Capítulo 5 O estranho que sabe meu nome
POV da Gen
— Por aqui... isso, aí mesmo!
Orientei os três garotos de moletom com o logo do OIT enquanto eles tiravam minhas malas surradas do Honda da Piper. O sol da manhã parecia uma acusação batendo na minha pele, mas eu me obriguei a focar na tarefa simples de colocar minha bagagem no lugar certo na calçada.
Sete da manhã, e o campus já fervilhava com uma energia que eu tinha esquecido que existia — estudantes correndo para as aulas cedo, copos de café na mão, mochilas penduradas nos ombros.
O mais alto deixou a mala maior exatamente onde eu tinha apontado. Um chaveiro do departamento de Finanças balançava preso na mochila dele, o emblema douradinho pegando a luz. Eu encarei aquilo, lembrando de quando eu usava um igual, de quando eu andava por essas ruas acreditando que o mundo era meu.
— Muito obrigada mesmo — eu consegui dizer, com a voz áspera da noite sem dormir.
Na noite passada, eu tinha ligado para a Piper às duas da manhã, parada numa esquina com minhas malas, rolando a lista de contatos e percebendo que ela era a única pessoa nesta cidade inteira para quem eu podia pedir ajuda.
O telefone tocou três vezes antes de ela atender.
— Gen? O que aconteceu?
— Eu preciso de um lugar pra ficar. Só por alguns dias. Eu posso pagar, eu só...
— Onde você está? — a Piper me cortou. — Não sai daí. Eu tô indo te buscar.
Ela apareceu vinte minutos depois, no Honda Civic velho e batido, olhou uma vez só pra minha cara e me puxou pra um abraço que fez as minhas muralhas, tão bem construídas, começarem a rachar.
— Bem-vinda de volta — ela disse, e eu chorei no ombro dela enquanto ela me levava para o apartamento perto do campus.
Hoje de manhã, ela tinha dado um jeito de trazer esses garotos pra me ajudar a subir as coisas direito.
Eles carregaram minhas malas em direção à entrada do prédio, rindo com uma facilidade que fez alguma coisa se contorcer no meu peito.
— Sério, deixa eu pagar um café da manhã pra vocês, qualquer coisa — eu falei quando eles deixaram as malas do lado de fora da porta da Piper.
O mais alto fez um gesto de “deixa pra lá”, sorrindo.
— Não precisa, de verdade. A Piper dá desconto pra gente o tempo todo no café dela. Ajudar não é nada.
Eles voltaram trotando em direção ao campus, e eu fiquei ali no saguão silencioso, encarando meu reflexo no vidro da porta. A mulher que me encarava de volta tinha olheiras fundas e um cabelo pedindo lavagem.
Meu celular vibrou. Mensagem do banco confirmando meu saldo: US$ 17.621,82. Dez mil da “generosidade” insultante da Isla, e os outros sete mil e pouco eram, de fato, meus.
Seis anos de casamento, e era isso que eu tinha pra mostrar.
Depois de levar as malas pra cima, eu parei do lado de fora da porta do apartamento da Piper, com a chave que ela tinha me dado ontem à noite pesando na minha palma. O apartamento era pequeno — um quarto, um banheiro, uma sala que também servia de escritório pra Piper. Livros antigos enchiam as prateleiras, e cerâmicas artesanais se espalhavam pelos peitoris das janelas.
Coloquei as malas no canto e fui até a janela. Dali, eu via o Moonstone Café, logo ali na rua, onde a Piper já devia estar começando o corre da manhã. Ela se movia com uma eficiência treinada, tirando espresso, vaporizando leite, conversando com os clientes como se tivesse todo o tempo do mundo.
Diploma em Finanças no OIT, a melhor da turma, disputada por três empresas diferentes antes mesmo de se formar. E ela tinha recusado tudo pra abrir uma cafeteria.
— Você é maluca — eu tinha dito quando ela anunciou os planos pela primeira vez. — Você podia estar ganhando uma fortuna agora.
— E ser infeliz como todo mundo naqueles prédios de vidro? — a Piper tinha rido. — Tô fora. Prefiro fazer um café decente e gostar da minha vida.
Eu tinha achado que ela estava desperdiçando o potencial. Agora eu me perguntava se, no fim das contas, a esperta sempre tinha sido ela.
Às dez da manhã, eu não aguentei mais ficar no apartamento. Troquei de roupa — camiseta branca e jeans — prendi o cabelo e desci até a cafeteria.
A Piper estava no meio do movimento. Ela levantou os olhos quando eu apareci atrás do balcão.
— O que você tá fazendo aqui? Você tinha que estar descansando.
“Eu posso ajudar.” Peguei um avental e amarrei na cintura. “Não vou ficar lá em cima com pena de mim mesma enquanto você trabalha.”
Piper me analisou por um instante e então assentiu. “Tá. Mas, se você ficar tonta, para na hora. Combinado?”
“Combinado.”
O trabalho era mecânico de um jeito quase reconfortante. Levar o latte para a mesa três. Tirar os pratos da mesa sete. Repor a vitrine de doces.
O café estava cheio de alunos da OIT, com os notebooks abertos, e as conversas deles passando por cima de mim como um ruído constante. Falavam de modelagem financeira e análise de mercado, de entrevistas para estágio e competições de cases.
Um grupo perto da janela discutia estratégias de diversificação de portfólio. Eu tinha escrito um trabalho exatamente sobre isso no último ano. O professor Chen tinha dito que era uma das melhores análises que ele já tinha visto.
“Gen.” A voz da Piper cortou a lembrança. “Pausa pro almoço. Vem comer.”
O movimento do almoço tinha diminuído. Piper levou dois pratos até uma mesa perto da janela e fez um gesto para eu sentar.
“Então”, ela disse, empurrando um sanduíche na minha direção. “Qual é o plano?”
Fiquei beliscando o pão. “Arrumar um emprego. Arrumar um apartamento. Descobrir como sobreviver com dez mil dólares.”
“Dez mil?” As sobrancelhas da Piper se ergueram. “Foi só isso que o Dominic te deu?”
“Quem me deu foi a Isla.” As palavras tinham um gosto amargo. “Da conta pessoal dela. Disse que era um agradecimento pelas minhas contribuições passadas.”
O rosto da Piper ficou vermelho. “Aquela manipuladorazinha— Eu devia ir agora mesmo até a Whitmore Estate e acabar com ela.”
“Não.” Segurei o pulso dela. “Não vale a pena. Ela está exatamente onde quer estar.”
“Então você vai deixar ela ganhar?”
“Eu vou ficar forte o bastante pra revidar do jeito certo.” Sustentei o olhar da Piper. “Mas, agora, eu preciso focar em sobreviver. Um dia de cada vez.”
Piper apertou minha mão. “Você vai passar por isso. E eu vou ajudar no que eu puder.”
A tarde se arrastou. Eu limpei as mesas, reabasteci os porta-guardanapos e tentei não pensar no Sebastian chamando a Isla de “mamãe”, nem na mão do Dominic, suave no ombro dela.
Às três da tarde, a campainha da porta soou.
Eu estava na máquina de espresso, de costas para a entrada, mas senti a mudança no ar na mesma hora. Minha loba ficou imóvel, a atenção dela se voltando para a porta com um foco predatório.
O cheiro me atingiu. Pinheiro e ar frio de montanha, com uma camada por baixo de algo escuro e selvagem que fez meu pulso disparar.
Eu me virei.
O homem na porta era tão alto que precisou abaixar um pouco a cabeça para passar, e os ombros eram largos o suficiente para preencher o batente. Vestia um terno Tom Ford cinza-chumbo. O cabelo escuro estava penteado para trás, afastado de um rosto feito só de ângulos marcados—maçãs do rosto altas, maxilar forte, um nariz que parecia já ter sido quebrado. Uma cicatriz fina cortava a sobrancelha direita.
Ele tirou os óculos escuros, e eu me peguei encarando olhos da cor de nuvens de tempestade.
Aqueles olhos se fixaram em mim com uma intensidade que fez minha respiração travar.
Piper estava na salinha dos fundos. O café estava quase vazio. Era só eu e esse estranho, cujo cheiro fazia minha loba andar de um lado pro outro, inquieta.
Eu me obriguei a ir até o balcão. “Oi. O que você vai querer?”
“Um Americano.” A voz dele era baixa, áspera nas bordas. “Puro. Sem açúcar.”
Assenti e me virei para a máquina de espresso, consciente demais da presença dele atrás de mim. Minhas mãos tremeram um pouco quando eu moí os grãos.
Quando o copo ficou pronto, levei até onde ele tinha se acomodado numa mesa perto da janela. Ele tinha escolhido o lugar com a melhor visão da rua, as costas apoiadas na parede.
“Seu Americano”, eu disse, colocando o copo na mesa.
Ele não estendeu a mão para pegar. Em vez disso, ergueu o olhar para mim, e eu vi alguma coisa tremeluzir naqueles olhos cinzentos.
“Você saiu do hospital ontem sem dizer uma palavra.” Não era uma pergunta. A voz dele carregava uma desaprovação que fez minha coluna enrijecer. “O médico disse que você precisava ficar em observação.”
