Ser Amada pelos Três que Eu Temia

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Capítulo 3 Avery

Avery

A confusão lá fora some tão rápido quanto apareceu.

Por um instante, a lanchonete prende a respiração — garfos parados no meio do caminho até a boca, conversas se atropelando — e então o barulho volta ao seu zumbido de sempre, como se nada tivesse acontecido. Olho de novo para as janelas, mas a rua parece normal. Nada de fumaça, nada de luzes piscando, nada de metal retorcido. Só faróis passando e o brilho fraco dos postes.

Deve ter sido um carro subindo na calçada. Ou alguma obra, mesmo já passando das seis, e a cidade geralmente finge que tem regras pra esse tipo de coisa. De qualquer jeito, estou cansada demais pra me importar. Se o mundo estiver acabando, pelo menos pode esperar eu bater o ponto.

Deixo isso pra lá e vou até a cabine no canto, onde os dois homens estão sentados.

De perto, eu diminuo o passo sem querer.

Aí eu paro de vez.

Um suspiro pequeno e vergonhoso escapa antes que eu consiga engolir.

Os dois são… lindos. Não daquele jeito “mandíbula bonita, corte de cabelo bom”. Do jeito errado. Como se não pertencessem sob as luzes fluorescentes de uma lanchonete, com cardápios grudentos e frascos de ketchup que nunca ficam realmente limpos. Como se alguém tivesse pegado um mito e apertado até virar forma humana.

O da esquerda tem cabelo escuro que cai em ondas soltas sobre a testa, daquele tipo que parece nunca ter visto gel na vida e, mesmo assim, fica perfeito. Os olhos são tão escuros que nem parecem castanhos — parecem ônix, sem fundo, indecifráveis. Ele tem o corpo de quem passa o tempo livre levantando coisas que não deveriam ser levantadas; o peito e os braços estufam uma camiseta preta justa como se ela estivesse fazendo o melhor que pode e ainda assim perdendo.

O outro é o oposto dele, e de algum jeito isso o torna pior. O cabelo é branco-prateado, mais curto, com as pontas bem marcadas, como se ele mantivesse tudo sob controle e aparado. Os olhos também são claros, num tom gelado que me faz pensar em céu de inverno e no lado de dentro de uma lâmina. O maxilar é duro, linhas limpas e arrogância, e ele é tão musculoso quanto — ombros largos, antebraços grossos, um tipo de corpo que parece ter sido forjado pra violência.

Os dois têm a pele bronzeada, mas o de cabelo claro é coberto de tatuagens — cada centímetro de pele visível marcado, até as pontas dos dedos, subindo pelas mãos, pelos pulsos e pelo pescoço. Símbolos. Animais. Relíquias. Formas que parecem antigas e intencionais. Eu não reconheço nenhuma, mas alguma coisa em mim dá aquele engasgo desagradável de eu não devia estar vendo isso.

Engulo em seco e obrigo meu cérebro a voltar pro modo garçonete. Sorriso. Bloco. Caneta. Fingir que eu não acabei de parar de respirar.

“Oi”, eu consigo dizer, com a voz saindo um pouco leve demais. “O que vocês vão querer pra comer?”

O moreno me observa com uma curiosidade contida, como se estivesse decidindo se eu sou de verdade. Ele abaixa o cardápio devagar, abre a boca pra responder —

Um estrondo explode lá fora.

Esse não é distante. Não é uma batida ou um barulho qualquer. É uma pancada, um impacto violento que acerta o prédio como um soco. A lanchonete inteira estremece. As mesas pulam. O vidro tilinta e treme. Por um segundo, parece que o chão inclina sob os meus pés.

Eu cambaleio.

Antes que eu caia, uma mão se fecha ao redor do meu braço — firme, estável, forte demais pra ser casual. O moreno me segura como se esperasse por isso, como se já tivesse decidido que eu não ia bater no chão.

Eu puxo o ar, num susto, e ergo os olhos pra ele, com o coração disparado.

Ele não está olhando pra mim.

A cabeça dele se vira na direção da porta da frente, os olhos semicerrados, a expressão ficando lisa, fria. Em alerta. Predatória.

O homem de cabelo claro também se mexe, os ombros enrijecendo, a atenção grudando nas janelas como se ele estivesse ouvindo alguma coisa que eu não consigo ouvir.

Eu me viro, seguindo a direção do olhar deles — e meu estômago despenca.

Ricky já está se movendo.

Ele dispara em direção à entrada, se enfiando porta afora como um idiota, como se achasse que dá pra consertar seja lá o que estiver acontecendo lá fora com aqueles braços e pernas compridos e um pensamento positivo.

— Ricky…! — eu começo, mas minha voz é engolida pelo caos repentino.

Tem gente gritando na rua.

Não é um grito só. São dezenas. Uma onda contínua de terror que atravessa o vidro. Sombras passam correndo pelas janelas — pessoas correndo para todos os lados, tropeçando umas nas outras, rostos retorcidos de pânico.

Eu fico ali, paralisada, meu braço ainda preso na mão daquele estranho, meu cérebro se debatendo para achar uma explicação normal que faça aquilo fazer sentido.

Acidente de carro. Vazamento de gás. Briga. Qualquer coisa.

O homem de cabelo escuro me solta como se tivesse cansado de ser delicado. A voz dele corta o barulho que cresce, baixa, áspera e definitiva.

— Vai se esconder.

Eu pisco para ele, atônita.

— O quê… por quê?

Ele não responde. Já está se movendo. Ele se ergue até a altura total num único movimento fluido, e o homem de cabelo claro se levanta junto, saindo do boxe como se estivessem entrando num papel que já fizeram mil vezes.

Eu ainda estou encarando, confusa demais para fazer qualquer coisa, quando outra batida estoura — mais forte.

Dessa vez, não tem em que me segurar.

O mundo dá um solavanco e meus pés escorregam debaixo de mim. Eu caio de costas, o ar saindo limpo dos meus pulmões, as luzes do teto virando um borrão enquanto a lanchonete explode em gritaria. Cadeiras arrastam. Alguém derruba uma mesa. Pratos se estilhaçam. As pessoas avançam para o fundo como animais presos numa jaula.

Um som rasga tudo.

Um guincho.

Agudo e antinatural. Alto demais. Cortante demais. Como um pássaro — não, como alguma coisa tentando imitar um pássaro com a garganta errada. Como um bicho morrendo. Como uma criatura.

Minha pele esfria.

Que diabos está acontecendo?

Eu me arrasto, as palmas escorregando no piso, engatinhando, tentando chegar atrás do balcão, onde parece menor, mais seguro. Meu coração bate tão forte que eu sinto o gosto. O barulho ao meu redor é puro caos — choros, xingamentos, o som horrível de móveis raspando, o lamento do terror subindo cada vez mais.

Aí a porta da frente explode.

Não abre. Não quebra.

Explode — uma chuva de estilhaços de vidro e metal retorcido se espalhando pela lanchonete como estilhaço de granada.

Eu não tenho tempo de me abaixar direito antes que alguma coisa quente e afiada morda a minha perna. A dor estoura branca, imediata e nauseante. Eu grito, o som arrancado de mim, e minhas mãos se jogam por instinto sobre o ferimento, mesmo enquanto mais vidro cai.

Eu me arrasto os últimos metros e desabo atrás do balcão, as costas pressionadas contra os armários, o ar entrando em golfadas curtas e irregulares.

O guincho vem de novo.

Mais perto.

Tão perto que parece estar dentro do meu crânio.

Minha visão afunila. Minhas mãos tremem. Eu aperto uma palma sobre a boca para não soluçar alto, para não fazer um som que chame atenção, porque de repente eu sei — com a certeza crua do medo — que o que quer que tenha feito aquele barulho não está só lá fora.

Está aqui.

Na lanchonete.

E a dor na minha perna pulsa a cada batida do coração, enquanto o pânico me engole inteira.

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