Capítulo 5 5
POV da Venessa
Acordei no meio da madrugada, o peito apertado e pesado de inquietação. O sono já tinha me abandonado fazia tempo, deixando só o peso familiar de perguntas das quais eu não conseguia fugir. Pensamentos do passado arranhavam a minha paz, exigindo respostas que eu ainda não tinha.
Por que me incriminaram? Eu nunca tive caso nenhum com o Denzel — ele nunca nem me olhou desse jeito. Por que a Jalisa me odiava com tanta amargura? E por que o Denzel foi morto?
Essas perguntas me assombravam como fantasmas no escuro. Para descobrir a verdade, eu teria que encarar cada sombra, por mais cruel que fosse.
Tirar Jalisa e Tyrell da vida do Denzel não seria fácil. Essa missão exigia mais do que um coração bom; exigia força, estratégia e uma determinação que não quebrasse. Falhar não era uma opção. Eu não sabia o que aconteceria se eu conseguisse, mas eu sabia exatamente o que aconteceria se eu falhasse — e eu me recusava a deixar a história se repetir.
Jalisa não fazia bem a ele. Nunca fez. Denzel não a amava, e o casamento deles não passava de um acordo — um acordo forjado pelo próprio rei dos lobisomens. Denzel obedeceu porque era leal, preso ao dever com seu monarca. Era a forma do rei de demonstrar favor… ou melhor, controle.
Denzel era o alfa mais forte do reino — mais forte do que qualquer um nascido da linhagem real. A decisão do rei foi calculada. Ao unir a filha a Denzel, ele garantia que a linhagem ficasse amarrada ao trono. Denzel acabaria se tornando rei por mérito, mas seus filhos — que também seriam netos do rei — herdariam a coroa. Era política disfarçada de destino.
Ao contrário de Denzel, que tentava honrar o vínculo, a lealdade de Jalisa era uma mentira. O coração dela pertencia ao beta Tyrell, e a traição dela era profunda.
Eu não ia confrontá-la por isso — ainda não. O ódio dela por mim vinha do medo, e no instante em que ela percebesse que eu sabia do segredo, ela ficaria ainda mais perigosa.
“Precisamos descobrir quem matou ele, Venessa”, a voz de Nyla ecoou na minha cabeça, firme, mas sombria. “A gente sabe como as coisas se desenrolam, mas não sabe quem tirou a vida dele. Jalisa parece a suspeita óbvia. Talvez ele tenha descoberto a traição dela. Mas precisamos ter certeza antes de agir. A gente não pode se dar ao luxo de falhar.”
Virei de lado, encarando a escuridão.
“Talvez ele tenha descoberto o caso dela”, eu sussurrei. “Se a gente quer vencer, Nyla, vamos ter que nos aproximar dele. Perto o bastante pra ver a verdade com os nossos próprios olhos.”
“Tomara que o nosso plano funcione”, ela disse, com um tom cortante, mas carregado de proteção. “Eu não quero acabar condenada de novo. E ele merece coisa melhor do que aquela vadia mentirosa que ele chama de esposa.”
Eu não consegui conter a risadinha baixa que escapou. “Pronta pra semana que vem, quando elas fizerem o primeiro movimento?”, Nyla provocou.
“Ah, eu tô mais do que pronta”, murmurei.
Na semana seguinte
O dia finalmente chegou. Eu me vesti em silêncio e depois me escondi dentro do meu armário de metal. Esse era o dia em que a armadilha seria armada — o dia em que alguém colocaria o colar real da Jalisa debaixo do meu colchão. O mesmo crime que, uma vez, tinha me condenado.
Mas não dessa vez. Dessa vez, eu estaria pronta.
Isso sempre acontecia bem cedo, quando os alojamentos estavam vazios e os criados estavam ocupados com outras tarefas. Era a única janela de oportunidade. Eu me agachei dentro do armário, espiando pela fresta estreita da entrada de ar recortada na porta — um detalhe feito para ventilação, mas perfeito para vigiar.
Os minutos se arrastaram como horas.
“Vai ver não vai acontecer hoje cedo”, Nyla resmungou, ficando impaciente.
“Não”, eu sussurrei. “Tem que acontecer. Essa é a única chance delas. Elas vão fazer agora.”
Momentos depois, a porta rangeu ao abrir. Eu prendi a respiração. Pela fresta, eu vi Alesha entrar de fininho no meu quarto.
Claro. Eu devia ter imaginado.
Ela se moveu em silêncio, olhando em volta antes de enfiar alguma coisa debaixo do meu colchão — um pano azul, dobrado com cuidado. Depois saiu como se nada tivesse acontecido.
Eu fiquei imóvel até o corredor voltar a ficar silencioso. Então, com cuidado e precisão, eu saí do armário e levantei o colchão. Lá estava: o pano azul e, dentro dele, o colar de safiras e rubis da Jalisa, brilhando com uma beleza roubada.
Uma onda de triunfo percorreu meu corpo. “Então foi você, Alesha”, sussurrei.
Levantei o pingente com um lenço limpo, tomando cuidado para não deixar meu cheiro encostar nele, e enfiei no bolso. O pano eu deixei exatamente onde ela tinha colocado. Que encontrassem aquilo. Que ela entrasse em pânico quando percebesse que a armação tinha dado errado.
Em silêncio, fui até o quarto de Alesha. Os empregados estavam todos ocupados no corredor, o que facilitou. Entrei de fininho, levantei o colchão, cortei a parte de baixo do tecido e empurrei o colar para dentro. Eu nem deixei encostar na minha pele, do jeito que um ladrão de verdade esconderia um tesouro roubado.
Quando terminei, alisei a cama e saí com a mesma calma, como se nada tivesse acontecido.
Quando o café da manhã foi servido, eu já estava no salão principal, me movendo como se a manhã tivesse sido perfeitamente normal.
Alesha sorriu para mim quando me aproximei.
— Onde você estava? — perguntou ela, fingindo simpatia.
— Na floresta — respondi com naturalidade. — Procurando ervas. Acordei com uma irritação na pele e precisei aliviar.
— Você devia ter ido à enfermaria — disse ela, doce. — Aqui você não precisa depender de ervas.
— Obrigada — falei, sorrindo com educação. Se ela soubesse.
— O Gama Rayon pediu que você sirva a refeição dele — Tonya me informou.
Sorri de volta, fingindo inocência.
— Acho que você chamou a atenção dele — ela riu, toda animada.
Eu apenas assenti. Não havia espaço para distrações.
Na mesa principal, os Alfas e seus respectivos postos estavam sentados e, entre eles, Denzel — alto, sereno, a própria imagem do líder que nascera para ser. Os olhos de Gama Rayon encontraram os meus, e ele sorriu. Eu me inclinei de leve, mantendo a expressão neutra.
— A partir de agora, você vai servir minhas refeições, Venessa — disse Rayon, com uma voz suave, interessada.
— Como desejar, Gama — respondi.
Ele era gentil, gentil demais. A cordialidade dele chamava atenção, e eu deixei que chamasse, embora não oferecesse nada em troca além de cortesia.
O café da manhã terminou sem incidentes, e eu segui com minhas tarefas. Mais tarde, fui chamada por Alesha.
— Venessa, vá limpar os aposentos do Alfa e da Luna.
Houve um murmúrio de surpresa entre os outros. O mesmo choque que eu já tinha sentido no passado, mas não desta vez. Agora eu entendia o motivo. Eles precisavam de mim lá para poderem dizer que eu tinha roubado as joias.
— Tem certeza de que é prudente eu limpar o quarto deles? — perguntei, fingindo hesitação. — Eu sou nova aqui. Não queria causar problemas.
— Vai dar tudo certo — disse Alesha, com aquele mesmo sorriso falso. — Só limpe e vá embora.
Juntei meus materiais e fui até os aposentos do Alfa. Bati uma vez. Nenhuma resposta. Devagar, entrei.
O quarto tinha um leve cheiro de sândalo e poder. Eu estava arrumando a cama quando ouvi a porta do banheiro se abrir. Denzel saiu, sem camisa, ainda úmido do banho, e meu coração falhou uma batida. Eu virei o rosto depressa.
— Me perdoe, Alfa — falei, baixando os olhos. — Eu bati. Achei que o quarto estivesse vazio. Vou sair.
— Não — disse ele, baixo, num tom calmo, mas imperativo. — Fique.
Eu congelei.
— Olhe para mim, Venessa.
A contragosto, eu me virei.
— É o vínculo o motivo de você nunca encarar meus olhos? — ele perguntou, com a voz grave.
Engoli em seco. — Eu não ouso olhar para você — sussurrei.
Ele me analisou por um instante antes de soltar um suspiro.
— Nosso vínculo ainda não foi rompido — disse ele, em voz suave. — Eu ainda sinto tudo o que você sente. Eu não gostei de como você estava com o Rayon hoje. Eu sei que você está livre para seguir em frente, mas… eu não confio nas intenções dele. Só estou cuidando de você.
O tom dele era gentil — gentil demais — e isso quebrou alguma coisa dentro de mim.
— Me desculpe — eu disse. — Eu não tive escolha. Eu sou só uma empregada.
Ele assentiu, com uma expressão indecifrável, e voltou para a mesa dele. O ar entre nós ficou pesado com tudo o que não foi dito. O cheiro dele — quente, masculino, inebriante — encheu meus pulmões, e eu lutei contra as lágrimas queimando atrás dos meus olhos.
Ele era feito para mim. Ele era meu. Mas eu cheguei tarde demais.
Agora, a única coisa que importava era mantê-lo vivo e quebrar esse ciclo maldito. O que viesse depois… ficaria por conta do destino.
Pisquéi para conter as lágrimas e firmei meu coração. Eu precisava ser forte. Fraqueza não tinha lugar na guerra que vinha pela frente.
