Capítulo 4 4
POV da Venessa
Terminei meu trabalho no jardim, sacudindo a terra dos dedos, quando notei o olhar do Gamma demorando em mim mais do que o necessário. A atenção dele também não passou despercebida por Denzel. O leve pulso de irritação que senti através do nosso meio-vínculo me disse tudo o que eu precisava saber. Ele não gostou. Mesmo assim, fingi que não percebi.
— Quero te ver no meu escritório, Venessa. Daqui a duas horas.
A voz dele ecoou na minha mente, firme e autoritária. Eu não sabia o que esperar dele, mas aquilo foi um tipo diferente de surpresa. De qualquer forma, mantive o foco. Eu não podia me dar ao luxo de esquecer a minha missão.
— Ok, Alfa — respondi pelo vínculo, antes de me virar e me afastar.
No instante em que fechei a porta do meu quarto, soltei o ar, longo e trêmulo. Meu peito subia e descia enquanto eu tentava me recompor. Lá fora, o ar estava carregado de tensão, e a forma como Denzel reagiu me abalou. Ele tinha ficado irritado. O jeito como os homens dele tinham me olhado o incomodou, mas eu não conseguia dizer se a raiva dele era por causa deles... ou de mim.
Eu não tinha feito nada de errado. Ele tinha uma esposa, uma Luna. Pela lógica, eu deveria estar procurando um companheiro de segunda chance, em vez de ficar presa nessa teia embolada de emoções e lembranças. Mas ali estava ele — protetor, possessivo, dividido.
— Precisamos manter o foco, Venessa — sussurrou a voz de Nyla na minha mente.
— Eu sei — murmurei de volta.
Eu já tinha encerrado o dia, então me deitei para descansar, com o cansaço me tomando. Assim que fechei os olhos, uma dor ardente rasgou meu peito. Foi repentina, ofuscante — tão aguda que roubou o ar dos meus pulmões. Mordi o lábio com força, me recusando a gritar. As lágrimas desceram livres pelo meu rosto.
Dizem que chorar alivia a dor, mas essa não era o tipo de dor que lágrimas poderiam amenizar. Eu sabia exatamente o que era. Eu já tinha sentido aquilo antes, vezes demais para contar.
Denzel estava com ela.
O vínculo frágil e incompleto reagia a isso. A conexão que se recusava a morrer estava me punindo pelo que não podia ter.
Me encolhi, apertando o peito enquanto a agonia passava por mim em ondas implacáveis. Durou trinta minutos — trinta longos, torturantes minutos — até começar a ceder, deixando para trás uma dor surda e uma enxaqueca latejante. Meus membros tremiam pelo esforço de aguentar.
Olhei para o relógio. Já estava quase na hora de encontrá-lo.
Me arrastei para fora da cama e joguei água fria no rosto no banheiro pequeno. Meu reflexo me encarou de volta: olhos inchados, pele pálida. Eu não podia deixar que ele visse que eu tinha chorado. Eu não ia dar isso a ele. Então ajeitei o cabelo, troquei por uma blusa limpa e endireitei os ombros antes de ir para o escritório dele.
Bati de leve.
— Entre — veio a voz grave dele lá de dentro.
No momento em que entrei, o cheiro me atingiu. O ar estava carregado com o almíscar inconfundível de sexo, e o cabelo dele estava todo bagunçado. Meu estômago se revirou — não por ciúme, mas por causa do vínculo cruel que me fazia sentir tudo o que eu não deveria.
— Boa noite, Alfa — cumprimentei, com a voz controlada.
Ele ergueu os olhos, com uma expressão indecifrável. Eu correspondi do mesmo jeito — fria, distante. Dois podiam jogar esse jogo.
— Quando você me rejeitou — ele começou, com a voz baixa e contida —, você falou sério? De verdade?
Assenti sem hesitar.
— Com todo o meu coração.
A carranca dele se aprofundou. “Então por que a gente ainda está ligado?”
Eu não tinha resposta. Eu me perguntava a mesma coisa todas as noites.
“Talvez”, eu disse com cuidado, “você também devesse me rejeitar, em vez de só aceitar a minha rejeição. Pode ajudar.”
“Duvido”, ele respondeu, embora eu tenha visto a incerteza passar rápido pelos olhos dele.
“E o que a gente faz, então?”, perguntei, baixinho.
Ele suspirou, recostando-se na cadeira. “Eu não posso ficar com você, Venessa. Eu tenho uma esposa. Eu tenho obrigações com ela e...”
“Eu sei”, interrompi com gentileza. “Eu senti. Eu entendo. Eu vou dar um jeito.”
Ele olhou para mim, surpreso — talvez até culpado. Ele não precisava saber a verdade: que eu só tinha mais um ano, que eu tinha voltado com um propósito — expor Jalisa e a traição dela, impedir a morte e a ruína que ela tinha causado. Quando isso estivesse feito, eu iria embora. Se aguentar a dor desse vínculo pela metade fosse o preço que eu precisava pagar para terminar o que comecei, então eu aguentaria.
“Eu vou... tentar encontrar um jeito de romper isso de vez”, ele disse, depois de uma pausa.
Eu quase sorri. Ele já tinha dito exatamente essas palavras antes. Em outra vida. E, como naquela época, ele não encontraria uma resposta. Ninguém nunca encontrou. Mas eu não podia dizer isso a ele. Então eu apenas assenti, em silêncio.
“E como você está se adaptando?”, ele perguntou depois de um momento.
“Não posso reclamar, Alfa. Sou grata a você e à Sua Alteza pela gentileza.”
Ele me observou por um bom tempo. O conflito ardia por trás dos olhos dele — desejo, contenção, frustração. Eu sabia que, se ele não estivesse ligado a Jalisa, ele teria honrado o nosso vínculo. Mas ele era leal, fiel até demais. E Jalisa tinha retribuído essa lealdade com mentira.
“Você está dispensada”, ele disse, por fim.
Eu me curvei e me virei para sair, me recusando a olhar para trás.
Assim que fiquei do lado de fora, as lágrimas vieram. Não por fraqueza, mas pela dor silenciosa que nasce de se importar com alguém que você nunca pode ter. Eu tinha tentado ficar insensível. Eu dizia a mim mesma que não sentia nada. Mas ninguém para de sentir de verdade — não quando se trata do seu par.
Voltei para o meu quarto e pulei o jantar. Minhas tarefas se limitavam ao serviço do café da manhã mesmo, então eu tinha o resto da noite só para mim. O quarto estava quente e abafado, então abri a janelinha para deixar a brisa da noite entrar. Ela roçou na minha pele, fresca e reconfortante.
Eu me deitei na cama, tentando esvaziar a mente, mas o passado se insinuou — lembranças de traição, sangue e coração partido. Jalisa e Tyrell já tinham destruído tudo uma vez. Eu não deixaria que eles fizessem isso de novo.
“Seria bom ter ele como nosso par nesta vida”, Nyla sussurrou, bem baixinho.
Eu não respondi. O nó na minha garganta estava pesado demais.
Minha mãe costumava me contar histórias sobre o amor — sobre a beleza do vínculo entre pares. Ela falava disso com tanta ternura e esperança, antes que o exílio roubasse a felicidade dela. Eu cresci desejando o mesmo tipo de amor que ela descrevia. Eu fantasiava com isso. Eu acreditava.
Eu nunca imaginei que isso me levaria à morte.
Tudo o que eu tinha sonhado sobre o vínculo de pares virou o meu pior pesadelo. E agora, ser forçada a reviver tudo de novo... parecia a piada mais cruel do destino.
As lágrimas escorreram pelas minhas bochechas enquanto eu encarava a escuridão. Eu tinha prometido a mim mesma que, desta vez, eu não ia sentir. Que eu não deixaria a emoção me consumir de novo.
Que mentira acabou sendo.
