Capítulo 4 O preço da dignidade
POV da Gen
Dominic pousou o copo de bourbon com um cuidado calculado.
— Termos? — o cheiro dele ficou mais cortante: fumaça de charuto caro misturada com irritação. — Do que, exatamente, você acha que tem direito?
— Metade de tudo o que a gente construiu junto. A empresa. Os imóveis. Os investimentos. — Mantive a voz firme, mesmo com o ardor subindo atrás dos meus olhos, o dourado vazando para a minha visão periférica. — Seis anos atrás, quando a Whitmore Development estava a três meses da falência, quem reestruturou toda a carteira de investimentos?
— Então é disso que se trata. — A risada de Dominic saiu áspera. — Você estava planejando isso o tempo todo. Se infiltrando na minha empresa, se tornando indispensável, pra poder pegar metade quando resolvesse ir embora.
— Eu não resolvi ir embora. Você está me expulsando.
— Porque não dá pra confiar em você. — Ele veio na minha direção, e o ar entre nós ficou pesado, carregado de dominância competindo. — Os membros do conselho ouvem mais você do que a mim. Você vem minando a minha autoridade desde o começo, não vem?
Minhas unhas afundaram nas palmas das mãos, forte o bastante para tirar sangue.
— Eu passei seis anos provando minha lealdade a você. Seis anos colocando as suas necessidades acima das minhas, criando o nosso filho, construindo o seu império. — Minha voz falhou. — E você ainda me vê como inimiga.
Porque ele é fraco, cuspiu minha loba. Lobos fracos sempre têm medo de quem é mais forte.
— Então me processe. Contrate advogados. Lute pelos seus bens preciosos. — A voz dele desceu para algo gelado. — Vamos ver como isso vai acabar pra você.
Encarei Dominic e, por um instante, ficamos presos numa batalha de vontades. O dourado tomou minha visão por completo, e eu vi o lampejo correspondente no olhar dele antes de ele desviar primeiro.
— Ótimo. Vamos fazer do jeito legal. Eu vou pegar metade de tudo que é meu por direito.
Dominic deu mais um passo, se aproximando.
— A empresa é minha. — Cada palavra saiu precisa, cortante. — As casas são minhas. Os carros são meus. — Ele fez uma pausa. — Você é minha. Então me diz, Genevieve, o que exatamente te dá o direito de exigir qualquer coisa de mim?
Mata ele, uivou minha loba. Que desgraçado!
Dei um passo para trás, as mãos tremendo com o esforço de manter minha loba enjaulada.
— Quer bens? — O sorriso de Dominic foi cruel. — Vai falar com meus advogados. Tenho certeza de que eles vão ser bem solícitos.
Ele se virou e foi em direção às escadas. Eu fiquei ali, cercada pelos móveis que eu tinha escolhido e pelas obras de arte que eu mesma tinha selecionado, e senti o último pedaço do meu coração virar gelo.
Ele vai se arrepender, prometeu minha loba.
Seis anos atrás, Dominic tinha ficado sentado à mesa dele por três dias seguidos, encarando relatórios financeiros que anunciavam o fim de tudo o que a família dele havia construído. Eu comecei a mandar comida pro escritório. Virei noites analisando cada arquivo, cada investimento, cada contrato.
Eu me lembrei do quarto do hospital depois que Sebastian nasceu. Dominic estava no escritório. Eu segurei nosso filho recém-nascido e chorei por horas — não de dor, mas pela percepção de que eu sempre ficaria em segundo lugar.
Ele tinha me prometido que ia melhorar quando a empresa se estabilizasse.
Eu acreditei.
— Genevieve.
A voz de Dominic atravessou a lembrança. Levantei o olhar e vi Dominic parado no meio da escada.
— Você tem três dias pra sair desta casa. Três dias pra arrumar o que você quiser e ir embora. Depois disso, se você ainda estiver aqui, eu mando te tirarem.
Eu encarei Dominic, lutando contra a vontade de me transformar.
— Três dias?
“Três dias pra você sair daqui com a sua dignidade ainda inteira.” A expressão dele não mudou. “Afinal, se isso virar uma coisa maior, não vai ser bom pra nenhum de nós.”
“Eu te dei seis anos da minha vida.” Minha voz mal passava de um sussurro, mas deixei um rosnado sutil entrar nela. “Eu te dei tudo o que eu tinha.”
“E essa foi uma escolha sua.” A resposta de Dominic foi seca. “Ninguém te obrigou a fazer nada.”
Um barulho na escada fez nós dois levantarmos o olhar. Isla estava descendo, o celular na mão, com aquela expressão perfeita de preocupação estampada no rosto.
“Amor, isso não é justo com a Madam.” A preocupação na voz dela soou ensaiada. “Ela contribuiu, sim, pro sucesso da empresa, mesmo que os métodos dela às vezes fossem… questionáveis.”
Minha loba avançou dentro de mim, e eu senti meus olhos faiscarem dourado.
Isla chegou ao último degrau, parando bem atrás de Dominic. “Eu sei que a gente teve nossas diferenças, mas eu não consigo ficar parada vendo você ser tratada de forma injusta. Como um gesto de boa vontade, eu queria te oferecer alguma coisa da minha conta pessoal.”
Meu celular vibrou.
Transferência de Isla Hawthorne: US$ 10.000
Mensagem: Obrigada pelas suas contribuições passadas para a empresa.
Dez mil dólares. Um insulto embrulhado em falsa generosidade.
Eu encarei a tela até o dourado tomar completamente a minha visão, até meu cheiro mudar pra alguma coisa selvagem e perigosa. As pupilas de Isla se dilataram um pouco — a consciência de que ela tinha passado do limite.
Mostra pra ela, exigiu minha loba. Agora.
Sebastian estava lá em cima. Eu não precisava mais me segurar.
Minha loba empurrou força pros meus músculos, e eu me mexi com a velocidade de anos reprimindo o que eu realmente era. Eu passei por Dominic num disparo, antes que ele conseguisse reagir, e com três passos já estava na sala de jantar. Minha mão fechou em volta da tigela de cerâmica.
Eu me virei de volta pra encarar os dois, deixando Isla ver todo o ouro dos meus olhos.
“A sua generosidade é uma coisa que eu não preciso.”
Eu joguei a sopa nela.
Dominic se moveu mais rápido do que eu já tinha visto. Ele puxou Isla pra trás dele, protegendo-a com o próprio corpo. A sopa espirrou na camisa dele e na parede. A tigela se espatifou, cacos de cerâmica azul se espalhando pelo mármore caro.
“Chega!” A mão de Dominic se fechou em volta do meu pulso, com força suficiente pra eu sentir os ossos rangendo. Os olhos dele ficaram totalmente dourados. “Acabou. Terminado. O que quer que a gente tenha tido, acabou.”
Ele me soltou com um empurrão que me fez tropeçar pra trás. Eu me apoiei na ponta de uma cadeira, respirando com dificuldade.
Dominic virou as costas pra mim e conferiu Isla com uma ternura que ele nunca tinha me dado. “Você tá bem? Pegou em você?”
“Eu tô bem.” Os olhos de Isla estavam vermelhos. “A Madam deve estar muito abalada. Eu não devia ter oferecido o dinheiro.”
A voz de Dominic era gelo, a autoridade de Alfa costurada em cada palavra. “Você tinha três dias. Agora você tem até o amanhecer. Junta o que você precisar e sai da minha casa. Se você ainda estiver aqui quando o sol nascer, eu mando te arrastarem pra fora.”
Minha loba se ergueu pra enfrentar a ordem dele, se recusando a se submeter.
Ele fez uma pausa, a mão ainda no ombro de Isla. “E não me testa com isso, Genevieve. Você não vai gostar do que acontece se testar.”
Eu vi ele guiar Isla de volta pras escadas.
“Tá bom.” Minha voz saiu estranha, áspera com o rosnado que eu não consegui segurar. “Eu vou ter ido embora antes do amanhecer.”
Dominic não olhou pra trás.
“Mas as nossas contas não estão acertadas, Dominic.” Minha voz foi baixa, mas a fúria da minha loba fez ela se impor. “Nem de longe.”
