Capítulo 4 Alvo de abuso on-line
Evelyn não estava nem aí pra ele e escancarou a porta do depósito.
Ela não tinha muita coisa — só alguns itens espalhados pelo cômodo, com algumas roupas até jogadas direto no chão.
Evelyn juntou rápido algumas mudas de roupa limpa, dobrou tudo com cuidado e se preparou para sair.
— Aonde você vai? — Luke bloqueou a passagem.
— Não é da sua conta.
Evelyn passou por ele à força, arrastando a mala em direção à saída.
— Pra onde a Evelyn está indo? — a voz de Maggie veio de trás. — Sr. Miller, por favor, ponha juízo na Evelyn. Já está tão tarde da noite...
Mas Luke agiu como se nem tivesse ouvido, com a voz fria e debochada:
— Se ela quer ir, deixa ir. Se tem coragem pra sair, é melhor não voltar.
Evelyn o ignorou completamente.
Na escuridão, os olhos dela estavam límpidos, frios e determinados quando ela atravessou a porta da frente da mansão.
Quando chegou ao laboratório, já tinha passado da meia-noite. O alojamento improvisado era apertado e simples, mas ela se sentia mais tranquila do que nunca.
Ela finalmente tinha saído daquele lugar sufocante.
O celular vibrou no bolso — uma mensagem de Joseph:
[Mudei seu voo para Starlight City para a manhã de depois de amanhã. Assim você tem um dia pra resolver as coisas no laboratório. Me avise se precisar de ajuda.]
Evelyn: [Obrigada.]
Ela largou o celular e puxou um longo suspiro.
Ao ir até a janela, viu os pesquisadores se apressando pelo campus lá embaixo, e a pressão no peito diminuiu um pouco.
Trabalho era o melhor analgésico.
Bem cedo na manhã seguinte, Evelyn vestiu o jaleco branco, prendeu o cabelo e entrou na sala de procedimentos esterilizada.
As amostras de rede neural nas placas de Petri estavam crescendo de forma constante. No microscópio, aquelas minúsculas conexões sinápticas exibiam uma complexidade impressionante.
Ela mergulhou no trabalho, registrando dados e ajustando parâmetros. Quando percebeu, já era tarde.
O celular vibrou de repente.
Na tela apareceu o nome de Luke.
Evelyn encarou o nome piscando, hesitou por alguns segundos, mas mesmo assim atendeu.
— Onde você está? — a voz de Luke veio pelo telefone.
— No laboratório — respondeu Evelyn.
— Até quando você vai continuar com isso? — o tom de Luke estava tão impaciente quanto sempre.
Evelyn apertou o celular com mais força.
— Luke — ela tentou manter a voz firme —, pensa no divórcio.
— Evelyn.
A voz de Luke subiu de repente, claramente irritada.
— Você ainda não se cansou? Tentando chamar minha atenção ameaçando divórcio… uma ou duas vezes, tudo bem. Mais do que isso só enche o saco.
Lá vinha de novo.
Aos olhos dele, a decisão dela era só birra — mesquinharia.
Como se o mundo dela se resumisse a ele e ao Andy.
Evelyn soltou uma risada gelada.
De repente, ela se sentiu exausta.
— Eu tenho coisas pra fazer — a voz dela ficou cortante. — Vou desligar.
A ligação foi encerrada de forma brusca, e o sinal de ocupado apitou.
Luke socou a mesa, descarregando uma raiva que não tinha pra onde ir.
Maggie trouxe uma xícara de café recém-passado e a colocou com cuidado na mesa de Luke.
— Sr. Miller, tome um café — a voz dela era suave, com um quê de preocupação. — A Evelyn ainda está brava?
Luke esfregou as têmporas, irritado.
— Deixa ela.
Maggie baixou os olhos; os cílios fizeram uma pequena sombra abaixo deles, deixando-a com um ar frágil e compreensivo.
— A Evelyn provavelmente só está chateada por enquanto. Sr. Miller, por que o senhor não vai buscá-la? Afinal, ela é a mãe do Andy — em família não existe rancor.
Ela disse isso em voz alta, mas os dedos, sem perceber, se fecharam com mais força.
— Fazer média com ela? — Luke soltou um riso curto e frio, como quem despreza a ideia.
Ele não acreditava nem um pouco que Evelyn fosse se divorciar dele. Ela tinha tramado tanto para se casar com ele e entrar para a família Miller — como poderia estar disposta a ir embora agora?
— Mas… — Maggie hesitou, com o rosto cheio de dificuldade — se a Evelyn simplesmente sair de casa assim e as pessoas ficarem sabendo, tenho medo de começarem os comentários. Não vai ser bom nem pro senhor nem pra reputação do Grupo Miller. E o Andy perguntou hoje de manhã se a mãe dele não quer mais ele. Criança pode ser pequena, mas sente as coisas.
Ao ouvir o nome de Andy, a expressão de Luke ficou ainda mais sombria.
— Cuida do Andy pra mim — disse ele, olhando para Maggie; o tom suavizou um pouco. — Obrigado por todo o esforço ultimamente.
Maggie balançou a cabeça depressa.
— Não é esforço nenhum. Eu gosto de verdade do Andy e trato ele como se fosse meu filho. É só que…
Os olhos dela ficaram levemente vermelhos. “Afinal, eu não sou a mãe de verdade dele, então tem coisas que eu realmente não posso dizer. Mas ver o Andy querendo a mãe e não tendo coragem de falar… isso parte meu coração.”
“Não mencione mais ela.” Luke fez um gesto com a mão, cada vez mais irritado.
“Se ela quer ficar por aí, que fique. Quero ver até quando ela aguenta.”
Um sorriso quase imperceptível passou pelos olhos de Maggie, embora ela suspirasse em voz alta. “Espero que a Evelyn caia na real logo. Para ser boa, uma família tem que estar completa.”
Nos dois dias seguintes, Evelyn foi para Starlight City.
A agenda dela estava lotada — análise de dados, reuniões de andamento do projeto, ligações com parceiros… ela mal tinha tempo de respirar.
Por isso, quando a ligação do David chegou, ela não reagiu de primeira.
“O que foi que você disse?”
A voz de David soava ansiosa. “Vai olhar o grupo de intercâmbio acadêmico de Oceancrest City! Virou um caos!”
Grupo de intercâmbio acadêmico?
Confusa, Evelyn abriu o chat do grupo. A primeira mensagem que viu fez ela travar na hora.
[Você ficou sabendo? Aquela Evelyn, que recebeu financiamento recentemente pra cultivo neural… parece que o casamento dela acabou.]
[Sério? Eu achei que o casamento dela era bom — não é casada com o Luke, do Grupo Miller?]
[Bom? Pelo que disseram, ela não conseguia ficar em casa e insistia em trabalhar, negligenciando o marido e o filho.]
[Ouvi isso também. Ela até saiu de casa? A criança é bem pequena, né? Bem sem coração pra uma mãe.]
[Tá vendo? Por isso mulher tem que colocar a família em primeiro lugar. Ambição demais por carreira não é uma coisa boa…]
Alguns comentários anônimos, como pedras jogadas na água, foram se espalhando em ondas.
Evelyn encarou a tela, sentindo os dedos ficarem gelados.
Tirando a família e pouquíssimos amigos, ela não tinha contado a ninguém sobre a separação do Luke.
No laboratório, só sabiam que ela estava ficando temporariamente no alojamento porque o projeto estava puxado. O David talvez tivesse desconfiado de alguma coisa, mas ele nunca vazaria isso.
De onde estavam saindo esses boatos?
Ela fechou o chat e se obrigou a continuar trabalhando, mas a corda no peito já tinha esticado ao máximo.
O ataque de verdade veio na manhã seguinte.
Evelyn foi acordada por uma sequência interminável de notificações no celular.
Ainda estava amanhecendo, a luz do banheiro era fraca, e a tela do celular ao lado do travesseiro piscava freneticamente, vibrando sem parar.
Ela tinha sono leve e, com tanta coisa na cabeça nos últimos dias, dormia ainda pior.
Meio adormecida, ela esticou a mão para pegar o celular. No instante em que desbloqueou a tela, congelou.
Na barra de notificações, o número vermelho no ícone de SMS não parava de pular e aumentar.
No WhatsApp era a mesma coisa — incontáveis solicitações de amizade e mensagens não lidas lotavam a tela.
Ela abriu a mensagem de texto mais recente. Era de um número desconhecido, mas o conteúdo fez o sangue dela gelar na hora:
[Sua vadia que abandonou marido e filho! Você merece ser mãe? Vai morrer!]
[Abandonou seu filho por prazer — como é que você ainda tem coragem de viver?]
[Pobre Andy, preso com uma mãe tão egoísta!]
A cada mensagem, o tom ficava mais cruel e mais nojento.
Com os dedos tremendo, Evelyn abriu o WhatsApp.
Dezenas de pedidos de amizade de desconhecidos, todos com recados cheios de ofensas e pragas.
As redes sociais dela também tinham sido invadidas.
Alguém tinha até divulgado o endereço do laboratório dela na internet, desenterrado fotos antigas da época da faculdade, e outras pessoas, cheias de certeza, inventavam detalhes sobre como ela maltratava o filho e se encostava na família Miller.
Na resposta ao post mais recente dela sobre o andamento dos experimentos, os comentários estavam lotados de baixaria.
[Que mulher independente o quê? Você só enjoou de vida de família e quer pegar outros homens, né?]
[Seu filho foi parar no hospital por alergia e você nem ligou — você é humana?]
[O Sr. Miller é um homem bom. Foi problema seu que deixou ele com raiva. Você merece ser expulsa!]
[Mulher assim tem que ser exposta na internet! Todo mundo memorize a cara dela — Evelyn, a mulher que abandonou marido e filho!]
Evelyn se sentou na beira da cama, segurando o celular, o corpo inteiro gelado.
Ela forçou um sorriso.
Pensou: “Luke, Maggie… parabéns. Muito bem feito, os dois.”
Evelyn puxou o ar e pegou o celular de novo.
A ligação foi atendida quase na mesma hora.
“Evelyn?” A voz de Joseph vinha rouca, coisa de quem acabou de acordar. “O que aconteceu? Ligando a essa hora?”
“Joseph…” Evelyn falou, e percebeu que a própria voz estava horrivelmente rouca. “Eu preciso de um favor.”
“Fala…”
