Capítulo 4 004
A casa estava estranhamente silenciosa naquela manhã; o único som constante era o zumbido baixo da geladeira na cozinha. Dona Harlow estava sentada na poltrona preferida, ao lado da janela da sala, com uma xícara delicada de chá equilibrada na mão. Tinha aquela expressão apertada no rosto, a mesma que indicava que ela vinha esperando uma brecha para dizer tudo o que pensava.
Claire entrou, com o cabelo preso às pressas e os olhos marcados pela falta de sono. Ela mal conseguia esboçar um sorriso desde o término, semanas antes, mas estava tentando — do jeito dela.
O olhar da mãe foi direto para ela.
“Claire”, começou Dona Harlow, a voz afiada, carregada de superioridade, “eu não sei o que está acontecendo com você. Sinceramente, não sei.” Ela pousou a xícara na mesa com um tilintar discreto. “Vinte e oito anos e ainda incapaz de manter um homem por mais de cinco meses. Você já parou pra se perguntar por quê?”
Claire parou na porta, já cansada de saber para onde aquilo ia.
“Mãe, não hoje de manhã”, murmurou, massageando a têmpora.
Mas Dona Harlow não era do tipo que se calava depois de escolher o alvo. “Não vem com ‘mãe’ pra cima de mim. Eu estou dizendo isso porque me importo com você. Olha a sua irmã: casada com o homem mais rico que eu já conheci, vivendo uma vida que qualquer mulher invejaria. E aí tem você… saindo de um relacionamento fracassado e caindo em outro. É constrangedor, Claire. Constrangedor pra mim, constrangedor pra esta família.”
Claire sentiu o peito apertar. Mordeu o lábio com força, lutando para segurar as lágrimas.
“Então porque a Amelia casou bem, eu virei uma vergonha? É isso que a senhora está dizendo?”
Dona Harlow recostou na poltrona, o tom calmo, mas cortante.
“Não distorça as minhas palavras. Eu estou dizendo que a Amelia é a prova de que uma mulher que sabe se portar, que sabe o que quer, consegue. Enquanto você… bem, parece que não consegue nem manter um relacionamento simples de pé. Os homens vão embora de você como se você não tivesse nada a oferecer. E eu já estou cansada de ver você se afundar nessa sua tristeza.”
As palavras acertaram como golpes, uma mais dura que a outra. Claire cerrou os punhos ao lado do corpo.
“A senhora não entende, entende? A senhora não sabe pelo que eu passei. Acha que eu queria que as coisas terminassem do jeito que terminaram? Acha que eu gosto de me sentir assim todos os dias?” A voz falhou, apesar de todo o esforço para não falhar.
Dona Harlow fez um gesto de desdém com a mão.
“Desculpas, Claire. Sempre desculpas. A verdade é que você não sabe segurar um homem. Você afasta eles, ou eles vão embora porque você não se esforça o suficiente. Enquanto isso, a Amelia nem precisa se esforçar, os homens fazem fila pra ela. Essa é a diferença entre vocês duas.”
A garganta de Claire ardia. Ela sentiu o nó se formando, ameaçando sufocá-la. As palavras da mãe cavavam fundo em feridas que já estavam abertas pelo coração partido. O nome da Amelia — sempre a Amelia — jogado na cara dela como um lembrete de tudo o que ela não era.
“Talvez os homens não façam fila pra mim porque eu não sou como ela”, sussurrou Claire, com ferocidade, piscando para conter as lágrimas. “Talvez eu não queira fingir ser alguém que eu não sou só pra ser amada. Talvez eu esteja cansada de ser comparada com a Amelia como se eu fosse uma versão fracassada dela!”
As sobrancelhas da mãe se ergueram, indiferentes ao desabafo.
“Esse amargor, esse tom aí, não é de se admirar que homem nenhum fique. Você devia aprender a ser mais doce, Claire. Aprender com a sua irmã antes que seja tarde. Você não está ficando mais nova.”
Aquilo foi a gota d’água. Sem dizer mais nada, Claire se virou, os saltos batendo secos no chão enquanto ela avançava, furiosa, pelo corredor. Não se importou se a mãe chamasse por ela; não se importou com mais uma rodada de comparações. No instante em que chegou ao quarto, fechou a porta com uma batida firme e encostou nela, pressionando as palmas das mãos contra a madeira.
O peito dela subia e descia, ofegante, enquanto o silêncio do quarto a engolia por inteiro. As lágrimas que ela vinha segurando finalmente transbordaram, quentes e implacáveis. Claire enfiou o rosto nas mãos, com o peso da voz da mãe ainda ecoando nos ouvidos, o nome de Amelia reverberando como uma sombra cruel da qual ela nunca conseguiria fugir.
Do lado de fora, a Sra. Harlow pegou a xícara de chá outra vez e tomou um gole como se nada tivesse acontecido. Para ela, era só mais uma manhã, mais um sermão. Mas, para Claire, era mais uma rachadura num coração que já mal conseguia se manter inteiro.
De volta ao quarto, a raiva no rosto dela, de repente, foi se desfazendo devagar até virar um sorriso torto, enquanto ela soltava uma risada baixa, debochada.
“Adrian, claro…” murmurou, indo a passos firmes até a cômoda, onde um celular estava à espera. “Talvez a mamãe devesse primeiro saber o que o filhinho de ouro dela anda aprontando antes de ficar cantando as glórias dele.”
Os dedos bem-feitos dela voaram pela tela até encontrar o número que procurava, e ela foi enxugando os olhos enquanto fazia isso. Sem hesitar, apertou “ligar”. Não demorou para uma voz conhecida, doce e brincalhona, atender do outro lado.
“Claire! Que surpresa. Me ligando no meio do dia? Achei que você estivesse ocupada demais aí em casa, afiando as garras.”
Claire deu uma risadinha sombria.
“E eu achei que você estivesse ocupada demais roubando beijos de um homem que devia ter sido de outra pessoa. Não se faça de sonsa comigo, você sabe por que eu tô ligando.”
A mulher do outro lado riu, um som leve e provocador.
“Se isso é por causa do Adrian, não me diga que você está com ciúme de novo. A gente já passou por isso, Claire. Ele é meu quando eu quero que ele seja.”
Claire revirou os olhos, embora os lábios se curvassem num sorriso.
“Não se ache tanto. Eu não tô ligando por ciúme. Eu tô ligando porque preciso que você faça uma coisa pra mim. Uma coisa importante.”
Houve um segundo de silêncio, depois um murmúrio curioso.
“E o que exatamente seria?”
“O aniversário dele”, disse Claire com suavidade, se jogando para trás na cama e cruzando as pernas. “Hoje. Você já sabe disso, não sabe? Ele te contou, contou?”
“Claro que contou”, respondeu a amante, cheia de si. “Ele disse que ia passar aqui depois do trabalho. Prometeu ficar um pouquinho comigo antes de ir pra casa.”
O sorriso de Claire se afiou como uma lâmina.
“Ótimo. Quando ele vier, faça questão de que ele nunca vá embora. Segura ele aí com você. Garanta que ele não pise de volta naquela família dele até passar tempo suficiente pra estrago ser feito. Tá me entendendo?”
Do outro lado, a amante soltou uma risadinha leve, maliciosa.
“Ai, Claire, você não confia mais em mim? Depois de tudo o que a gente já fez juntas? Você sabe que eu vivo por esse tipo de caos.”
Claire deu um meio sorriso, baixando a voz até virar um sussurro perigoso.
“É exatamente por isso que eu te liguei. Porque eu sei que você vai aproveitar cada segundo. Considere isso… um presente meu pra você. Você fica com ele a noite toda, e eu fico com o que eu quero na casa dele.”
“Isso”, ronronou a amante, “parece a Claire que eu adoro. Sempre tramando. Sempre dois passos na frente.”
A risada de Claire se misturou à dela, fria e satisfeita.
“Boa menina. Gostei de ouvir isso. Agora, não me decepcione. Se você falhar comigo, vai se arrepender de ter atendido.”
“Ah, não vem me ameaçar com esse seu drama”, provocou a amante. “O Adrian vai ser meu hoje à noite, e eu vou fazer questão de ele esquecer o caminho de volta pra própria cama.”
“Perfeito”, sussurrou Claire, com os olhos brilhando, enquanto encerrava a ligação.
Ela pousou o celular, soltou um longo suspiro e sussurrou para si mesma: “Vamos ver, mãe… vamos ver quanto controle a sua Amelia realmente tem sobre o seu Adrian”, ela riu.
