Capítulo 2 002
A cozinha pareceu estranhamente silenciosa depois que a porta pesada da frente se fechou atrás de Adrian. O eco suave dos sapatos bem engraxados dele no piso de mármore ficou ressoando nos ouvidos de Amelia muito depois que ele foi embora. Ela ficou parada por um instante, os dedos roçando o encosto da cadeira que ele tinha ocupado num café da manhã apressado, encarando a torrada intocada no prato dele. Ele mal tinha comido, como sempre, preocupado demais com os compromissos que se avolumavam no dia.
Amelia suspirou baixinho. Juntou os pratos e os deixou na pia, obrigando-se a se mexer. O tilintar da louça era o único som que preenchia o ambiente, junto com o zumbido da geladeira. Ela não gostava de silêncio — pelo menos, não daquele tipo. Não era paz; era vazio.
Do corredor veio o som de passinhos pequenos e apressados.
— Mamãe! — chamou Hazel, arrastando a mochila pela chão. — O papai já foi?
Amelia se virou, o coração apertando ao ver o rostinho da filha, cheio de expectativa. Hazel tinha só sete anos, com os olhos castanhos marcantes do pai, mas os traços delicados da mãe.
— Sim, meu amor — disse Amelia com carinho, ajoelhando-se para ficar na altura dela. — O papai teve que ir trabalhar.
Os lábios de Hazel se projetaram num biquinho.
— Será que ele volta cedo pro jantar? — Ela ergueu, orgulhosa, a folha colorida que estava segurando: bonequinhos de palito de mãos dadas sob um sol bem brilhante, uma casa com fumacinha saindo da chaminé e as palavras Eu, Mamãe, Papai. Era o desenho mais recente dela.
Amelia a puxou para um abraço, respirando o cheirinho do shampoo de morango.
— Sim, vai — disse ela, olhando para o papel. — Está lindo, querida. Tenho certeza de que o papai vai amar quando vir mais tarde, hoje à noite.
Os ombrinhos de Hazel murcharam.
— Ele está sempre ocupado. Tomara que dessa vez ele consiga — reclamou, ainda de bico.
As palavras atravessaram Amelia como uma agulha. Não tinham raiva, só a honestidade inocente de uma criança que não queria nada além de tempo com o pai. Amelia alisou o cabelo de Hazel e forçou um sorriso.
— Por isso a gente vai lembrar ele com jeitinho, tá? E quando chegar seu aniversário, ele compensa.
A menção ao aniversário iluminou um pouco o rosto de Hazel. Ela assentiu e saiu pulando em direção à porta. Amelia foi atrás, pegando a garrafinha de água de Hazel e colocando com cuidado a lancheira que tinha preparado.
O caminho até a escola foi preenchido pela tagarelice de Hazel sobre os colegas e sobre o livro de histórias que a professora prometeu ler. Amelia ouviu, sorrindo, embora os pensamentos voltassem para Adrian. Lembrou-se de como ele reagira naquela manhã quando ela mencionou estar presente no jantar; a resposta dele tinha mostrado mais preocupação com as reuniões do que com o fato de Hazel querer aquilo.
Quando Amelia beijou Hazel de despedida no portão da escola, o sorriso dela já parecia tenso nas bordas. Ver a filha correndo para dentro do prédio, com a mochila quicando nas costas, a deixou ao mesmo tempo orgulhosa e triste. Orgulhosa de como Hazel era esperta — e triste porque Adrian continuava perdendo esses momentos que passam num piscar de olhos.
No caminho de volta pra casa, Amelia passou no supermercado. A diarista que eles mal tinham contratado pra um serviço de um dia normalmente cuidaria das compras, mas Amelia encontrava conforto no gesto simples de escolher verduras e sentir o cheiro das frutas maduras. Aquilo a ancorava, dava a ela uma sensação de normalidade que ela tanto desejava no meio do mundo acelerado de Adrian, cheio de prazos e expectativas.
Ela ficou um tempo na parte da padaria, escolhendo a brioche preferida do Adrian. Mesmo ele mal tendo encostado na torrada de manhã, alguma coisa nela ainda esperava pegá-lo com uma fatia quentinha hoje à noite.
Quando voltou pra casa, a luz do sol atravessava a sala com um calor acolhedor. Amelia deixou as compras na cozinha e, por hábito, entrou no escritório do Adrian.
Estava impecável, quase frio. A mesa dele estava tomada por pastas, o notebook ainda aberto, como se aquele espaço nunca descansasse de verdade. Os olhos de Amelia pararam numa foto emoldurada ao lado da mesa: os três sorrindo num raro feriado na praia. O braço de Adrian envolvia os ombros dela; os olhos dele eram mais suaves naquela época, o sorriso, sem esforço. Ela se lembrou de como ele tinha colocado Hazel nos ombros, rindo quando as ondas batiam nas pernas deles.
Os dedos dela roçaram a borda do porta-retrato.
— Pra onde foi aquele Adrian? — ela sussurrou.
O toque do celular a sobressaltou. Amelia se endireitou depressa, tirando o aparelho do bolso. Era Clara, sua amiga.
— Amelia! — a voz alegre de Clara explodiu do outro lado.
Amelia suspirou. E a amiga se perguntou se aquele suspiro era de cansaço ou de outra coisa.
— Bom dia, Clara — ela cumprimentou, cobrindo os olhos com os dedos da mão direita.
— Ei, calma. Você suspira toda vez que atende minhas ligações. O que foi agora? Ah, e feliz aniversário pro Adrian — ela acrescentou.
Um sorrisinho apareceu nos lábios de Amelia.
— Obrigada, minha linda. Como você tá? E o Leonard, e as crianças?
— Tá todo mundo bem, mas não foge da minha pergunta.
Ela suspirou de novo, sem dizer nada. Clara soltou o ar.
— Almoço hoje? Do jeito que você tá, parece que precisa de uma pausa.
Amelia hesitou. Clara a conhecia bem demais.
— Não dá, Clara. Ainda tem muita coisa pra resolver por aqui.
— Quer dizer que ainda tem muita coisa pra esperar o Adrian fazer — Clara provocou, já sabendo. Então o tom dela amaciou. — Vai, Amy. Você também precisa de um tempo pra você.
Amelia sorriu de leve, mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Talvez na semana que vem.
— Não — Clara disparou —, eu vou passar na boutique minutos antes do almoço. A gente vai almoçar hoje. Eu faço questão.
Amelia revirou os olhos.
— Ir pra boutique hoje não tava na minha agenda—
— Lá vem você de novo — Clara interrompeu. — Assim você vai vender como?
Amelia riu baixinho.
— Eu tenho uma gerente e três vendedoras circulando pela minha boutique, Clara.
— Dona CEO, aparece hoje. Quero te ver. E tem esse vestido da Versace que eu quero comprar também; quero que a gente olhe juntas.
— Tá bom, tá bom — ela cedeu. — Mas não prometo — acrescentou.
Depois de desligar, ela voltou pra cozinha e começou a adiantar o jantar. Às vezes parecia bobo, esse ritual de cozinhar refeições que Adrian quase nunca comia em casa, mas ela não conseguia parar. Cada vez que a faca batia na tábua de corte era uma esperança silenciosa de que, hoje à noite, talvez fosse diferente.
