Reivindicado pelo Meu Meio-Irmão Vampiro

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Capítulo 2: O mistério da mansão Marshall

P.O.V. do Chase

O corredor parecia estar se fechando ao meu redor, o ar pesado com os resquícios da manhã. Minhas costelas ainda doíam da surra de mais cedo, mas eu tentei não focar nisso. Não dava, claro — minha cabeça estava ocupada demais revivendo tudo o que aconteceu.

Eu nunca tinha imaginado que o ensino médio seria tão miserável.

Pelo menos eu tinha a Lucia e o Keith caminhando ao meu lado. Era estranho como os dois pareciam muito mais à vontade naquele lugar do que eu. Talvez porque eles realmente tivessem amigos — pessoas que se importavam com eles — enquanto tudo o que eu tinha era uma casa desconfortável e uma família postiça que agia como se eu nem estivesse ali.

Lucia, com o cabelo ruivo fogo e os olhos verdes penetrantes, continuava estranhamente calada enquanto a gente andava, e eu não conseguia me livrar da sensação de que tinha algo errado. Ela ficava me olhando de relance, mas, quando eu encontrava o olhar dela, ela desviava rápido, como se tivesse algo que queria dizer, mas não conseguisse.

Eu não aguentei mais o silêncio, então quebrei.

— Ei… tá tudo bem?

Lucia parou de andar, e o Keith também.

— Seu meio-irmão, o Alex — ela começou —, ele está na mesma turma que você, né?

Eu assenti devagar.

— Tá. Por quê?

Ela pareceu hesitar, mordendo o lábio antes de perguntar:

— Então por que ele não te ajudou lá atrás?

Eu quase ri, mas saiu um som vazio e amargo. Dei de ombros, num gesto casual demais pra como eu realmente me sentia.

— Porque o Alex é um babaca. Por isso.

Os olhos dela se estreitaram um pouco, mas ela não pareceu surpresa. O Keith, por outro lado, se mexeu desconfortável, claramente sem saber se devia se meter naquela conversa. Eu também não tinha certeza se queria que ele se metesse.

— Por que você diz isso? — Lucia insistiu, agora realmente curiosa.

Eu soltei um riso de desprezo.

— Desde o momento em que eu pisei naquela mansão maldita, ele age como se eu nem existisse. Eu não espero que ele seja meu melhor amigo, mas quando eu tô apanhando no corredor, o mínimo que ele podia fazer é… sei lá. Fazer alguma coisa.

— Eu entendo — ela disse, devagar. — O Alex é… complicado. Ele não é exatamente amigável com ninguém e não gosta de se envolver nos problemas dos outros. Não é pessoal.

— Não é pessoal? Ah, para com isso. Ele ficou lá, parado, me vendo levar soco como se fosse um show.

— Ele é assim com todo mundo — Lucia acrescentou, como se isso explicasse. — Ele não gosta de pessoas. Ele só é… solitário. Você não pode levar pro lado pessoal. Ele não tá tentando ser cruel.

Eu parei, puxando o ar de um jeito trêmulo. Pensar no rosto do Alex, vazio e sem expressão, me deixava com raiva de novo; dava vontade de enfiar um soco bem no meio da cara dele.

— Eu não pedi por isso, sabe? Vir pra cá, ganhar uma família nova… aconteceu tudo tão rápido. E agora eu tô preso com esse… rei do gelo que age como se eu nem existisse. Que porra é essa?

Lucia assentiu devagar, a expressão suavizando.

— O Alex não é muito de gente… ele gosta de ficar na dele, gosta de ser aquele cara que enxerga os outros como barulho — ela disse, com cuidado. — Ele é… reservado. Sempre na dele, não fala com ninguém. Não é só com você, é do jeito dele. Não leva tão a sério, beleza? — Ela tocou meu braço de leve, e foi bom, como se ela entendesse de verdade. — Ele sempre foi… diferente.

Keith entrou na conversa, tentando aliviar e também melhorar meu humor, mas a voz dele soou meio sem jeito.

— É, o Alex é tipo um fantasma. Você vê ele, mas ele não tá realmente ali, tá ligado? — Ele riu, nervoso, como se estivesse encobrindo alguma coisa. — Talvez ele só não quisesse lidar com isso. Tem gente que odeia briga. Não esquenta.

Eu cruzei os braços, sem comprar, sem acreditar em nenhuma palavra. Lá no fundo eu sabia que eles estavam escondendo alguma coisa de mim — eu sentia isso até os ossos.

— Fácil falar. Vocês não moram com ele. É uma merda ter alguém que era pra ser família te tratando como se você fosse invisível, como se você fosse lixo. — Eu chutei um pedregulho pelo corredor. — Qual é o problema dele? Ele me odeia tanto assim? Eu fiz alguma coisa pra ele? Por que ele é desse jeito?

Eu olhei pros dois, esperando algo de verdade, respostas cruas, procurando nos rostos deles.

— Eu tô exagerando? Esperando demais dele?

Lúcia sorri, tentando me acalmar, mas eu peguei alguma coisa no olhar dela, como se estivesse escondendo algo. “Não fica se preocupando tanto com o Alex, tá? Ele é só… complicado, confuso e mais um monte de coisa. Tem coisas que você ainda não entende. Dá tempo pra ele e não deixa ele te afetar.”

Ela espera um segundo e muda de assunto. “Enfim, vamos esquecer ele por enquanto. A gente te ajuda a achar sua próxima aula. O que tem no seu horário?”

Eu tirei do bolso a folha amassada. “História, com o senhor Abernathy.”

“Beleza, a gente te leva até lá”, o Keith diz, dando um tapinha nas minhas costas um pouco forte demais, como se eu fosse uma criança — e não o cara que tinha acabado de aparecer pra salvar a pele dele. “Agora a gente é seu guia oficial, você não precisa se preocupar. A gente conhece todos os atalhos e os melhores lugares pra se esconder se você quiser matar aula.” Ele pisca, só zoando.

Enquanto a gente anda pelos corredores, eles começam a me perguntar coisas sobre Minneapolis, minha escola antiga, meus amigos, que esportes eu gosto. É bom, porque me tira um pouco da minha cabeça. A tensão vai diminuindo aos poucos, e eu até solto umas piadas que fazem os dois rirem.

“Então, você jogava futebol americano, né?”, o Keith pergunta, os olhos brilhando. “Qual posição?”

“Quarterback”, eu digo, com um orgulho discreto do meu posto. “Eu não era nada mal, se eu posso dizer.”

“Você devia fazer a seletiva aqui”, a Lúcia fala. “Nosso time anda uma droga. A gente precisa de um quarterback bom, alguém que jogue de verdade.”

“Talvez”, eu digo, dando de ombros. “Ainda não tô pronto pra me jogar em qualquer coisa. Preciso me acostumar primeiro, entender como é esse lugar. Casa nova demora pra virar casa… e a mansão dos Marshall não é exatamente acolhedora.”

A caminho da minha próxima aula, o Keith me fez uma pergunta que eu não estava esperando. “E… sua mãe? Como ela tá lidando com tudo isso? A mudança, quer dizer. Ela tá feliz?”

Eu pensei um pouco. Era difícil dizer. “É, ela parece feliz o bastante. Ela tá com essa vida nova, e eu acho que fico feliz por ela. É só que… sei lá. É diferente.”

Keith assentiu, como se entendesse, mas a Lúcia falou antes de eu continuar.

“Você não gosta da mansão dos Marshall, né?”

Eu travei por um segundo. “Como você sabe?”

A Lúcia me olhou de lado, com um sorrisinho. “Dá pra ver. Você tem esse olhar… de que tem alguma coisa errada, mas você não consegue dizer exatamente o quê.”

Eu ri, mas saiu nervoso. “Eu não sei o que é. Toda vez que eu tô lá, simplesmente… não parece certo. O lugar é frio demais. É como se estivesse vivo de algum jeito, me observando. Eu não sei explicar. É enorme, escuro, e cheio de coisas estranhas, tipo cabeças de animais empalhadas na parede e quadros sinistros que parecem te encarar. Eu sempre sinto que tão me vigiando, mesmo quando eu tô sozinho. É como se a casa estivesse viva ou algo assim.”

Keith estremeceu. “Eu já ouvi histórias. A mansão dos Marshall tem mais de duzentos anos, e o pessoal diz que tem alguma coisa esquisita lá. Como se a casa fosse amaldiçoada, sei lá.”

“Eu não sei dizer se é a casa que é problemática ou as pessoas que moram nela”, eu murmurei, quase sem querer.

“Os Marshall são uma família estranha, disso eu não discordo. Mas confia em mim: tem mais naquela mansão do que parece”, a Lúcia disse, num tom enigmático.

Eu não soube o que responder, então não respondi. Ficou claro que a Lúcia sabia de alguma coisa que eu não sabia, mas eu não tinha certeza se eu queria descobrir.

A gente se aproximou da escada, e eu senti um arrepio descer pela minha coluna. As escadas que levavam ao segundo andar sempre me deixavam inquieto, como se eu estivesse entrando numa armadilha. Talvez fosse só a arquitetura antiga, o jeito que o corrimão de madeira rangia quando alguém se apoiava, mas eu não conseguia afastar a sensação de que sempre tinha alguma coisa me observando.

Então, sem aviso, eu senti um empurrão forte nas costas.

Eu não tive tempo de reagir. Meu pé escorregou na beirada do degrau, e eu fui rolando pra frente. Meu corpo bateu nos degraus, e minha cabeça acertou a pedra com força o bastante pra eu sentir uma fisgada atravessar o crânio. O sangue brotou do corte na minha testa e escorreu pelo meu rosto, quente e grudento, uma meleca.

De cima, eu ouvi um som inconfundível de risada — alta, debochada. Eu não consegui entender as palavras, mas nem precisava. Era o mesmo grupinho de babacas que tinha me importunado mais cedo.

Eu pisquei, tentando aguentar a dor, com a visão embaralhando. Meu corpo parecia pesado, como se eu estivesse afundando no chão.

E então eu olhei pra cima.

Tudo parecia mudar.

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