Capítulo 9 A convocação para um banquete vazio
POV da Gen
Eu encarei a tela, o rosnado de alerta da minha loba vibrando no meu peito antes mesmo de eu conseguir entender, com clareza, a ameaça.
Eu devia deixar cair na caixa postal. Eu devia bloquear o número. Eu devia fazer qualquer coisa, menos o que eu realmente fiz: atender no quarto toque.
“Não me enche, a gente já—”
“Onde é que você está?” A voz dele cortou a linha, afiada e acusatória, atropelando minhas palavras como se ele ainda tivesse algum direito de exigir explicações de mim. “Você sabe que dia é hoje? Aniversário de cinco anos do seu filho, e a mãe dele está sabe-se lá onde, fazendo sabe-se lá o quê. Me diz, Genevieve, é isso que passa por instinto materno na sua família?”
Eu me sentei na cama, os lençóis baratos do hotel farfalhando ao meu redor, enquanto minha loba rosnava para a tentativa de domínio no tom dele. “Isso não é da sua conta, Dominic. A gente vai se divorciar.”
“Divorciar?” Ele riu, um som frio que fez minha pele se arrepiar. “Os papéis não foram assinados. Legalmente, você ainda é minha esposa. E, como minha esposa, você tem certas obrigações.”
“Eu não tenho obrigação nenhuma com você.”
“Na verdade, tem. Minha mãe vai à propriedade hoje à noite pro jantar de aniversário do Sebastian.” Ele fez uma pausa, deixando aquilo pesar. “Ela ainda não sabe do divórcio.”
Eu fechei os olhos, e o rosto de Constance veio à tona por trás das minhas pálpebras. Ela tinha sido gentil comigo uma vez, lá no começo, quando Dominic e eu nos casamos. Calorosa, acolhedora, me tratando como a filha que nunca teve. Mas isso foi antes do caso da minha mãe. Agora, ela só me olhava com desprezo e nojo.
“Deixa eu adivinhar”, eu disse, abrindo os olhos para encarar o teto sem graça do quarto de hotel. “O grande herdeiro Alfa da família Whitmore não consegue contar pra mãe que está botando a esposa pra fora como se fosse lixo?”
“Cuidado com o seu tom.” A voz dele desceu para aquele registro perigoso que eu conhecia bem demais. “Minha mãe é idosa. Eu não quero sobrecarregar ela com um estresse desnecessário.”
“Que consideração a sua.”
“Você vai voltar hoje à noite. Seis em ponto. Vai fazer o papel de esposa dedicada, mãe amorosa, nora perfeita. Vai sorrir, vai conversar, e não vai causar escândalo.”
Eu me endireitei, a raiva inundando meu corpo. “E se eu me recusar?”
“Então eu vou garantir que esses papéis de divórcio levem anos pra sair. Vou te arrastar por audiência atrás de audiência, depoimento atrás de depoimento. Quanto tempo você acha que as suas economias aguentam, Genevieve? Alguns meses? Seis, se tiver sorte?”
“Tá bom”, eu disse, e a palavra veio com gosto de cinza. “Uma noite.”
“Ótimo. Estou transferindo dinheiro agora pro presente do Sebastian. Compre algo apropriado. Nada barato, nada que envergonhe a família. E, Genevieve?” Ele fez uma pausa. “Não se atrase.”
Meu celular vibrou com a notificação de uma transferência. Afastei o aparelho do ouvido para olhar a tela.
US$ 100.000.
O valor ficou ali, escancarado e obsceno. Na descrição: presente de aniversário do Sebastian + transporte.
Levei o celular de volta ao ouvido. “Que generosidade.”
“Seis horas”, Dominic repetiu. “Não me decepcione.”
Eu pensei nos dez mil dólares da Isla, jogados em mim como migalhas para um cachorro. Isso só era diferente na escala — ainda era pagamento, ainda era transação, ainda era o Dominic tentando comprar a minha submissão.
“Claro, querido”, eu disse, despejando uma doçura melosa na voz que fez minha loba querer vomitar. “Eu vou ser a esposa perfeita. A mãe devotada. A nora obediente. Afinal, você ainda é meu amado marido, não é?”
O sarcasmo estava tão carregado que eu me surpreendi por ele não engasgar com aquilo do outro lado da linha, mas Dominic pareceu satisfeito com a minha ‘obediência’.
“Seis horas”, ele disse de novo, e desligou.
Eu fiquei olhando para o celular na minha mão, vendo a tela apagar. Aí eu joguei o aparelho na cama com força suficiente para ele quicar duas vezes antes de cair no meio dos lençóis amassados.
A loba explodiu dentro de mim, mas, dessa vez, não era só raiva e frustração — era algo mais afiado, mais calculista. Encostei as costas na cabeceira da cama, deixando um sorriso frio se espalhar pelo meu rosto enquanto um plano começava a tomar forma.
Na última semana, eu tinha flagrado meu marido com a amante num parque de diversões e assistido ao meu filho chamá-la de mãe. Naquela noite, bêbada e destruída, eu me joguei de um penhasco — e, de algum jeito, sobrevivi. Depois veio a exigência do divórcio, eu sendo expulsa sem nada. Eu finalmente tinha encontrado abrigo com Piper, só para ser obrigada a sair de novo por causa daquele senhorio desgraçado. E agora Dominic ainda tinha a audácia de me convocar de volta para bancar a família feliz na frente da mãe dele.
A loba queria sangue. Queria mudar de forma, caçar, despedaçar alguma coisa com os dentes. Em vez disso, eu a empurrei para baixo à força, canalizando aquela fúria para algo mais frio, mais cortante.
— Se você quer que eu faça um papel — eu sussurrei para o quarto vazio —, então você vai pagar por isso. Cada. Maldito. Centavo.
Peguei o celular e abri um app de corrida. Eu não ia voltar hoje à noite — que o Dominic explicasse sozinho a minha ausência para a mãe preciosa dele. Mas eu ia, sim, gastar o dinheiro dele antes; e, quando ele ligasse em pânico às seis e quinze perguntando onde diabos eu estava, eu teria a satisfação de saber que eu tinha feito ele se contorcer.
O centro comercial no coração de Oakhaven brilhava com um luxo polido do tipo que eu não me permitia nem pensar havia anos. Desci do carro em frente à Bellmont & Associates, uma boutique pela qual eu tinha passado centenas de vezes durante meu casamento, mas nunca tinha ousado entrar. Dominic controlava cada centavo, questionava cada compra. Até fazer compras no mercado exigia justificativa.
Hoje, não.
O porteiro segurou a porta, e eu entrei de cabeça erguida, com os cem mil dólares do Dominic queimando no meu saldo bancário.
— Bom dia, senhora. — Uma vendedora se aproximou, com um sorriso profissional, porém avaliador. Ela reparou na minha roupa amarrotada, no cabelo preso às pressas, nas olheiras profundas. Eu vi o cálculo mudar no olhar dela, decidindo se eu valia o tempo. — Como posso ajudar hoje?
— Eu preciso de um look completo — eu disse, com a voz firme. — Algo elegante, mas sem ostentação. Adequado para um jantar em família.
O sorriso dela esquentou um pouco.
— Claro. Pode me acompanhar?
Ela me conduziu pela boutique, separando peças com uma eficiência treinada. Uma blusa de seda num verde-esmeralda intenso que realçava os pontinhos verdes dos meus olhos azuis. Uma calça preta de alfaiataria que vestia como se tivesse sido feita para mim. Um blazer de cashmere em cinza-chumbo que conseguia ser, ao mesmo tempo, profissional e arrasador.
— Os provadores ficam logo aqui.
Eu experimentei tudo, me observando no espelho triplo. A mulher que me encarava era uma desconhecida — impecável, alinhada. Não a coisa quebrada que Dominic tinha descartado.
Só que eu não tinha a menor intenção de voltar. Aquele conjunto era para mim. Um lembrete de que eu ainda podia ser aquela mulher quando eu quisesse.
— Serviu tudo direitinho? — a vendedora apareceu atrás de mim, o reflexo dela se juntando ao meu.
— Perfeito.
— Ótimo. Quer dar uma olhada em acessórios?
Vinte minutos depois, eu tinha acrescentado um par de salto de couro italiano, uma bolsa estruturada e um par de brincos simples de ouro. O total deu pouco menos de oito mil dólares.
Passei o cartão sem piscar.
— Vai querer mais alguma coisa? — perguntou a vendedora, enquanto embrulhava minhas compras em papel de seda.
— Na verdade, sim. — Eu pensei na Piper, que tinha me dado um lugar para ficar quando eu não tinha mais para onde ir, que tinha ficado comigo durante ataques de pânico e recusas de emprego sem me julgar. — Eu gostaria de ver as joias de vocês.
