Ser Amada pelos Três que Eu Temia

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Capítulo 5 Esdras

Ezra

Isso aqui tá uma puta bagunça.

A fumaça se espalha pela rua em ondas grossas e sufocantes, se enrolando em volta de carros capotados e fachadas de lojas estilhaçadas como se aquele cenário fosse o lugar dela. O vidro estala debaixo das minhas botas a cada passo. Em algum ponto atrás da gente, ainda tem alguma coisa queimando — plástico e gasolina se misturando com aquele outro cheiro. O que eu conheço bem demais.

Morte.

Corpos estão espalhados pelo asfalto como entulho. Humanos. Membros dobrados do jeito errado. Rostos congelados no meio de um grito. Eles nunca veem chegando. Nunca entendem o que está caçando eles.

Como diabos um Titã veio parar aqui?

Não foi um.

Três.

Titãs não entram em cidade por diversão. Eles não são desastres aleatórios. São caçadores. Aberrações cinzentas, de pele fria, que fedem a podridão e pedra molhada. Rostos lisos, sem olhos, sem nada além de cavidades vazias onde deveria haver visão. Bocas cheias de dentes irregulares e apodrecidos, que parecem esculpidos em osso. Eles são tudo o que há de errado neste mundo, moldado em músculo e fome.

E o nosso trabalho — o meu trabalho — é manter eles longe dos humanos.

Normalmente não é difícil. Humanos crescem numa ignorância feliz, acreditando que monstros são ficção, mitologia, histórias de ninar. A gente garante que continue assim.

Então como três deles foram parar bem no meio desta cidadezinha?

Por que causar tanta destruição?

E por que aquele diner?

Meus braços se apertam um pouco em volta da garota que eu estou carregando.

Ela não pesa quase nada. Tão leve que eu mal sinto, embora seja impossível ignorar o calor do sangue dela encharcando a minha camisa. Agora ela está completamente inconsciente, a cabeça apoiada no meu peito, a respiração rasa, mas constante.

Damien queria deixar ela lá.

Um risco, foi o que ele chamou. Um incômodo.

Talvez ele esteja certo.

Mas eu não consegui.

Ela estava caída naquele chão, quebrada e sangrando, o tornozelo torcido num ângulo impossível, os dedos arranhando o azulejo inutilmente enquanto aquele Titã se inclinava sobre ela como se estivesse estudando alguma coisa preciosa. Não devorando. Não despedaçando como fez com os outros.

Cheirando ela.

Quando eu alcancei ela, ela soltou o som mais fraco — meio gemido, meio protesto — quando eu a levantei. Agora ela está mole, com a luta drenada do corpo.

A perna dela ainda está sangrando, e a pressão improvisada que eu fiz já atravessou o tecido e encharcou tudo. Tem um corte na testa também, sangue seco na linha do cabelo. O cabelo loiro comprido dela está grudado e escuro em alguns pontos, embaraçado e manchado de vermelho. O rosto sardento ficou pálido por baixo da sujeira, os lábios sem a cor que tinham quando ela apareceu na nossa mesa.

Eu reparei nisso na hora.

Reparei nela.

Eu não acho humanos bonitos. Não geralmente. Eles são frágeis. Temporários. Macios de um jeito que não me interessa.

Mas ela?

Sim.

Ela é linda.

Um movimento corta a fumaça à nossa frente.

Damien não diminui. Eu também não.

Nós dois sabemos quem é.

Rowan surge da névoa como se fizesse parte dela, alto e largo, imponente, com movimentos fluidos apesar do tamanho. O focinho dele está manchado de escuro, sangue fresco ainda pingando do metal e do couro. O cheiro de icor de Titã gruda nele.

Ele sinaliza rápido.

Dois a menos.

As mãos dele mudam de posição.

Matei os outros.

Eu assinto uma vez, em confirmação.

Rowan olha para a garota nos meus braços, inclinando a cabeça de leve. Os dedos dele se movem.

Quem é ela?

Damien solta um grunhido baixo, irritado. “Um estorvo.”

Eu reviro os olhos. “O Titã na lanchonete não estava tentando comer ela”, eu digo. “Estava tentando chegar até ela. Ele se inclinou por cima dela. Ele—”

Damien me corta. “Ninguém ouviu nada. Pelo que a gente sabe, ele só estava enrolando com a última pessoa que tinha pra comer ali.”

“Ele agarrou ela”, eu retruco, mais áspero do que eu pretendia. “Ele arrastou ela pelo chão. Ele falou alguma coisa. Eu sei que falou.”

“De novo, isso não é possível.”

Eu não discuto essa parte. Eu não sei se é ou não é. Mas eu sei o que vi.

“Ela teria morrido se a gente tivesse deixado ela lá”, eu digo em vez disso, virando para Rowan como se isso explicasse por que eu estou carregando uma humana.

Damien para de andar.

Eu paro também.

Ele faz um gesto amplo para a rua ao nosso redor, para os corpos espalhados no asfalto, para a destruição engolindo a cidade inteira. “Morto”, ele diz, seco, apontando para um. Depois para outro. “Morto. Morto. Todos eles estão mortos, Ezra. Você não se importa com eles. Então por que se importar com ela?”

Eu não tenho resposta.

É isso que mais me irrita.

Eu olho de novo para o rosto dela, para a marquinha tênue entre as sobrancelhas mesmo desacordada, para o borrão de sangue na bochecha. Alguma coisa aperta no meu peito, alguma coisa que eu nem me dou ao trabalho de nomear.

“Ela é a única que ele não matou”, eu digo por fim. “Isso tem que significar alguma coisa.”

Damien solta o ar com força pelo nariz, mas não discute mais. Só se vira e continua andando.

Rowan acompanha nosso passo, silencioso como sempre. Ele aponta para a perna dela, os dedos disparando.

Ela tá sangrando.

“Eu sei”, eu digo. “A gente precisa parar logo. Eu vou enfaixar.”

Damien geme e chuta um pedaço de metal retorcido que estava no caminho. “É exatamente disso que a gente não precisa.”

Ele não está errado.

Três Titãs atravessando uma zona protegida já é catastrófico. Se espalhar a notícia de que a gente perdeu o controle desta cidade, os outros vão exigir respostas. Explicações. Cabeças.

E agora a gente está carregando uma humana desacordada no meio dos escombros como se ela fosse algo precioso.

Mais à frente, um prédio surge através da fumaça — janelas escuras, porta escancarada, nenhum movimento visível lá dentro.

Vazio.

Por enquanto.

“Aquele”, eu digo.

Nenhum de nós hesita.

A gente muda o rumo e vai na direção dele, o peso nos meus braços parecendo aumentar a cada passo — não por causa do tamanho dela, mas por causa do que isso pode significar.

Titãs não agem sem motivo.

E, esta noite, três deles vieram até aqui.

Por alguma coisa.

Ou por alguém.

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