Capítulo 9 09
Digão Narrando
Acordei com a porta do meu quarto sendo praticamente arrombada pelo VT. Ninguém nessa vida consegue me irritar mais do que ele, que loucura, mano.
— Levanta, porra, tá dormindo mais que mulher grávida, tá com anemia? — Ele fala indo até a janela e abrindo as cortinas.
— Na próxima vez que tu entrar no meu quarto assim, vou te dar um tiro na testa. — Falei indo em direção ao banheiro.
— Sem mau humor porque as notícias são boas. Os vapores disseram que chegou uma mina lá que possivelmente é amiga da patricinha e cheia de bolsas. Elas vão sair ou a mina foi despejada de casa.
— Muito bom, vai me passando tudo. Agora tu me mete o pé do meu quarto e, se possível, da minha casa, que tu agora tá proibido de entrar aqui.
— Vim aqui te dar notícias em primeira mão, não tomei nem café e é assim que você me trata? — Me olhou com cara de ofendido.
— Ameacei pegar a pistola e rapidinho esse corno meteu o pé.
Tomei um banho, botei cueca, camisa e bermuda e desci. Cheguei lá embaixo e a tia que cuida da casa e de mim estava aqui.
— Bom dia, Tia Sônia. — Dei um beijo na testa dela e sentei na mesa, só peguei uma xícara de café porque não costumo comer nada cedo, não desce.
— Bom dia, meu filho. Já fiz o café e organizei tudo, vou em casa e já volto para fazer o almoço.
— Não precisa se preocupar, fica tranquila. — Tomei o café e já levantei para ir para a boca.
— Precisa sim, não é bom ficar comendo sempre lanche e besteira. Um homem desse tamanho vivendo de lanche.
— A senhora tá certa, mas fica tranquila que eu me viro. — Dei um beijo na testa dela e saí indo em direção à moto e rumo à boca.
Manejei a cabeça para os seguranças e segui. Sou pouco papo, mano, quase não falo e não rendo assunto. Quanto menos papo, melhor. Odeio interagir.
Entrei na boca, fiz a contabilidade do fecho das cargas de ontem, o VT provavelmente já distribuiu as drogas e trocou o plantão. Agora vou ligar para meu fornecedor de armas que, inclusive, meu carregamento está atrasado.
Óbvio que o sequestro não vai ser aqui. Certeza que isso vai tampar de polícia e quero os meus soldados armados até os dentes. Vou levar a mina para uma fazenda no interior de Minas que meu coroa tinha, fui lá poucas vezes. Mas continuo cuidando de longe porque é uma memória boa com o meu pai.
Vou levar uns 30 soldados comigo, inclusive o VT. Mas terminando a ação ele volta para o morro e eu sigo para a fazenda.
Não posso deixar aqui sem uma chefia. O delegado vai botar o Rio de Janeiro para baixo e vai vir pesado, e nós vamos estar de igual para igual, não é segredo. Não vou fazer mal à mina nem nada do tipo. Não sou disso, não mexo com a família de ninguém porque família é sagrado. Mas preciso dar uma segurada nesse velho e, se essa é a minha única alternativa antes de matá-lo, não vou hesitar em fazer.É só ela se comportar e fazer o que estou mandando que no final vai dar bom pra geral.
Peguei o celular, liguei para o fornecedor de armas.
Ligação on…
— Fala, meu mano, cadê meu caminhão pesado que nunca chega?
— Vai chegar hoje logo depois do almoço. Atividade na barreira para não ter estresse, assim que seguir te aviso.
— Atividade aqui é posto. Já é, fé.
Continuei trabalhando, acendi um baseado e fui no VT passar a visão toda para ele. Até porque quem vai ficar de frente no morro é ele e não podemos dar bobeira, qualquer vacilo pode dar merda, então não quero erros.
Não costumo nem andar cheio de soldados, porque quantidade não é qualidade. Mas vou selecionar os melhores porque, como meu coroa dizia, prevenir é melhor que remediar.
Cheguei na sala dele e ele estava todo focado no caderno, trabalhando. Orgulho do chefe, hahaha.
Passei a visão do plano para ele e ele já disse que iria selecionar os soldados que iriam comigo e os que iriam voltar para o morro com ele. Mandei reforçar a barreira para não ter problemas.
Continuamos trabalhando na função do morro porque o crime não para, é viciado o tempo inteiro querendo drogas e nós abastecendo as bocas. Não temos gerente porque preferimos nós mesmos resolver tudo, até porque não se pode confiar em ninguém. É só tu dar o poder na mão de vagabundo que tu vê a ganância e a soberba tomar conta. Então tô fora. Quando fui ver a hora era quase 18h da noite e nem almoçar eu fui. Hoje vivi de água e baseado, vai achando que tá fácil ser traficante.
Passei na sala do VT e falei que vou para casa comer alguma parada e dar uma bargada, mas pra me passar o rádio qualquer parada.
Tô morrendo de fome, a barriga até tá fazendo eco.
