Capítulo 10 O rapto
POV da Gen
A vendedora me levou até uma vitrine de vidro cheia de peças delicadas. Meus olhos pararam num colar de prata com um pingente pequeno de safira — discreto, mas lindo, exatamente o estilo da Piper.
“Esse aqui”, eu disse.
“Excelente escolha. A safira tem procedência ética, e o trabalho artesanal é—”
“Eu vou levar.”
Mil e quinhentos dólares. Entreguei meu cartão sem hesitar.
Ao sair da boutique, sacolas de compras na mão, peguei meu reflexo no vidro da vitrine. Pela primeira vez em dias, eu parecia alguém que tinha a vida em ordem. Era uma ilusão, mas uma ilusão cara — e, naquele momento, aquilo soou como uma pequena vitória.
Encontrei um café no átrio do shopping, todo de mármore e metal dourado e com tudo absurdamente caro. Perfeito. Pedi uma fatia de tiramisù de doze dólares e me acomodei numa mesa no canto, com vista para a fonte.
A sobremesa chegou numa porcelana fina, polvilhada com cacau e com uma voltinha delicada de chocolate por cima. Eu fui com calma na primeira garfada, depois peguei o celular e liguei para a Piper.
“Oi”, ela atendeu. “Tá tudo bem?”
“Melhor do que bem. Você tá livre amanhã à noite?”
“Sempre. Por quê?”
“Quero te levar pra jantar. Num lugar legal. Aquele italiano de que você vive falando, o que tem carta de vinhos.” Fiz uma pausa, saboreando mais uma garfada de tiramisù. “E depois a gente vai fazer o cabelo. Pacote completo.”
Houve um segundo de silêncio. “Gen, você ganhou na loteria ou coisa assim? Você acabou de se mudar pra um hotel e agora tá planejando torrar dinheiro com—”
“Não é meu dinheiro”, eu disse, baixando a voz, mesmo sem ninguém por perto estar prestando atenção. Eu não consegui disfarçar a satisfação no tom. “É do Dominic.”
“O quê?”
“Ele ligou hoje de manhã. Exigiu que eu voltasse hoje à noite pro jantar de aniversário do Sebastian. A mãe dele vai, e pelo visto ele ainda não contou pra ela sobre o divórcio.” Dei mais uma garfada no tiramisù, deixando o doce derreter na língua. “Ele me mandou cem mil dólares. Chamou de fundo pra presente e dinheiro de transporte.”
“Cem mil—Gen, que porra é essa?”
“Ele quer que eu faça o papel de esposa perfeita pra Constance. Sorrir, ser gentil, fingir que tá tudo ótimo.” Eu larguei o garfo. “Então eu disse que ia estar lá.”
“Você não vai voltar pra lá de verdade.”
“Claro que não.” Eu sorri pro telefone. “Eu vou dar um bolo nele. Deixar ele explicar pra mãe por que a esposa dele não apareceu na festa de aniversário do próprio filho. Deixar ele se contorcer.”
A Piper começou a rir. “Meu Deus. Você é má.”
“Eu sou prática. Ele quer jogar? Beleza. Mas eu vou gastar o dinheiro dele antes e depois vou desligar o celular e deixar ele entrar em pânico.”
“E se ele for atrás de você?”
“Ele não vai. Ele é orgulhoso demais pra admitir pra Constance que não consegue controlar a própria esposa. Vai inventar uma desculpa qualquer e ficar remoendo sozinho.” Peguei o garfo de novo. “E eu vou estar aproveitando o tiramisù mais caro que eu já comi na vida.”
“Tá. Tá, eu topo. Amanhã à noite. Mas, Gen — você tem certeza disso?”
“Absoluta.” Pensei no colar dentro da sacola, nas roupas novas, no dinheiro que eu doei pra abrigos e pra fundos de assistência jurídica. “Pela primeira vez, eu tô me escolhendo. E é bom.”
“Então eu tenho orgulho de você. Sete horas amanhã?”
“Sete horas. Lombardi’s na Fifth.”
“Eu vou. E, Gen? Toma cuidado. O Dominic não vai lidar bem com isso.”
—Deixa ele ficar com raiva. Eu cansei de ter medo.
Depois que desligamos, terminei meu tiramisù devagar, saboreando cada garfada. O café vibrava com conversas baixas, o tilintar de talheres na louça, o chiado da máquina de espresso. Sons normais. Sons seguros.
Conferi o celular. Um pouco depois das três. Tempo de sobra antes de Dominic começar a ligar, antes de perceber que eu tinha passado a perna nele.
Abri o aplicativo de notícias e vi o alerta que eu não tinha notado mais cedo: Ações da Whitmore Development despencam 8% após anúncio imobiliário de luxo do Sterling Group.
O rosto de Ryker Sterling me encarava na foto, a cicatriz visível acima da sobrancelha, a expressão calma e confiante. Minha loba se agitou, aquela mesma atração estranha que eu tinha sentido no café da Piper.
Espere até você se lembrar de quem eu sou.
Paguei a conta e juntei minhas sacolas de compras. Hora de voltar para o hotel, atualizar meu currículo e me preparar para a noite mais satisfatória que eu teria em anos — a noite em que Dominic Whitmore aprenderia que não podia mais me chamar como se eu fosse uma empregada.
Empurrei a porta de vidro do café e saí para o corredor principal do shopping, seguindo em direção à saída. As sacolas pesavam nos meus braços, prova cara da minha pequena rebeldia.
Minha loba se mexeu de repente, um alerta em forma de arrepio na base da minha coluna.
Diminuí o passo, vasculhando a multidão com o olhar. Nada parecia fora do lugar. As pessoas passavam por mim, cada uma no seu mundo. Uma mãe com carrinho de bebê. Um adolescente no celular. Um casal de idosos olhando a vitrine de uma loja.
O arrepio se intensificou.
Acelerei, indo em direção às portas giratórias da entrada principal. Quase lá. Só mais alguns metros e eu estaria do lado de fora, poderia chamar um carro por aplicativo, voltar para o hotel—
O aviso da loba explodiu num rosnado.
Três homens de terno escuro surgiram da multidão atrás de mim, se movendo com a precisão coordenada de capangas treinados. Eu nem precisava ver os rostos para saber o que eram. O cheiro de autoridade de Alfa emanava deles em ondas.
Eu saí correndo.
As sacolas escorregaram das minhas mãos, se espalhando pelo piso polido. Meus saltos novos — idiotas, impraticáveis, caros — derraparam no mármore. Arranquei os dois no meio da corrida e continuei, agora descalça, a loba crescendo dentro de mim exigindo que eu mudasse de forma, exigindo que eu lutasse—
Uma mão tampou minha boca por trás.
O cheiro químico me atingiu na hora — acônito, diluído, mas forte o suficiente para fazer minha loba recuar. Eu me debati, tentando morder, tentando me soltar, mas um segundo homem agarrou meu braço esquerdo enquanto um terceiro segurou o direito.
Eles me levantaram do chão.
Tentei gritar, mas a mão sobre minha boca apertou ainda mais, e o cheiro químico ficou mais forte. Minha visão embaçou nas bordas. A loba dentro de mim uivou de fúria e medo, tentando desesperadamente forçar a transformação, mas o acônito já estava no meu sistema, já estava me puxando para baixo.
Ao nosso redor, os clientes se dispersaram. Eu vi flashes de rostos — choque, medo, e as expressões cuidadosamente neutras de quem sabia que era melhor não se meter em assunto de Matilha.
Ninguém ajudou.
Ninguém sequer pegou o celular para gravar.
Eles me arrastaram até a saída, meus pés descalços raspando inutilmente no chão. Pelas portas giratórias. Para a luz da tarde. Um SUV preto estava parado na guia, com a porta traseira já aberta.
Eles me enfiaram lá dentro.
