Capítulo 2 Renascimento
POV da Gen
Bip. Bip. Bip.
O ritmo constante de um monitor cardíaco me puxou de volta da escuridão. Cada pulso eletrônico martelava direto no meu crânio.
A dor veio em seguida. Uma latejada surda atrás dos olhos. Minha boca tinha gosto de algodão embebido em arrependimento.
Tentei abrir os olhos, mas a luz forte me fez cerrar a expressão. Paredes brancas. Teto branco. O cheiro forte de desinfetante.
Uma figura de branco se moveu na beira do meu campo de visão. Pisquei com força, tentando focalizar. Uma mulher de uniforme hospitalar conferia um monitor ao lado da minha cama.
— Você é uma deusa, é? — as palavras saíram ásperas, com a garganta em carne viva. — Eu morri e você está aqui pra me levar... mas eu esperava algo mais dramático do que uma camisola de hospital.
A mulher se virou. Era jovem, talvez na casa dos vinte e poucos, com olhos castanhos gentis que se enrugavam nos cantos quando ela sorria.
— Você está no Hospital Municipal de Oakhaven, querida. Intoxicação alcoólica grave.
A realidade desabou em cima de mim. O bip contínuo do monitor parecia debochar. Eu não estava morta. Eu estava viva.
Minha mão foi direto ao pescoço, procurando ferimentos que deveriam estar ali. A memória me acertou como um soco. A beira do penhasco. O passo no vazio. A sensação de não pesar nada, caindo no escuro.
Mas então tinha havido calor. Garras enormes me agarrando no ar. Aquela voz, profunda e mandona: Nem pense em morrer! Eu ordeno que você viva!
— Eu fui salva — sussurrei, a voz falhando. — Alguém me salvou.
A enfermeira franziu levemente a testa.
— O senhor que trouxe você disse que a encontrou desmaiada perto das trilhas do penhasco. Sua taxa de álcool no sangue estava perigosamente alta.
Ela não sabia. Não fazia ideia de que eu tinha pulado.
— O homem que me trouxe — eu disse, me forçando a sentar apesar da náusea. — Como ele era? Ele deixou o nome?
A expressão dela suavizou.
— Eu achei que fosse seu marido. Ele parecia muito preocupado.
Soltei uma risada amarga.
— Meu marido provavelmente está em casa agora, brincando de família feliz com a secretária e com o meu filho.
— Desculpa. Eu não devia ter presumido.
— Você pode me dizer alguma coisa sobre ele?
Ela hesitou.
— Ele pediu para a gente não compartilhar as informações dele. Disse que você entenderia. Falou algo sobre ser “o lobinho ferido” que você ajudou uma vez.
Lobinho ferido? Quem era essa pessoa que se importou o bastante para me puxar de volta da morte quando o meu próprio marido não mexeria um dedo?
— Meu celular. Cadê meu celular?
— Está aqui — a enfermeira apontou para a mesinha ao lado. — Seu amigo fez questão de que devolvessem para você.
Ele achou meu celular? Depois que eu me transformei? Como ele fez isso?
A tela mostrava Sebastian e eu de dois anos atrás, quando ele ainda sorria pra mim.
Uma notificação acendeu. Uma mensagem do Dominic.
Onde você se meteu? Não arrume confusão na rua e não me faça passar vergonha.
Nem uma palavra de preocupação. Só um aviso pra eu não manchar a reputação preciosa dele.
Eu encarei aquelas palavras até tudo embaçar. Alguma coisa dentro de mim rachou — mas não era quebrar. Era endurecer.
— Obrigada — eu disse baixinho para a enfermeira. — Por cuidar de mim.
— Você precisa descansar. O médico quer manter você em observação.
Eu assenti, mas minha mente estava a mil. Assim que ela saiu, eu fechei os olhos.
O sono não veio fácil. Meus pensamentos insistiam em voltar àquele momento no penhasco. A decisão de pular. A certeza de que a morte era a única saída.
Alguém tinha pensado diferente. Um estranho olhou para o meu corpo despedaçado, em queda, e decidiu que eu valia a pena ser salva.
Por quê?
Quando acordei de novo, a luz do fim de tarde atravessava as persianas. Minha dor de cabeça tinha diminuído, virado uma latejada fraca.
Fiquei olhando para o teto, deixando minha mente voltar àquele instante. A sensação de não pesar nada. O vento cortando. A certeza absoluta de que, em segundos, tudo ia acabar.
E então aquelas garras. Aquele calor. Ser agarrada, segurada, ancorada à vida quando eu já estava pronta para soltar.
Eu queria que terminasse. Eu estava desesperada para fugir da dor de ver minha família escorrer pelos dedos, de ser apagada da minha própria vida.
Mas eu não morri.
Meu peito se apertou, mas não num desespero esmagador. Era diferente. Mais cortante. Mais duro.
Alguém se importou o bastante para me salvar. Um estranho que não me devia nada se recusou a me deixar morrer.
E do que eu estava fugindo? De um marido que roubou meu trabalho e minha dignidade. De um filho envenenado contra mim. De uma amante bancando a dona de casa dentro da minha casa.
Morrer teria sido fácil. Teria deixado eles com a vida perfeita. Teria deixado Sebastian achando que eu era a vilã que o abandonou. Teria deixado Isla criar meu filho e apagar qualquer vestígio de mim.
Sentei devagar, segurando na beirada da cama. O monitor cardíaco apitava num ritmo constante. Prova de que eu ainda estava aqui. Ainda respirando.
— A Deusa da Lua não quis que eu morresse — eu disse em voz alta. — Tudo bem. Então eu vou tomar de volta tudo o que é meu.
As palavras soaram como um juramento.
Pensei no parque de diversões. A mão de Dominic nas costas de Isla. Sebastian chamando-a de mamãe enquanto olhava para mim com medo. Eles ficaram ali como uma família enquanto eu desmoronava.
Eles me queriam longe. Queriam que eu desaparecesse em silêncio, que eu deixasse de ser um incômodo.
Mas eu ainda estava aqui.
— Eu ainda sou casada — continuei, com a voz mais firme. — Aquela casa ainda é metade minha. Meu filho ainda é meu filho. E eu não vou deixar aquela mulher roubar tudo.
Joguei o cobertor para o lado e me levantei. Minhas pernas tremeram, mas me sustentaram.
O médico tentou me convencer a ficar mais um dia. Eu assinei os formulários de alta contra recomendação médica sem ler. Minha mão não tremeu nenhuma vez.
Quando saí do Hospital Municipal de Oakhaven, o sol já estava se pondo. Eu não sentia nada além de uma determinação gelada.
Chamei um táxi. Sentada no banco de trás, vi as ruas familiares passarem, cada curva me levando mais perto da propriedade.
É a minha casa, pensei. Meu filho. Não dela.
A Propriedade Whitmore se ergueu à minha frente no crepúsculo. Puxei o ar e usei minha chave para abrir a porta da frente.
O cheiro me atingiu primeiro. Alho e ervas, comida feita em casa. Depois, a televisão passando um desenho animado. Alguém cantarolando na cozinha.
Caminhei em direção à sala de estar. A mesa de jantar estava posta com a nossa louça boa. Sebastian estava sentado no sofá, de pijama novo. Isla apareceu da cozinha usando um avental, carregando o último prato.
Ela parecia dona de casa. À vontade. Como se morasse ali.
Eu parei na porta da minha própria casa e me senti a estranha.
Isla me viu primeiro. Algo passou pelo rosto dela antes de ela sorrir.
— Ah! Senhora, você voltou. Que ótimo, chegou na hora certa. Eu fiz o jantar. Por que você não se junta a nós?
Aquela cena trouxe de volta lembranças que eu tentei enterrar. Isla tinha sido só mais um rosto na empresa, mantida por perto para “entreter” clientes. Aí Dominic começou a me empurrar para fora, arrancando minhas responsabilidades. De repente, Isla não era só entretenimento. Era a secretária dele. O braço direito dele.
Eu tentei avisá-lo. Disse que aquilo parecia inadequado. Ele deu risada, falou que eu estava paranoica, com ciúme.
E agora ela estava ali, na minha casa, cozinhando na minha cozinha, fazendo papel de mãe do meu filho.
Minhas unhas cravaram nas palmas das mãos.
Sebastian levantou os olhos. O rosto dele se fechou num muxoxo.
— Mamãe, por que você pediu pra ela ficar pro jantar? O papai disse que ela é uma mulher má. A gente tem que mandar ela embora.
Cada palavra caiu como um golpe. Meu filho. Chamando outra mulher de mamãe.
Isla fez uma encenação de choque.
— Sebastian, você não pode falar da sua mãe desse jeito.
Mas ela estava sorrindo.
Eu não confiei em mim mesma para falar. Passei por eles, indo em direção à escada. Quando passei ao lado, Isla soltou um suspiro e recuou cambaleando de leve.
— Mulher má! — a voz de Sebastian veio atrás de mim. — Não empurra a minha mamãe!
Eu não tinha encostado nela.
Eu já estava na metade da escada quando a voz de Isla me fez parar.
— Senhora. Por favor, espere.
Ela foi até o escritório e voltou com uma pasta parda.
Subiu a escada com passos medidos. Quando chegou até mim, estendeu a pasta.
— Os papéis do divórcio — disse Isla. — O Alfa me pediu para fazer a senhora assinar. Já que você está aqui, seria mais conveniente resolver isso agora.
