Um Ano Para Arder

Download <Um Ano Para Arder> grátis!

BAIXAR

Capítulo 3 3

POV da Venessa

Denzel levou a mão ao peito, sem fôlego, e eu instintivamente pressionei a minha contra o meu, mas continuei de pé. Os olhos dele buscaram os meus, exigindo em silêncio uma explicação, mas eu não me importei. Ele iria até o fim de qualquer jeito, por causa da Luna dele. Aquilo era só o primeiro passo para acabar com isso.

“Por quê?” A voz de Denzel roçou a minha mente pelo vínculo, baixa e urgente. Eu entendi que ele não queria que a Luna dele ouvisse. Eu podia ter dito a verdade — que eu sabia exatamente o que ele ia fazer —, mas isso teria sido burrice. Então eu dei a resposta mais razoável que me veio à cabeça.

“Eu me atrasei”, eu disse, controlada. “Você já está com alguém, e está claro que você a ama. Eu não vou ser o motivo de conflito entre você e Sua Alteza.”

A expressão dele vacilou, o choque atravessando o rosto, e por um breve segundo eu o vi lutando contra si mesmo.

“Eu aceito”, ele disse por fim, embora as palavras soassem estranguladas na garganta. Ainda assim, quando o vínculo estalou, ele não se rompeu por completo. Algo ainda nos mantinha presos — fino, mas inquebrável. Eu senti, e ele também.

“Temos que tornar isso público”, disse Jalisa, num tom seco e autoritário.

“Não precisa”, respondeu Denzel, forçando as palavras. “Ela não está interessada no vínculo, Jalisa. Não há necessidade de fazer desfile disso diante da alcateia.” Então ele olhou para mim, a voz baixa e definitiva. “Saia.”

Eu me curvei de leve. “Obrigada, Alfa. Obrigada, Luna.”

E eu saí.

Dessa vez foi surreal; as coisas não tinham descambado para a humilhação. Eu tinha evitado o espetáculo público que já tinha me destruído uma vez.

“Ele sabe que a gente ainda está conectada”, Nyla murmurou na minha cabeça, com divertimento na voz. “A cara dele não teve preço. Viu? Desta vez a gente consegue vencer.”

Revirei os olhos, mas um sorriso puxou meus lábios quando entrei no meu quarto. Aí a risada escapou de mim, selvagem e sem freio. A ardência da rejeição ainda estava ali — a dor de um vínculo meio rompido —, mas não me esmagava. Parecia vitória. No passado, eu tinha vindo para cá e chorado até ficar sem ar. Mas agora eu estava rindo. Eu tinha sobrevivido. Eu tinha transformado dor em triunfo.

Na manhã seguinte, Alesha veio me buscar para o serviço do café da manhã. Eu a segui em silêncio, avaliando-a com os olhos. Ela não era bonita; os olhos eram muito juntos, os lábios finos e sem cor. A inveja que ela sentia de mim era quase palpável. Eu não podia culpá-la por isso. Mas eu tinha planos. Cada um deles ia se arrepender do que tinha feito comigo.

Enquanto eu vinha atrás, submissa e obediente, ela virou de supetão. “Você vai servir com as outras. Nada de sentar, nada de comer até depois do Alfa, da Luna e dos de mais alta patente. Entendeu?”

“Sim”, murmurei, baixando o olhar.

Dentro do grande salão de jantar, avistei Denzel sentado à mesa principal, ao lado do Beta, do Gamma, do Delta e da Luna Jalisa. Deixei meus olhos passarem por ele — não mais do que um relance. Eu não estava ali para ficar encarando. Eu estava ali para fazer a minha jogada.

Eu servi com diligência, cuidadosa e precisa, evitando até o menor contato com a mesa principal. Mas eu sentia o olhar de Denzel em mim, quente e inquieto. Ainda assim, eu não olhei.

Então, quando chegou a hora, eu tropecei de propósito. Meu pé prendeu na barra do saco áspero que tinham me dado para vestir, e o chá fervendo derramou sobre o meu braço. A dor explodiu, aguda e ardida. Eu caí de joelhos na mesma hora, limpando a sujeira, pedindo desculpas sem parar.

Exatamente como eu esperava, Alesha veio avançando, a fúria torcendo o rosto. Ela puxou o chicote — o chicote precioso dela — e estalou nas minhas costas. Normalmente, ela nunca teria coragem de fazer aquilo na presença de Denzel, mas o ódio que ela sentia por mim a cegava. Ela tinha feito isso incontáveis vezes no passado, em segredo, sempre me ameaçando para eu ficar calada.

Eu já tinha evitado o chicote dela antes. Mas dessa vez, eu precisava dele.

A ardência me daria exatamente o que eu queria: a atenção dele, a proteção dele e a liberdade da tirania dela.

Os golpes dela vinham rápidos e cruéis, e eu choraminguei, suplicando em voz alta. “Por favor, me perdoa! O vestido tá grande demais, eu tropecei por causa dele!”

Então, um rosnado estrondoso rasgou o salão.

O cômodo inteiro parou.

“É assim que você trata os trabalhadores, Alesha?” A voz de Denzel era pura fúria. “Se ela tivesse roupas adequadas, não teria tropeçado. Que seja a última vez que você levanta um chicote contra qualquer pessoa debaixo do meu teto. Eles são trabalhadores, não escravos.”

Alesha se jogou de joelhos, tremendo. Eu não olhei para ele. Nem uma vez. Eu sabia que isso ia incomodá-lo ainda mais.

“Vem comigo”, ela sussurrou, trêmula.

“Depois que ela comer”, Denzel ordenou da mesa principal.

Eu a segui até a mesa da comida, e ela encheu meu prato com os melhores pratos. Eu aceitei em silêncio.

“Você pode sentar”, ela insistiu.

“Prefiro ficar em pé”, respondi baixo. “Não é certo uma serviçal sentar enquanto os Alfas comem.”

Os olhos dela correram nervosos até Denzel. “Se você não sentar, ele vai achar que eu tô te impedindo.”

Suspirei e me acomodei na pontinha de uma cadeira pequena ao lado da mesa de serviço.

Então a voz dele roçou minha mente de novo. “Você devia sentar em um lugar melhor, Venessa.”

“Eu agradeço, Alfa”, respondi pelo vínculo. “Mas isso seria inadequado. Não quero que os outros pensem que eu recebo tratamento especial. Eu sou só uma serviçal agora. Por favor, me deixa ficar onde eu pertenço.”

Senti o rosnado dele ecoar fraco no meu peito, mas ele não disse mais nada.

Comi rápido e saí, agradecendo Alesha com educação. Pouco depois, me deram um conjunto novo de roupas: peças ajustadas, apropriadas, como as outras serviçais usavam. O tecido colou nas minhas curvas, realçando meu corpo.

Peguei meu reflexo no espelho: cabelo escuro, negro como asa de corvo, preso num rabo de cavalo; lábios cheios; olhos suaves, de corça; um nariz pequeno — uma beleza que eu não conseguia esconder por mais que tentasse. A Luna Jalisa me odiava por isso. Mas agora que eu tinha rejeitado Denzel na frente dela, ela não ia mais me ver como ameaça. Isso me dava espaço pra me mexer, pra agir.

Alesha me entregou um uniforme: uma blusa ajustada de manga curta e uma saia em “A” que marcava a cintura. Um par de sandálias estilo gladiador completava.

“Você tem certeza de que isso é apropriado?”, perguntei, fingindo inocência.

“É o que todas as serviçais usam”, ela resmungou, mas a inveja brilhava por baixo da compostura forçada.

Sorri de leve. “Ótimo.”

Um olhar para o relógio na parede me disse que Denzel e os mais altos na hierarquia iam treinar logo no campo perto dos jardins. Perfeito.

“Quais são as minhas tarefas?”, perguntei, já sabendo a resposta.

Ela hesitou. “Você pode limpar o escritório do Alfa ou ajudar no jardim.”

Na minha vida passada, eu tinha escolhido o escritório dele, achando que ia encontrá-lo lá. Que burrice. Ele nunca estava lá durante o horário de treino.

“Eu vou pro jardim”, eu disse depressa. “Não quero incomodar no escritório dele.”

Alesha piscou, surpresa, e então assentiu. Ela chamou outra serviçal, Tonya, para me levar até lá.

Tonya. Meu peito apertou ao vê-la. Ela tinha sido minha única amiga uma vez — e tinha morrido por isso. Engoli a emoção e segui em silêncio.

Quando chegamos aos campos, eu senti os olhares — dos guerreiros, das patentes, e principalmente o de Denzel.

“Foco!” a voz dele cortou o pátio. Quase sorri.

Tonya e eu nos ajoelhamos para colher as alfaces, e ela deu uma risadinha. “Venessa, você tá linda. Os oficiais não conseguiam tirar os olhos de você.”

Soltei uma risadinha baixa. “Eu nem reparei. Talvez eles estivessem olhando pra você, Tonya.”

Ela corou, mas eu me inclinei de propósito mais pra frente, deixando a blusa abrir um pouco. Um rosnado vibrou na minha mente — baixo, possessivo, inconfundível. Eu ergui o olhar.

O olhar de Denzel travou em mim, escuro e fervendo.

Eu me curvei com respeito, depois virei e fui para outro canteiro, fingindo não notar ele.

Estava funcionando. Cada reação, cada olhar — desta vez eu estava controlando a história.

Ser boazinha não tinha me dado nada antes. Desta vez, eu ia fazer o papel da garota má e vencer.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo