Capítulo 4 04
Digão Narrando
Fiquei praticamente o dia todo na boca resolvendo problema, deu nem tempo de ir em casa almoçar. Pedi pro Cerrote ir buscar uma quentinha pra mim lá na pensão da Dona Marluce. Amassei daqui da sala mesmo, nem eu sabia que estava com tanta fome. Fiquei resolvendo os pepinos e acredito que o VT também, porque até agora ele não veio aqui e eu agradeço muito. Porque ele me enche a porra do saco. Parei de mexer nas paradas, apertei um baseado e fiquei ali relaxando, ou pelo menos tentando relaxar, com a cabeça no filho da puta do delegado. Já tinha meu plano em mente, então queria colocá-lo em ação. Passei o rádio pro VT perguntando se ele ainda estava na sala dele e ele confirmou, então pedi pra que viesse aqui na minha sala.
— Fala, irmão, que saudade é essa… — Entrou praticamente arrombando minha porta, esse arrombado.
— Virou bagunça, né? Não bate mais na porta e quase arranca ela do lugar.
— Já vi que o mau humor não foi embora. Fuma mais que tá pouco.
— Vai se foder… Se liga: liga pro infiltrado na Civil e diz que eu quero saber tudo sobre a filha daquele delegado de merda. Tudo. Aonde ela faz faculdade, qual o playboy que ela namora, aonde ela frequenta, pra onde ela sai, tudooo. Quero ficha completa e quero pra agora. Não tô podendo esperar não.
— Já é. Vou em casa tomar banho que trabalhei igual um safado hoje e te passo tudo pelo celular. Fé e fui.
Peguei a chave da minha moto, apaguei o baseado e saí da sala trancando a porta. Subi na moto e meti o pé pra minha casa, com meus seguranças fazendo a escolta atrás. Hoje ninguém me tira de casa, só em casos extremos do tipo invasão. Fora isso, só vão me ver amanhã.
Cheguei em casa, tomei aquele banho de respeito. Peguei meu celular pra ver se o VT já tinha me mandado a parada e nada. Deve já tá enterrado em alguma buceta. Mandei mensagem no WhatsApp da pizzaria aqui no morro e pedi a de frango com cream cheese, que é a melhor, não tem jeito. Deitei no sofá, liguei a TV e fiquei esperando minha pizza chegar. Às vezes fico pensando que essa casa é enorme pra mim, mas eu não saberia morar em outra que não fosse essa. Gosto muito do meu conforto e de uma certa forma de luxo que essa casa tem. São frutos do meu trabalho e da minha correria, que não é pouca, e ainda tem gente que pensa que a vida do bandido é um morango. Vai vendo.
Não demorou muito e minha pizza chegou. Fui lá fora e o Chefin, meu segurança, já tinha pago e veio na minha direção entregar. Dei uma nota de duzentos reais pra ele e entrei. Amassei uns quatro pedaços de pizza e dois copos de coca-cola. Agora sim, estou com a barriga forrada. Subi pro meu quarto, sentei na sacada, apertei um baseado e fiquei marolando até chegar mensagem no celular. Fui olhar quem era: o VT me mandou tudo sobre a mina. Fiquei lendo e relendo tudo. A faculdade dela é na Zona Sul, ela faz Direito. Pelo menos não vai ser cana igual o otário do pai. Não vai ser tão difícil sequestrar essa mina. Já estou animado pra aterrorizar o delegado de merda. Mandei mensagem pro Vitinho avisando que quero dois dos nossos vapores na cola dela amanhã, me passando tudo em tempo real, porque se pá, amanhã mesmo a paz do velho acaba.
