Tarde Demais Para Implorar: A Ex-Esposa Gênia

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Capítulo 3 Você é digna de ser mãe?

Evelyn terminou o trabalho no laboratório e passou para o David os próximos encaminhamentos. Quando chegou em casa, já eram 11 da noite.

A chuva tinha parado. O céu estava limpo e o bairro de casas estava tão silencioso que dava para ouvir os insetos cantando.

Parada diante da porta, ela notou que a luz do quarto do Andy, no segundo andar, ainda estava acesa. Franziu levemente a testa.

Normalmente, a essa hora, Andy já estaria dormindo.

Como se tivesse pressentido alguma coisa, Evelyn puxou o ar, pegou as chaves e abriu a porta.

No meio do corredor, havia um par de saltos altos vermelho-vivo, de bico fino e salto agulha, largados sem a menor cerimônia.

Da sala, vinham risadas — de uma mulher e de uma criança — ecoando.

Evelyn ficou imóvel por um instante, então tirou as sapatilhas sujas de chuva e lama e seguiu descalça, na direção do som.

Sob a luz quente da sala, Luke estava recostado no sofá comprido, com um ar relaxado.

Maggie estava sentada ao lado dele, de robe de seda, deixando entre os dois um espaço de mais ou menos uma pessoa.

Andy estava sentado no colo da Maggie, com a cabecinha apoiada no peito dela, os olhos grudados no desenho que passava na TV, rindo baixinho.

Evelyn achou aquilo tudo amargamente irônico. Respirou fundo para se firmar e entrou.

O som dos passos assustou os três na sala.

Andy foi o primeiro a virar a cabeça. No instante em que a viu, o sorriso sumiu do rosto.

— Por que você voltou? — o tom dele estava cheio de irritação.

Luke também ergueu os olhos, franzindo levemente a testa.

— Chegando em casa a essa hora.

Evelyn ignorou os dois e foi direto para a escada.

— Voltei para pegar algumas coisas. Vou viajar a trabalho por uns dias.

— Viajar a trabalho? — a voz de Luke se elevou um pouco, desconfiada. — Você acabou de abrir o laboratório e já vai viajar?

— Eu sou a diretora do laboratório. Não preciso te prestar contas de tudo, senhor Miller — disse Evelyn, sem olhar para trás.

— Para aí. — Luke se levantou. — Eu ainda não acertei as contas com você por causa da reação alérgica do Andy. O Andy ficou doente, foi parar no hospital, e você nem sequer foi visitá-lo. Você acha que merece ser chamada de mãe?

Ela deu um sorriso de canto, pensando: “Eu não mereço?”

Evelyn enfim parou e se virou para encará-lo.

— O que ia mudar se eu fosse? Você ia mandar a Maggie ir embora? Ou ia admitir que a decisão errada foi sua e dela e que foi isso que causou a crise alérgica do Andy?

Os dois se encararam, e o clima ficou tenso na mesma hora.

Maggie se apressou em interromper:

— Evelyn, não culpe o senhor Miller. A culpa foi toda minha.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Eu realmente não sabia que aquele bolo tinha glúten. A confeitaria disse que era tudo orgânico...

— Você não sabia? — Evelyn soltou uma risada fria. — Até a professora do Andy na escola sabe o quanto a alergia dele a glúten é grave. Você é a assistente mais antiga do pai dele, cuida dele há tanto tempo, e não sabia?

— Eu avisei a Maggie — Luke tomou a frente. — Mas naquele dia ela estava muito ocupada e deve ter deixado passar. Quem consegue evitar erros o tempo todo? Já você... você sabia o quão séria é a alergia dele e, por birra, se recusou a ir ao hospital. Evelyn, desde quando você ficou tão mesquinha?

Evelyn olhou para o homem à sua frente. Depois de cinco anos de casamento, aquela foi a primeira vez que o rosto dele pareceu tão desconhecido.

— Mesquinha?

Ela repetiu, a voz baixa, mas carregando um tremor reprimido há muito tempo.

— Luke, nosso filho mandou eu sumir em público e jogou coisas em mim. Você não só não o corrigiu como ainda disse que eu estava exagerando. Agora ele foi parar no hospital por negligência de vocês e, de algum jeito, a mesquinha sou eu?

— Então o que você quer? — Luke perguntou, impaciente. — A Maggie já pediu desculpas e o Andy já está bem. Até quando você vai ficar batendo nessa tecla?

— Eu quero que ela saia desta casa — disse Evelyn, articulando cada palavra. — Agora.

A sala caiu num silêncio breve.

De repente, Andy se soltou do abraço da Maggie, desceu do sofá descalço, correu até Evelyn e a empurrou com força.

— Você é que sai! Esta casa é minha! Não mexe com a Maggie!

Evelyn não estava preparada e cambaleou um passo para trás, batendo a cintura no corrimão da escada — uma dor surda.

— Andy! — ela finalmente não conseguiu evitar levantar a voz. — Eu sou sua mãe! É assim que você trata a sua mãe?

Mas Andy reagiu como se tivesse levado uma picada, ficando furioso na mesma hora.

— Você não é minha mãe! A Maggie é!

Com isso, ele pegou a fruteira de vidro da mesa de centro e a arremessou em Evelyn, sem pensar.

—Sai daqui, você é uma pessoa ruim!

Evelyn se esquivou para o lado. A fruteira se espatifou na parede atrás dela, estourando em pedaços, com cacos de vidro voando para todo lado.

Um fragmento afiado cortou seu braço nu, e o sangue começou a brotar imediatamente.

—Andy!

Maggie gritou e correu, puxando Andy para os braços e virando as costas para Evelyn, como se o estivesse protegendo de algum perigo.

—Tá tudo bem, eu tô aqui, não fica com medo.

Ela se virou para encarar Evelyn, a voz cheia de reprovação.

—Evelyn, como você tem coragem de assustar uma criança assim? Ele ainda é pequeno, não entende. Você não pode simplesmente deixar pra lá?

Luke também se aproximou. Primeiro, conferiu o filho nos braços de Maggie e, depois de ver que ele estava bem, voltou o olhar para Evelyn.

Ao ver o sangue no braço dela, franziu ainda mais a testa, mas o que disse foi:

—Por que você tá discutindo com uma criança? Ele não sabe o que faz... e você, não sabe?

Evelyn baixou os olhos para o corte comprido e fino no braço; o sangue se espalhava devagar pela textura da pele, formando uma linha vermelha gritante.

De repente, ela se lembrou de quando Andy tinha três anos. Ele correu rápido demais no parque e caiu, ralando o joelho. Ela o pegou com todo cuidado e correu com ele para o hospital.

No caminho inteiro, ele chorou desesperado, e o coração dela doía junto.

Na hora do curativo, ele se debateu de dor e, sem querer, acertou o queixo dela com um chute. A primeira reação dela tinha sido ver se o pé dele tinha se machucado.

Mas agora, o próprio filho tinha jogado uma fruteira de vidro nela, e o marido estava culpando ela por assustar a criança.

—É... —Evelyn repetiu baixinho e, de repente, riu. —Eu é que não sei o que faço.

Ela agachou e começou a catar os cacos do chão, um por um.

—O que você tá fazendo? —Luke perguntou.

—Limpando, pra que seu filho precioso e a Maggie não se machuquem. —Evelyn respondeu, sem levantar a cabeça, com movimentos mecânicos.

Um caco especialmente afiado cortou a ponta do dedo dela; o sangue pingou no mármore impecável do piso, de um vermelho vivo.

Ela pareceu nem sentir a dor e continuou juntando os pedaços.

Maggie segurou Andy, acalmando-o baixinho:

—Não fica com medo, meu amor. Vamos subir pra tomar banho, tá? Depois eu leio o livrinho novo que eu comprei.

Os dois subiram abraçados. Ao passarem por Evelyn, Andy fez questão de bufar para ela.

Evelyn pegou o último pedaço de vidro e se levantou.

Jogou os cacos no lixo e puxou um lenço de papel para apertar o ferimento na mão — o sangue atravessou o papel em segundos.

—O kit de primeiros socorros fica embaixo do rack da TV. —A voz de Luke veio de trás; havia relutância no olhar dele, mas, ainda assim, ele não se mexeu.

Evelyn não respondeu e foi direto para o andar de cima.

—Pra onde você tá indo? —Luke foi atrás.

—Fazer as malas. Vou viajar a trabalho. —Evelyn respondeu, seca.

Ela chegou à porta do quarto do casal e segurou a maçaneta, mas estava trancada.

—Cadê a chave? —perguntou, virando-se para Luke.

Um lampejo de desconforto passou pelo rosto dele.

—A Maggie não anda dormindo bem. O quarto de hóspedes lá em cima é meio barulhento por causa da rua, então deixei ela ficar no quarto principal por enquanto.

Evelyn sentiu a respiração travar por um instante.

Ótimo. Ela, a esposa no papel, ainda nem tinha ido embora, e Maggie já tinha se mudado para o quarto dela.

Eles estavam mesmo tão impacientes assim?

—Abre. Eu preciso pegar minhas coisas. —disse em voz baixa, cansada demais para discutir.

A testa de Luke se fechou um pouco.

—A Maggie disse que tinha coisa demais no quarto e não conseguia dormir. Eu pedi pra Bianca levar suas coisas, por enquanto, pro depósito do térreo.

Evelyn virou a cabeça de uma vez para encará-lo; havia algo no olhar dela que fez Luke recuar instintivamente meio passo.

Era uma expressão que ele nunca tinha visto nela — não era raiva, nem tristeza, e sim um frio silencioso, cortante.

—Luke. —Evelyn sorriu. —Você é incrível.

Luke apertou os lábios, sem dizer nada.

Evelyn não queria ficar naquela casa mais um segundo. Ela se virou e foi para o térreo, com os passos um pouco cambaleantes.

Luke desceu atrás dela, a voz com tom de aviso:

—A Maggie tá cuidando do Andy agora. Não faz escândalo, Evelyn.

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