ele. Mas, como sempre...
— Eu não tive culpa. — respondi em voz baixa, enquanto meus olhos começavam a arder.
Ela ignorou completamente minhas palavras.
— Mas, como sempre, você estragou tudo. Para você vir ao mundo, sua mãe morreu.
— EU NÃO TIVE CULPA! — gritei, sentindo as lágrimas escorrerem antes mesmo que pudesse contê-las.
— Seu pai nunca falou..., mas ele sempre te odiou.
Meu coração pareceu parar.
— Mentira.
— Ele olhava para você e sentia ódio. Por sua culpa, a mulher da vida dele morreu.
— Não.
Levei as mãos aos ouvidos, desesperada.
— Papai me ama.
— VOCÊ TIROU A VIDA DA SUA MÃE!
— CALA A BOCA!
— É duro ouvir a verdade, não é?
— ISSO NÃO É VERDADE! MAMÃE ESTAVA DOENTE! ELA... ela não aguentou...
Minha voz falhava entre os soluços.
— PORQUE ELA USOU AS ÚLTIMAS FORÇAS PARA COLOCAR VOCÊ NO MUNDO!
Dou um passo para trás, sentindo o chão desaparecer sob meus pés.
— SE ELA NÃO TIVESSE ENGRAVIDADO... SE NÃO TIVESSE TIDO VOCÊ... ATÉ HOJE ESTARIA AO LADO DO SEU PAI!”
Eu não consegui ouvir mais. Saí dali praticamente correndo. Subi para o quarto às cegas, com a visão embaçada pelas lágrimas.
Passei boa parte da noite tentando convencer a mim mesma de que aquelas palavras não eram verdade.
Meu pai me amava.
Sempre amou.
Eu nunca tive dúvidas disso.
Mas, ainda assim, Bethany tinha conseguido atingir exatamente a ferida que eu carregava desde criança.
A culpa.
Mais tarde, depois de conseguir me acalmar um pouco, fiz algumas ligações.
Consegui contratar uma enfermeira para cuidar dela.
Conhecendo minha tia, eu tinha quase certeza de que encontraria uma maneira de fazê-la pedir demissão em poucos dias.
Mesmo assim, eu precisava tentar.
Agora, já de manhã, afasto aquelas lembranças da cabeça.
Levanto da cama e sigo para o banheiro. Tomo um banho rápido, escovo os dentes e volto para o quarto enrolada na toalha.
Guardo a escova na necessaire, que já estava sobre a cama junto com o restante das minhas coisas.
