Capítulo 4 Avery
Avery
Estou tremendo tanto que meus dentes batem um no outro.
Atrás do balcão, encolhida contra os armários, prendo a mão na minha coxa, apertando logo acima do caco de vidro cravado na minha perna. A dor é cegante — aguda, funda e quente. O sangue escorre por entre meus dedos, escorregadio e errado.
Tá. Tá.
Treinamento básico de primeiros socorros. Pressão. Fica calma. Não tira o objeto se ele estiver preso.
É isso que falam, né?
Se eu puxar, posso sangrar até morrer.
Mas eu já estou sangrando. Tem uma poça pequena se espalhando debaixo de mim, escura e brilhante contra o piso. Isso não pode ser bom. Isso é… isso é muito sangue. Eu não sou enfermeira nem nada, mas tenho quase certeza de que poças são ruins. Né? Né?
Minha respiração fica curta e rápida. Minha cabeça gira.
E então eu percebo—
Está quieto.
Quieto demais.
Sem gritos. Sem correria. Sem barulho de coisa quebrando.
A lanchonete está em silêncio.
Meu estômago despenca.
O que isso significa?
Ele foi embora?
Ou—
Bem devagar, eu levanto a cabeça e espio por cima da borda do balcão.
Meu sangue gela.
A poucos metros dali, a garota que reclamou do café está estirada de bruços no chão. Um braço está torcido por baixo do corpo. O cabelo se espalha pelo piso como uma cortina. Os olhos dela estão abertos.
Ela não se mexe.
A pele está pálida. Os dedos largados, abertos, contra o chão.
Ela está morta.
A constatação me acerta como um segundo impacto. A bílis sobe pela minha garganta, quente e ácida. Eu engulo de volta, por um triz, com o estômago se revirando violentamente.
Meu Deus.
Alguém morreu.
Na lanchonete.
Eu nem sei o nome dela.
Por um segundo doentio, eu quase fico aliviada por o Ricky ter corrido pra fora. Talvez ele esteja mais seguro lá fora do que estaria aqui dentro. Talvez ele nem tenha visto o que quer que tenha sido isso.
Eu não olho para os outros corpos.
Eu consigo ver formas no chão. Sapatos. Uma mão. Uma perna dobrada num ângulo que não parece certo.
Eu não olho.
Eu não consigo.
Eu me esforço pra ouvir qualquer coisa — movimento, respiração, outro grito. Nada.
Só silêncio.
Talvez ele tenha ido embora.
Talvez—
Eu engulo em seco e me obrigo a mexer. Minha perna berra em protesto quando eu me arrasto pra fora de trás do balcão. Ficar em pé não é uma opção. No instante em que eu tento colocar peso nela, um clarão branco explode atrás dos meus olhos. Então eu engatinho, as mãos escorregando em alguma coisa pegajosa que eu não quero pensar no que é, avançando centímetro por centímetro em direção à porta dos fundos.
Só sai daqui. Só vai embora.
Eu chego até a metade do caminho pelo salão.
Alguma coisa se fecha em volta do meu tornozelo.
Com força.
Eu nem tenho tempo de gritar antes de ser puxada pra trás. Minha cabeça bate no piso e estrelas explodem na minha visão, brilhantes e violentas.
Ótimo. Uma concussão. Por que não.
O aperto no meu tornozelo se fecha ainda mais, um torno de esmagar que parece osso rangendo contra osso. Dessa vez eu grito, agudo e cru, arranhando o chão enquanto sou arrastada de volta por cima dele.
Aí eu sinto.
Um hálito frio.
Nas minhas costas.
Subindo.
Até o meu pescoço.
Como se alguma coisa estivesse se inclinando sobre mim. Me cheirando.
O cheiro de cobre invade meu nariz — sangue, grosso e metálico. Meu estômago revira com violência e, se eu não estivesse a segundos de apagar, eu vomitava.
Eu tento rastejar pra frente, as unhas raspando em vão no piso, mas o que quer que esteja me segurando é forte demais. Sem esforço. Eu não sou nada pra aquilo.
E então—
Agudo. Estridente. Errado.
Um som bem do lado da minha orelha.
Eu juro — por entre o zunido dentro do meu crânio — que ouço alguma coisa distorcer o meu nome.
— Ave—
O aperto some.
O peso desaparece.
Um guincho rasga o ar, furioso e cortante, seguido de uma pancada enorme — como se alguma coisa gigante tivesse se chocado contra o chão.
Mas eu não consigo olhar.
Estou de bruços, a bochecha pressionada no piso gelado, sangue escorrendo sem parar da minha perna. Minha cabeça parece cheia de algodão. Minha visão pulsa, indo e voltando, como uma lâmpada morrendo.
Eu vou morrer aqui.
Vou acabar igual à garota do café. De bruços. Fria. Encontrada de manhã, com fita da polícia e estranhos balançando a cabeça.
Passam alguns minutos.
Ou segundos.
Eu não sei.
Tudo soa abafado, como se eu estivesse debaixo d’água. Vozes ecoam fracas. Movimento. O arrastar de alguma coisa pesada sendo puxada.
Eu tento abrir os olhos. Não consigo. Eles não obedecem.
A escuridão aperta nas bordas.
Então—
Uma voz.
Baixa. Rouca. Profunda o bastante pra vibrar nos meus ossos.
— Vamos dar o fora daqui.
Outra voz responde. Tão baixa quanto, mas mais lisa. Contida. Menos áspera, mais calculada.
— E ela?
Passos. Perto e depois mais perto. Uma pausa.
— E ela? — a primeira voz repete, agora mais fria.
— A gente não pode deixar ela aqui.
— Ela é só uma humana.
— Aquela coisa agarrou ela — diz a voz mais controlada. — Tenho quase certeza de que ainda falou alguma coisa pra ela.
— Isso não é possível.
Silêncio.
— Ela tá morrendo — a segunda voz continua. — Tá sangrando até esvaziar.
— E daí?
Mais um intervalo de silêncio. Pesado. De decisão.
— A gente não pode deixar ela — a voz mais suave diz, por fim. — Aquela coisa queria ela por algum motivo. Ela é a única que sobrou viva nessa lanchonete. A gente não pode deixar ela morrer aqui.
Um grunhido baixo.
— Tá — a primeira voz dispara, irritada. — Mas eu não vou carregar ela. E se ela der problema ou atrasar a gente, a gente acaba com ela. Já temos problema demais.
As palavras deles vêm e vão, escapando por entre os meus dedos como todo o resto.
Eu tento me mexer. Falar. Dizer que eu tô ouvindo. Não sai nada.
O mundo se dobra sobre si mesmo.
E então fica completamente escuro.
