Capítulo 3
POV da Riley
Eu nem lembro de ter saído do prédio feito um furacão.
Num instante eu estava encarando o Ethan como se não o conhecesse, como se nunca tivesse conhecido.
No seguinte, minhas pernas já me levavam pelo saguão, passando pelas portas de vidro, indo direto para o frio lá fora sem lançar um único olhar para ninguém. Eu não me importei se os investidores importantes estavam esperando. Eu não me importei com os boatos que iam se espalhar.
Deixa falarem.
Deixa dizerem: “Riley Grayson enlouqueceu.” Eles estariam certos.
Entrei no carro, bati a porta com força e arranquei. Não conferi pra onde ia. Não planejei nada. Só mantive o pé no acelerador e a mão fechada no volante, com a visão turva sob o peso da traição.
Meu bebê…
Meu menino lindo.
Sumiu.
E o Ethan… Meu Deus. O Ethan fez isso?
“Você é chata, Riley.”
Essas palavras não paravam de ecoar na minha cabeça. O mesmo homem que tirou minha virgindade. Com quem eu me casei aos vinte, quando eu achava que amor bastava pra construir um futuro. Três anos eu dei pra ele. Três anos da minha juventude, do meu corpo, do meu tempo, da minha alma — e agora ele estava num escritório envidraçado, enterrado na minha melhor amiga, me dizendo que eu era chata.
Eu nem percebi que tinha voltado a chorar até uma lágrima quente cair no meu pulso.
As luzes brilhando à frente me arrancaram daquele redemoinho. Um prédio baixo pulsava no fim da rua, com música vazando pelos vidros escuros e letreiros de neon tremeluzindo acima da entrada.
Eu pisquei.
É o clube. No centro de Crescent Hollow.
Mas não era um clube qualquer. Não do tipo em que você entra sem ter um motivo. Aquele lugar não foi feito para humanos como eu. Era de propriedade, administrado e dominado por metamorfos — na maioria lobisomens de alto escalão, como Betas e Gammas. A elite da matilha. Perigosos. Poderosos e intocáveis.
Mas agora? Eu não estava nem aí.
Que me expulsassem. Que me despedaçassem, se quisessem.
Eu precisava de ar.
Eu precisava de barulho.
Eu precisava esquecer.
Entrei com o carro num estacionamento lateral, desci, bati a porta atrás de mim e fui direto para a entrada sem hesitar. Meu vestido preto grudava no corpo, amassado de horas de uso, com a gola manchada de lágrimas, mas eu mantive a cabeça erguida ao entrar.
O cheiro de almíscar pesado me atingiu primeiro, misturado com suor, couro, álcool, sexo. A pulsação da música martelava nos meus ossos. O lugar estava vivo, em movimento. Dançarinos se esfregando uns nos outros.
Lobos de baixa patente — ômegas em formas sedutoras, com sorrisos rápidos enquanto riam, flertavam, brigavam. Ninguém me notou de início. Talvez ninguém esperasse que uma humana entrasse sozinha.
Com certeza não uma de luto.
Fui em linha reta até o bar.
O bartender, um metamorfo alto com argolas prateadas nas duas orelhas e tatuagens subindo pelo pescoço, piscou para mim como se eu fosse uma alucinação.
— Tequila — eu disse.
Ele ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada e serviu uma dose pra mim. Eu virei de uma vez. Ele piscou, confuso, e serviu outra. Eu virei também.
Terceira. Quarta. Quinta.
Eu não parava.
Eu não conseguia parar.
A voz do Ethan ainda ecoava no meu crânio como uma maldição da qual eu não conseguia me livrar.
Depois de tudo… depois de cada noite em que eu mantive os negócios daquele homem de pé… depois de cada momento em que eu conseguia cuidar do nosso menino enquanto ele “não estava nem aí”.
Na sétima dose, eu bati o copo vazio no balcão e abri a boca pra pedir outra, mas o barman hesitou.
— Desculpa, moça — ele disse, me olhando de lado, com os olhos semicerrados. — Não posso te servir mais. Você já passou do ponto.
— O quê? — franzi a testa. — E desde quando você é quem vai me dizer quanto eu quero beber? Você por acaso sabe como eu tô me sentindo agora?
Eu não estava gritando. Mas minha voz saiu alta, por causa da música estourando dentro da boate. As luzes pareciam estar girando. Meu pulso zunia nos ouvidos.
— Me serve mais uma.
— Tô falando sério — ele disse. — Eu vou me ferrar se te der mais uma. Eu não saio inteiro daqui.
Eu soltei uma risada amarga pelo nariz.
— Diz quem?
Os olhos dele correram por cima do meu ombro, pra trás de mim.
— Eles.
Eu me virei devagar, e meu olhar caiu neles.
Três homens.
Três homens absurdamente grandes, devastadoramente bonitos, sentados no canto mais afastado da boate, num camarote em que ninguém mais tinha coragem de chegar perto. Eu não tinha reparado neles quando entrei — como é que eu podia ter deixado passar? Era como se a aura mudasse ao redor deles. Como se o lugar inteiro se comportasse diferente na presença deles.
Agora os olhos deles estavam em mim. Observando com atenção. Os três.
Um com o maxilar talhado em pedra e o cabelo preso num nó frouxo na nuca.
Outro estava jogado pra trás, displicente, os dedos batucando no copo, os olhos de ouro derretido mesmo àquela distância.
O terceiro parecia mais sombrio — o perigo parecia se enroscar nele como fumaça, e a expressão indecifrável estava cravada bem em mim.
Eles pareciam familiares de algum jeito. Familiares demais.
Eu apertei os olhos, esfregando o rosto. A tequila com certeza tinha me alcançado, mas alguma coisa me dizia que eu já tinha visto aqueles três antes. Em algum lugar. De algum jeito.
Virei de volta pro barman, com a voz trêmula:
— Eu quero mais bebida, senhor.
Ele balançou a cabeça.
— Se eu servir, eles vão fazer questão de me fazer me arrepender. Por favor, moça… eu gosto da minha vida, mesmo que você esteja odiando a sua agora.
Olhei pra trás de novo. Dessa vez, nenhum deles desviou o olhar.
Eles continuavam me encarando e, de repente, um calor pinicou pela minha pele.
Que diabos eles queriam? Por que estavam me olhando daquele jeito? E que piada doentia era essa de eu não poder beber mais?
Eles mandam nessa boate ou o quê? Eu bati as palmas no balcão, fazendo o barman se sobressaltar, e me endireitei, cambaleando um pouco.
— Eles vão ter que me dizer quem eles são pra achar que podem me impedir de beber mais — eu disse, cerrando as mãos, e fui na direção deles.
