Roubada pelo Meu Verdadeiro Companheiro

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Capítulo 3 O cuco no ninho

POV da Gen

Meus dedos ficaram brancos de tanto apertar a borda da pasta. O papel era liso demais, oficial demais, como se tivesse sido preparado semanas atrás e só estivesse esperando o momento certo para destruir o que restava da minha vida.

Isla estava alguns degraus abaixo de mim, olhando para cima com aquela expressão perfeita de simpatia profissional.

— O Alfa espera que você assine rápido. Vai ser mais fácil para todo mundo.

Abri a pasta. As palavras se embaralharam no começo e depois ganharam nitidez. Petição de Dissolução de Casamento. Meu nome. O nome do Dominic. Uma lista de bens que, de algum jeito, incluía tudo o que a gente tinha construído junto, mas não deixava nada para mim.

— Leia com calma — disse ela, num tom que dava a entender que ela esperava que eu assinasse na hora. — Mas tenho certeza de que você vai ver que está tudo bem justo. Os advogados do Alfa foram bem minuciosos.

Justo. A palavra tinha gosto de veneno.

Eu olhei para ela. Isla ainda sorria, mas tinha algo nos olhos dela que fez minha visão embaçar nas bordas. Um calor pinicou atrás das minhas íris, e eu sabia, sem precisar olhar, que o dourado estava invadindo o violeta dos meus olhos. Minha loba se mexeu sob a minha pele, inquieta e furiosa.

Arranca a garganta dela, ela rosnou na minha mente. Ela tomou o que é nosso. Faz ela sangrar.

Agora não. Não com o Sebastian por perto. Eu pisquei com força, empurrando o dourado de volta, obrigando minha loba a se submeter, mesmo com as mãos tremendo.

— É isso que o Alfa quer. — Isla deu um passinho para trás, mas manteve aquele sorriso sereno. — Eu só estou trazendo o recado. Você entende.

Minhas unhas cravaram nas palmas com tanta força que eu senti a pele se romper. A dor aguda me ajudou a focar, me ajudou a esmagar a raiva que crescia no meu peito. Minha loba choramingou, frustrada, arranhando as bordas do meu controle.

Os olhos de Isla baixaram para minha mão por um instante, tempo suficiente para ver o sangue começando a brotar entre os meus dedos. O sorriso dela se abriu um pouco mais, e eu captei o menor traço de satisfação no cheiro dela — baunilha doce com um fundo de presunção.

— Eu sei que isso deve ser difícil para você. Mas eu prometo que vou cuidar do Sebastian. — Ela fez uma pausa. — Como se ele fosse meu próprio filho.

As palavras me atingiram como um golpe. Minha loba avançou, e por um segundo aterrorizante eu senti meus caninos afiarem, senti a mudança começando a ondular na minha mandíbula. Eu cerrei os dentes com tanta força que senti gosto de sangue, empurrando a transformação de volta.

Mata ela, minha loba exigiu. Ela está roubando o nosso filhote. Rasga ela no meio.

Eu não posso. O Sebastian está aqui. Ele veria.

Minha garganta se fechou. Tudo o que eu consegui fazer foi ficar ali, enquanto minhas unhas afundavam ainda mais na carne, usando a dor como âncora, como jaula para manter a loba presa.

— Bom. — Isla se virou para descer os últimos degraus. — Eu preciso voltar pro jantar. O Sebastian deve estar com fome. — Ela parou, desviando o olhar do meu em direção à sala de jantar. — Amor, a gente tem que comer. A comida está esfriando.

Eu vi Isla voltar para a sala de jantar, vi ela se acomodar na cadeira na cabeceira da mesa como se pertencesse àquele lugar, vi meu filho encostar o ombro no dela enquanto ela servia sopa para ele. Minha loba andava de um lado para o outro dentro de mim, agitada; a raiva dela fazia minha pele parecer apertada demais.

Eu devia ter subido. Devia ter me refugiado no quarto de hóspedes e deixado eles com o jantar de família perfeito. Mas minhas pernas pareciam cheias de chumbo, se recusando a me tirar daquela cena. Eu não conseguia parar de olhar, não conseguia desviar os olhos do quadro lá embaixo, mesmo que cada segundo parecesse mais uma faca entrando entre as minhas costelas.

Fiquei ali na escada, agarrando os papéis do divórcio com uma mão, enquanto o sangue pingava devagar da outra, marcando pequenos pontos escuros na pasta cor de creme.

A cena abaixo parecia coisa de revista. A iluminação quente. Os pratos cuidadosamente arrumados. A mulher e a criança sorrindo uma para a outra durante o jantar.

Eu parecia a intrusa.

Isla encheu a tigela do Sebastian com movimentos suaves. Ela tinha aprendido qual era a tigela favorita dele, a azul com barquinhos. Ela sabia que a sopa estava quente, então soprou de leve antes de colocar a tigela na frente dele.

"Com cuidado, ainda está quente." Ela enfiou um guardanapo na gola da camisa dele.

Sebastian ergueu os olhos para ela, com uma adoração pura. "Você faz a melhor sopa do mundo, mamãe."

A palavra me atravessou como uma lâmina. Mamãe. Não o “Mãe” cauteloso e distante que ele tinha começado a usar comigo, mas o nome quente e carinhoso que eu esperava havia anos ouvir ele dizer de novo, naturalmente.

Minha loba uivou dentro de mim, um som de uma dor tão crua que meus joelhos quase cederam. Nosso filhote. Ela roubou o nosso filhote.

Eu queria descer aquelas escadas. Queria me sentar à minha própria mesa e jantar com o meu próprio filho. Mas o jeito como ele tinha olhado para mim mais cedo, aquele nojo frio nos olhos de uma criança de cinco anos, me manteve pregada no lugar.

A porta da frente se abriu com um clique pesado que ecoou pelo hall. Eu nem precisei olhar para saber que era o Dominic. Eu tinha decorado aquele som ao longo de seis anos de casamento.

"Papai!" Sebastian se jogou para fora da cadeira e correu em direção à entrada.

Ouvi a risada grave de Dominic, o som dele pegando Sebastian no colo. "E aí, campeão. Você se comportou hoje?"

Isla se levantou, alisando o avental. "Bem-vindo de volta, amor. Eu fiz o seu prato favorito. Bife com aquele molho de pimenta que você adora."

Amor. Ela chamou ele de amor na minha casa, na frente do meu filho.

Eu observei do meu lugar na escada quando Dominic entrou no meu campo de visão, com Sebastian apoiado no quadril. Ele parecia cansado, mas relaxado de um jeito que eu não via havia meses. Quando viu Isla esperando por ele, a expressão dele amoleceu, quase terna.

Então as narinas dele se dilataram de leve. Ele virou a cabeça, e os olhos dele me encontraram na escada. Eu vi o instante exato em que ele sentiu o cheiro de sangue — metálico, como cobre no ar. O olhar dele desceu para a minha mão, para as manchas vermelhas se espalhando pela pasta, e algo atravessou o rosto dele. Não preocupação. Não ansiedade. Só um lampejo rápido de irritação, como se eu fosse um problema que ele teria de resolver mais tarde.

O calor sumiu da expressão dele. O cheiro dele mudou — o cedro quente que eu um dia amei agora vinha com notas de repulsa.

Minha loba rosnou. Ele nunca olhou pra gente desse jeito.

Sebastian se inclinou até a orelha dele e sussurrou, mas nem de longe baixo o suficiente. "Papai, aquela mulher malvada empurrou a mamãe."

Os olhos de Dominic continuaram presos nos meus. "É mesmo?"

"Sebastian, isso não é justo." A voz de Isla trouxe a medida exata de preocupação. "A madame só esbarrou em mim sem querer. Estava apertado na escada."

Eu não tinha encostado nela. Nós duas sabíamos disso.

"Talvez eu deva levar o Sebastian lá pra cima." Isla estendeu a mão para ele. "Pra vocês dois conversarem em particular."

Dominic entregou Sebastian sem dizer nada. Isla o carregou em direção à escada, e eu tive de me pressionar contra a parede para deixar os dois passarem.

Quando eles passaram por mim, eu vi o lampejo de triunfo nos olhos de Isla e a mudança sutil no cheiro dela — aquela baunilha doce agora misturada com vitória. Minha loba se lançou contra o meu controle, e eu senti meus olhos brilharem dourados antes que eu conseguisse impedir.

Agora, insistiu minha loba. Ela está perto o bastante. Um golpe rápido.

Sebastian está bem ali. Nosso filho.

Sebastian fez uma careta para mim por cima do ombro dela, mostrando a língua.

Então eles sumiram, e eu fiquei sozinha com Dominic no silêncio cavernoso do térreo.

Ele tirou o paletó e o jogou sobre o encosto de uma cadeira, depois foi até o aparador e serviu dois dedos de bourbon. "Você olhou os papéis?"

Eu desci a escada devagar, minhas pernas finalmente me obedecendo agora que o teatrinho lá em cima tinha acabado. Minha loba andava em círculos dentro de mim, agitada. "Eu vi."

"Ótimo." Ele tomou um gole, o líquido âmbar pegando a luz. "Se não tiver nenhum problema, é só assinar. Vai ser melhor pra todo mundo."

Melhor pra todo mundo. Não melhor pra mim. Não melhor pro Sebastian, que estava lá em cima agora, sendo colocado na cama por uma mulher que não era a mãe dele.

"Claro que eu vou assinar." Eu vi os ombros dele relaxarem um pouco. "Mas primeiro a gente precisa discutir os termos."

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