Roubada pelo Meu Verdadeiro Companheiro

Download <Roubada pelo Meu Verdadeiro Co...> grátis!

BAIXAR

Capítulo 7 Quando o ontem liga

POV da Gen

Dois dias tinham se passado desde que Ryker Sterling entrou no café da Piper e virou do avesso toda a minha compostura cuidadosamente construída.

Passei o pano na última mesa perto da janela, meus movimentos automáticos depois de três dias nessa rotina. O sol do fim da tarde entrava inclinado pelo vidro, aquecendo meus ombros.

— O tempo voa mesmo — murmurei para mim mesma. — Três dias e isso aqui já parece normal.

Normal. Que palavra estranha para uma vida construída sobre as ruínas de tudo o que eu conhecia.

— Ei. — Piper saiu do estoque, tirando o avental. — O tempo tá até decente, por milagre. Quer dar uma volta pelo campus?

Olhei para o relógio. Seis e quinze.

— Quero — eu disse. — Só deixa eu pegar minha jaqueta.


Dez minutos depois, a gente caminhava pela rua comercial familiar em direção ao Instituto de Tecnologia de Oakhaven. O ar de outono trazia um cheirinho de lenha queimada e de pão fresco vindo da padaria.

— Pera. — Piper segurou meu braço, me puxando para uma lojinha de conveniência. — Não dá pra fazer uma volta pelo campus direito sem beliscar alguma coisa.

O sininho tilintou quando entramos. Piper foi direto para a prateleira de doces, enquanto eu peguei um chá verde Arizona — a mesma marca da qual eu vivia durante as madrugadas de estudo.

— Meu Deus, ainda tem isso! — Piper apareceu segurando dois pacotes de Cheetos apimentado. — Lembra da semana de provas finais? Seus dedos ficavam laranja por dias.

— Quem comia era você. Eu vivia dizendo que isso fazia mal.

— E eu vivia dizendo que nutrição não importava quando você estava encarando uma prova de Finanças Corporativas. — Piper jogou os dois pacotes na cestinha. — Vai, por lembrança.

Pagamos e seguimos em direção ao campus, com a Piper já rasgando um dos pacotes. Ela me ofereceu e, depois de hesitar um instante, peguei um punhado.

— Meu Deus, isso continua nojento — eu disse, pegando mais um.

— E, mesmo assim, você continua comendo. — Piper deu uma esbarrada no meu ombro. — Tem coisas que nunca mudam.


Viramos para dentro do campus. Prédios de tijolo vermelho e caminhos ladeados por carvalhos se abriram diante de nós, tudo pintado em tons de dourado e âmbar pelo sol se pondo.

— Prédio 302 — disse Piper, apontando com a cabeça para o nosso antigo alojamento. — Lembra de ficar acordada até três da manhã discutindo economia comportamental?

Um sorriso de verdade puxou meus lábios.

— Você sempre dizia que era psicologia. Eu dizia que você estava simplificando demais.

— E você sempre estava certa, o que era irritante. — Piper entrelaçou o braço no meu. — Eram bons dias, né?

— Você passava metade do tempo em festa de fraternidade. Eu vivia dizendo que era perda de tempo.

— E eu vivia dizendo que fazer contatos valia tanto quanto nota de prova. — A voz da Piper tinha um quê de saudade. — No fim das contas, eu estava certa. Essas conexões “fúteis” são o motivo de o meu café ter clientes.

Passamos pela biblioteca, com as janelas acesas num brilho acolhedor. Eu tinha passado incontáveis horas ali dentro, convencida de que só o trabalho duro podia construir o futuro perfeito.

— Eu olhava para aquelas meninas da fraternidade e achava que elas estavam desperdiçando a faculdade — eu disse baixo. — Pelo visto, elas provavelmente terminaram mais felizes do que eu.


Caminhamos em silêncio até o Campo Mallory. Piper foi na frente, subindo as arquibancadas até um banco com vista para o gramado inteiro. Lá embaixo, estudantes faziam exercícios na grama.

— Eu achava que tinha tudo resolvido naquela época — eu disse. — Que, se eu me esforçasse o bastante, eu conseguia controlar a minha própria vida. — Eu ri. — Pelo visto, eu era absurdamente ingênua.

A mão da Piper encontrou a minha.

— Você não era ingênua. Você era otimista.

— Tem diferença?

— Uma diferença enorme. — Piper se virou para mim. — Você se formou em primeiro lugar da nossa turma grávida. Você teve seu bebê e mesmo assim terminou o último ano com honra. Você passou seis anos tentando salvar um casamento com um homem que nunca te mereceu. E agora você está recomeçando em vez de desistir. — Ela apertou minha mão. — Isso é coragem.

Minha garganta apertou. Eu baixei os olhos para as nossas mãos juntas, para o pozinho laranja do Cheetos nos nossos dedos.

"Eu só... estou processando", consegui dizer. "E você tem razão, eu tenho uma chance de recomeçar."


Piper examinou meu rosto e depois tirou o celular do bolso, deslizando o dedo pelo feed. A gente ficou em um silêncio confortável, dividindo o que restava do Cheetos enquanto o céu escurecia, do dourado para o roxo.

"Caralho", Piper sussurrou, sem ar.

Eu me virei e vi que ela estava encarando a tela.

"O quê?"

"O Consórcio Sterling acabou de anunciar uma expansão gigante para o mercado de imóveis de luxo." Ela inclinou o celular na minha direção.

A manchete saltava na tela: STERLING INVESTE US$ 5 BILHÕES EM IMÓVEIS DE LUXO, CEO PROMETE “REFORMULAR OS PADRÕES DO SETOR”

Logo abaixo, uma foto mostrava Ryker Sterling numa coletiva de imprensa da Bloomberg. Terno cinza-chumbo, expressão fria e controlada. Mas foi a cicatriz cortando a sobrancelha direita dele que prendeu minha atenção.

Com o dinheiro que ele tinha, dava para ter tirado aquilo. Então por que manter?

Minha loba se agitou, inquieta, soltando um ganido baixo.

Eu pressionei a mão contra o esterno, tentando fazê-la se acalmar.

"O negócio principal da Sterling sempre foi investimento financeiro e tecnologia", Piper disse. "Eles nunca mexeram com mercado imobiliário antes."

"Então estão diversificando. Estratégia corporativa normal."

"Só que a Whitmore Development vive de imóveis de luxo." Os olhos de Piper brilharam. "A Sterling acabou de declarar guerra à principal fonte de renda do seu ex-marido. E o timing está conveniente demais."

Um riso escapou de mim. "Você acha que o Ryker Sterling vai lançar uma expansão de bilhões só por vingança de uma mulher que ele mal conhece? Isso é ridículo."

"É mesmo? Ele apareceu no meu café atrás de você. Salvou o número dele no seu celular. E agora, três dias depois de você largar o Dominic, a Sterling do nada começa a competir direto com a Whitmore Development?"

Peguei o celular, analisando a foto. A expressão do Ryker estava controlada, mas havia alguma coisa nos olhos dele — satisfação.

"Mesmo que isso fosse verdade, eu não sou importante o bastante para o herdeiro de um Alfa travar uma guerra corporativa por minha causa."

"E se ele estiver interessado em você? Romanticamente?"

A ideia era absurda. Mas aí eu olhei de novo para a cicatriz, e minha loba ganidou mais alto.

"Eu não conheço ele", eu disse, firme. "O que quer que você esteja imaginando, não é real."

"Tá, mas hipoteticamente. Se a Sterling realmente estiver indo pra cima da Whitmore Development..."

Olhei para o campo, que ia escurecendo. A ideia de o Dominic enfrentar consequências de verdade acendeu alguma coisa perigosa no meu peito.

"Não seria a pior coisa do mundo", admiti, baixinho. "Aquele desgraçado merece aprender uma lição."

Minha loba ronronou, concordando.

Piper sorriu. "Aí está a minha Gen. Eu já estava começando a achar que você tinha perdido a coragem."

"Eu não perdi nada. Só estou me reorganizando. Recuo estratégico antes do contra-ataque."


Voltamos caminhando pelo campus enquanto o sol sumia atrás do horizonte e os postes iam acendendo, um a um. Estudantes passavam apressados, indo para a biblioteca ou para os alojamentos.

Eu invejava eles. Meu Deus, como eu invejava.

"Sabe do que eu sinto mais falta na faculdade?", Piper disse. "Daquele sentimento de que ainda dava pra tudo."

"A gente era tão confiante. Tão certa de que sabia exatamente como a nossa vida ia ser."

"Você, então, nem se fala. Eu ainda lembro do seu plano de cinco anos. Goldman Sachs, vice-presidente antes dos trinta."

"Nem me lembra. Aquele plano morreu no dia em que eu me casei com o Dominic."

"Talvez só tenha atrasado. Você só tem vinte e seis, Gen. Ainda dá tempo."

O prédio do apartamento apareceu à frente, a fachada de tijolos iluminada pelos postes.

"Obrigada por isso", eu disse quando a gente se aproximou. "A caminhada. Os salgadinhos horríveis. Eu precisava—"

Eu parei de repente.

"Gen? O que foi?"

Eu não respondi. Meu nariz pegou alguma coisa no vento — fumaça de cigarro, perfume barato e, por baixo, um cheiro que fez minha loba rosnar, mostrando os dentes.

Uma figura se desprendeu das sombras perto da entrada. Meia-idade, acima do peso, cabelo ralo, um cigarro pendurado nos lábios. Um terno amassado que provavelmente já tinha sido caro um dia.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo