Capítulo 2 2
— Eu sou Ayla. — responde a menina de vermelho.
— Eu sou Lis!
— Que nomes lindos. E vocês também são lindas.
Chegamos ao carro. Enquanto a mulher organiza as compras no porta-malas, me abaixo para ficar da altura das gêmeas.
— Meninas, vocês precisam ajudar a mamãe. Nesse momento, ela precisa que vocês a escutem e obedeçam mais do que nunca. Tudo bem?
— Está bem, Emily! — respondem juntas.
— Vamos lá, meninas. Subam no carro! — diz a mãe.
As duas sorriem para mim e, dessa vez, entram no veículo sem reclamar.
— Muito obrigada... Emily, não é?
— Sim.
— Sou Elizabeth. — Ela sorri, ainda recuperando o fôlego.
— Não foi nada, Elizabeth. Vi que você estava precisando de uma ajudinha.
Ela ri baixinho.
— Bastante. Elas conseguiram fazer a última babá pedir demissão de tanto trabalho.
Acabo rindo junto.
— Imagino.
— Desde então, tenho dado conta de tudo sozinha.
Assinto, compreensiva.
— Você trabalha, Emily?
— Eu? Não. Ainda não. Não tenho experiência em nada.
Elizabeth me observa por alguns segundos, como se estivesse avaliando algo.
— Talvez você não tenha experiência profissional..., mas sabe prender a atenção de uma criança. Aliás, de duas ao mesmo tempo.
Sorrio, sem jeito.
— Quer trabalhar para mim?
Meu coração falha uma batida.
— Sério?
— Sim! Claro. Estou com seis meses e não posso fazer certas coisas.
— Oh, meu Deus! Eu... eu nem acredito.
— Você não quer?
— Eu quero! Eu quero muito. — a abraço, tomada pela empolgação. Só depois percebo o que fiz e me afasto rapidamente. — Oh, desculpe.
— Não, tudo bem. — Ela sorri, divertida. — Tenho uma pergunta.
— Claro.
— Você já nos viu antes?
Franzo a testa, confusa.
— Vocês? Você e as meninas?
— É.
— Por aqui? Não. — balanço a cabeça negativamente. — Geralmente venho aqui aos domingos, mas...
Ela me interrompe com um sorriso tranquilo.
— Está tudo bem, Emily. Só queria tirar uma dúvida.
— Tudo bem.
Elizabeth abre a bolsa, procura por alguns segundos e tira um pequeno bloco de papel junto com uma caneta. Apoia a folha sobre o teto do carro e anota rapidamente algumas informações.
— Aqui está.
Pego o papel de suas mãos.
Era um endereço.
Leio com atenção e arregalo levemente os olhos. Ficava apenas três ruas depois da minha casa.
Que coincidência.
— Pode começar amanhã? — pergunta ela.
— Sim, claro. Que horas?
— Logo após o café da manhã. Quero mostrar a casa, explicar sua rotina e te contar algumas coisas importantes antes de deixar as meninas com você.
Assinto imediatamente.
— Tudo certo. Estarei lá.
— Obrigada.
Sorrio de volta, ainda tentando acreditar no que estava acontecendo.
Elizabeth acena, entra no carro e, alguns segundos depois, deixa o estacionamento com as meninas acenando para mim pela janela traseira.
Retribuo o gesto até o carro desaparecer na esquina.
Só então caminho em direção à minha minivan.
— Ai, meu Deus!
Dou um pequeno salto.
As compras.
Tinha simplesmente esquecido o carrinho no caixa.
Corro de volta para dentro do supermercado e encontro a atendente exatamente onde a havia deixado, ao lado das minhas sacolas.
Ela sorri assim que me vê.
— Desculpe a demora. — digo, um pouco sem graça, enquanto pego o carrinho. — Muito obrigada por ter esperado.
— Não foi nada.
Agradeço mais uma vez e sigo até o estacionamento.
Coloco todas as compras no porta-malas, entro no carro e dou partida.
Durante todo o caminho, um sorriso insistia em permanecer no meu rosto.
Eu tinha conseguido. Finalmente havia encontrado um emprego.
Pela primeira vez desde a morte do meu pai, sentia que minha vida talvez estivesse começando a andar para frente.
Agora...
Eu só precisava descobrir uma forma de contar aquilo para minha tia.
E, conhecendo tia Bethany como eu conhecia... ela certamente surtaria.
[...]
Já havia guardado todas as compras e decidido o que faria para o almoço.
E também como contaria a novidade para minha tia.
Conhecendo Bethany, precisava escolher o momento certo.
Por recomendação médica, ela deveria manter uma alimentação saudável. No almoço, evitava frituras e, quase sempre, passava longe dos doces.
Quase.
Porque, se existia uma fraqueza daquela mulher, era a minha torta de pêssego.
Era uma das poucas coisas capazes de deixá-la de bom humor.
A torta já estava quase pronta, espalhando pela casa um aroma doce e amanteigado que invadia todos os cômodos.
— EU CONHEÇO ESSE CHEIRO! — ela grita da sala, arrancando um sorriso discreto de mim. — SURPRESINHA PARA MIM, EMILY?
— SIM! — respondo no mesmo tom.
Volto minha atenção para o fogão.
O arroz já estava pronto e o frango cozido descansava na panela. Na geladeira, havia uma salada que eu preparara mais cedo.
Abro o forno e retiro cuidadosamente a torta. A massa estava dourada, e o recheio de pêssego borbulhava levemente pelas laterais.
O cheiro estava simplesmente maravilhoso.
Coloco a forma sobre a mesa para esfriar um pouco antes de servir.
Em seguida, pego dois pratos.
Sirvo arroz para nós duas, acrescento o frango e, por último, busco o refratário da salada na geladeira.
Como sempre, coloco uma porção maior para Bethany.
Ela precisava.
Encho dois copos com suco de laranja natural, organizo tudo na bandeja e respiro fundo antes de seguir para a sala.
— Se a senhora comer tudinho, vai ganhar uma sobremesa maravilhosa. — digo.
— Mas essa comida sem graça de novo?
— A senhora sabe que não pode exagerar.
Coloco a bandeja sobre seu colo e me acomodo no sofá com meu prato e meu copo.
Enquanto comíamos, a televisão continuava ligada, preenchendo o silêncio entre nós.
Depois de alguns minutos, ela volta a farejar o ar.
— Aquele cheiro lá... — dá mais uma garfada na comida. — Hum... é torta?
— Sim. Da que a senhora mais gosta.
Ela ergue as sobrancelhas, claramente satisfeita. Aquilo já era quase um milagre.
Terminamos o almoço em silêncio.
Levo os pratos até a cozinha, deixo tudo na pia e volto alguns minutos depois com dois pratinhos de sobremesa.
Corto uma fatia generosa da torta para ela. Muito maior que a minha.
— Aproveite. — digo, colocando o prato à sua frente.
Ela nem responde. Já estava levando a primeira garfada à boca.
Observo-a por alguns segundos.
Talvez aquele fosse o melhor momento.
— Sabe, tia... hoje, no supermercado... ajudei uma grávida a controlar as filhas gêmeas.
— Legal.
Ela continua comendo, sem demonstrar muito interesse.
Respiro fundo.
— E... ela...
Dou uma pequena mordida na torta, tentando ganhar coragem.
— Ela me convidou para trabalhar para ela.
Bethany para de mastigar e levanta lentamente os olhos para mim.
— O quê?
— Ela me chamou para trabalhar como babá.
— Você fez bem em recusar.
