Um companheiro para os trigêmeos

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Dois

POV da Selene

— Sua insignificante... — ela rosnou. — Você faz ideia de como esses arquivos são importantes? Como você tem coragem...?

Era ela, claro.

Eu não ousava levantar os olhos pra ninguém, nem tentar pegar as folhas encharcadas, porque eu sabia que só ia piorar tudo. Comecei a implorar: — Desculpa... Por favor... Eu não fiz de propósito.

O próprio Alfa ficou em silêncio, e aquilo me encheu de pavor e desespero. Eu não sabia como eram outras alcateias, mas eu conhecia muito bem a minha quando o assunto eram ômegas. Pros membros da alcateia, ômegas eram sempre o pior tipo de gente e não mereciam importância nenhuma. Então eu tinha quase certeza de que minha punição não ia ser leve.

Só que, quando ele finalmente reagiu, limpou a calça molhada com um lenço antes de se levantar. Foi só então que eu percebi que ele também estava encharcado.

Eu não consegui evitar dar um passo pra trás, com medo de que ele fosse me atacar. Mas, em vez disso, ele olhou para Aiden, um dos betas, e ordenou: — Aiden, imprima outra cópia dos arquivos pra mim.

— Sim, Alfa — respondeu o outro homem, e logo saiu para fazer o que foi mandado.

Dakota apareceu de novo na frente dele, de repente, e tentou ajudá-lo a limpar a mancha molhada. — Alfa, o senhor está bem? O senhor está todo encharcado.

Para minha surpresa, ele deu um passo pra trás e murmurou: — Tudo bem.

Dakota voltou a atenção pra mim na mesma hora e rosnou: — Sua pirralha... Eu vou fazer você pagar por isso.

Eu fiquei tensa na hora. Eu preferia que qualquer outra pessoa me punisse, menos a Dakota. Ela não.

O Alfa falou de novo, mas dessa vez me pegou desprevenida.

Ele disse, casualmente, pra ela: — Chega. — Eu levantei os olhos, surpresa, e dessa vez acabei encontrando o olhar dele quando ele disse pra mim: — Você pode ir.

Eu fiquei paralisada por um instante, tão surpresa que nem consegui reagir de imediato. Quem reagiu foi a Carey: ela me agarrou pelo braço e me puxou pra fora da sala. Claro, não sem o olhar de ódio da Dakota queimando a minha nuca enquanto eu saía.

Quando eu finalmente voltei a mim, eu estava de novo na cozinha. Carey me encarava com os braços cruzados. Eu soltei um suspiro pesado, sentindo um peso enorme sair das minhas costas.

Mais cedo eu estava apavorada, já esperando o pior, então parecia até irreal ter sido liberada sem punição. Sem falar que ele tinha olhado pra mim. Era a primeira vez que ele me olhava diretamente. Os alfas normalmente eram inalcançáveis pra gente de classe baixa como nós e, nove em cada dez vezes, a gente nem ousava olhar na direção deles quando apareciam.

Mas ele tinha olhado pra mim de verdade. Eu não consegui evitar pensar em como a Dakota ia reagir a isso. Ela já me odiava; agora, eu provavelmente ia enfrentar um inferno nas mãos dela dali pra frente.

Carey bateu de repente no balcão, me arrancando dos meus pensamentos. Ela cruzou os braços e perguntou:

— No que você tá pensando?

— Eu não sei... — acabei murmurando.

Ela suspirou de leve e se aproximou.

— Eu fiquei com muito medo agora há pouco. Você sabe como eles costumam ser rígidos em dias oficiais assim.

Eu não respondi, só apoiei a cabeça no ombro dela e fechei os olhos, pensando no quanto aquilo tinha sido por pouco. Mas eu ainda estava com a Dakota na cabeça, no que ela faria. Numa alcateia tão grande, mesmo que acontecesse alguma coisa, ninguém ligaria pra uma ômega.

— Eu tô cansada, Carey — eu sussurrei. — Por que a gente tem que ser tratada como estranha dentro da nossa própria alcateia?

Ela ficou em silêncio por um minuto inteiro antes de dizer:

— Eu sei, né? Só porque a gente é mais fraca não quer dizer que a gente seja inútil.

Ela parou por um instante e deu outra batida no balcão.

— Você acha que a gente devia fugir da alcateia?

Eu estreitei os olhos e olhei pra ela na hora.

— Fugir? E ser morta pelos renegados que ficam rondando as fronteiras?

— Existe a chance de a gente não cruzar com nenhum.

Eu balancei a cabeça.

— Chance pequena. Você não viu os relatos? Até um dos gammas foi morto na semana passada e um monte de lutadores da alcateia morreu. A gente é ainda mais fraca do que eles.

Carey suspirou e passou a mão na testa, frustrada.

— Então o que a gente faz? Eu tô de saco cheio de tudo. Ter que acordar tão cedo e trabalhar sem parar pra no fim comer migalha e ser a última a dormir na alcateia inteira.

Meus olhos ficaram marejados enquanto ela falava, lembrando de todos os dias difíceis. Os primeiros dias resistindo a ser tratada como escrava, os dias de aceitar tudo, e os dias de ralar tanto só pra comer as sobras.

Ela continuou:

— Nossa única esperança é amanhã. Tomara que a gente encontre nossos companheiros e que eles sejam pelo menos de posição média na alcateia. Aí ninguém vai pegar tanto no nosso pé.

Eu me peguei assentindo, sabendo que eu também tinha colocado toda a minha esperança nisso. Mas então um pensamento me atingiu de repente. E se nossos companheiros fossem ômegas como a gente? Ou se a gente nem encontrasse nossos companheiros amanhã?

Eu apertei os lábios e disse:

— E se nossos companheiros também forem ômegas?

Carey ficou quieta, e parecia não saber o que dizer. Eu continuei:

— Se isso acontecer, a gente vai ter que sair da alcateia.

— Por quê? Eu achei que você tinha dito...

— Eu sei, eu disse. Mas se a gente não encontrar nossos companheiros amanhã, pensa em como a nossa vida vai ficar miserável. A Dakota vai ser a companheira do alfa e a Luna. Ela vai ter ainda mais controle sobre a alcateia, e você consegue imaginar como isso vai ser pra nós, ômegas.

Os lábios de Carey se entreabriram e ela abaixou a cabeça, entendendo também. Ela se jogou sobre o balcão, frustrada.

— A gente tem que encontrar nossos companheiros, custe o que custar.

Eu não respondi, mas também coloquei minhas esperanças nisso.

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