Capítulo 1: Devil's Lake High
P.O.V. do Chase
Dizem que casas antigas falam, se você ouvir com atenção.
Eu sempre achei que isso era só coisa que o povo diz em filme de terror pra você dormir com a luz acesa. Mas, parado no corredor escuro do Devil’s Lake High, eu estava começando a acreditar.
A escola era antiquíssima, construída antes de existirem coisas como aquecimento ou janelas de tamanho decente. As paredes rangiam quando o vento batia, os armários de metal batiam sozinhos, e as escadarias viviam com cheiro de pedra úmida e segredos. Se a minha casa nova já me dava arrepios, então aquele lugar praticamente gritava pra eu correr.
Mas eu já tinha tentado correr — na cabeça, no coração, e até de verdade uma vez, quando eu implorei pra minha mãe não seguir com a mudança. Ela não ouviu.
Ela estava feliz agora, afinal. Apaixonada. Radiante, até. Como se o novo marido tivesse drenado toda a ansiedade dela e preenchido com champanhe e rosas. Eu não entendia. Eu não conseguia entender como um cara como Landon Marshall — estoico, indecifrável, frio — podia fazer alguém como a minha mãe sorrir com tanta facilidade.
Eu ainda tentava processar como fui parar com um sobrenome novo, uma cidade nova e um meio-irmão novo que me olhava como se eu fosse um inseto que ele não fazia questão nem de esmagar.
Alexander Marshall.
Alto. Moreno. Olhos azul-gelo que podiam cortar vidro e uma mandíbula tão definida que parecia esculpida. Ele era o tipo de cara que não simplesmente entrava num lugar — ele tomava conta. As pessoas ou admiravam ou saíam da frente. Ninguém retrucava pro Alexander. Ninguém encostava nele. Ele tinha aquela energia quieta e perigosa que fazia você esquecer de respirar.
E ele me odiava.
Eu não sabia por quê. Eu nem tinha falado dez palavras com ele desde que me mudei. Mas, desde o primeiro dia, a tensão entre a gente era como um fio esticado — pronto pra arrebentar a qualquer segundo. Em casa, ele mal reconhecia a minha existência; na escola, nunca olhava pra mim duas vezes; e deixava dolorosamente claro que eu era um intruso no mundo dele.
Mesmo assim, por mais que ele não gostasse de mim, eu tinha esperado que ele não fosse deixar eu apanhar até virar pasta na frente dele.
Burro, né?
—
Tudo começou quando eu abri a boca.
Erro enorme.
Tinha esse garoto — gordinho, óculos redondos, camisa enfiada na calça como se estivesse indo pra uma feira de ciências e não pro ensino médio. O tipo de cara que você já sabe que é escolhido por último em tudo. Um grupo de moleques tinha encurralado ele nos armários, rindo, tirando sarro, zoando até o jeito que ele respirava.
E eu simplesmente… não consegui ficar calado.
“Ei”, eu disse, numa coragem idiota. “Por que vocês não tentam mexer com alguém que vai revidar de verdade?”
Eles viraram pra mim como uma matilha de lobos.
E agora eu estava ali, largado no chão de azulejo do corredor do terceiro andar, com as costelas latejando, a mandíbula doendo, e a minha dignidade escorrendo pra algum lugar atrás do carrinho da limpeza.
“Caramba, esse cara tem coragem”, um deles debochou, enxugando o suor da testa depois de acertar mais um soco. “Pena que não tem nada pra sustentar isso.”
“Qual é, novato? Não tá tão valente agora, né?” Brad me provocou. Ele é o líder dessa matilha que me deixou encurralado e cercado.
“Acho que ele precisa de mais uma lição de como as coisas funcionam aqui”, Tyler disse, rindo. Ele é o capacho do Brad, estalando os dedos como se estivesse num filme, amando cada segundo disso.
Eu tentei me sentar. Erro. Uma bota acertou meu estômago e arrancou o ar de mim.
O corredor girou. Minha visão embaçou. Eu já sentia gosto de sangue na boca — metálico e quente, escorregadio nos dentes. Minha respiração saía em puxadas irregulares. Meus ouvidos zuniam.
E, por cima desse zumbido, eu ouvi o som que fez meu estômago afundar ainda mais.
Passos. Firmes. Tranquilos.
Eu nem precisava olhar. Eu já sabia.
Alexander.
Eu virei a cabeça — devagar, com dor — e ele estava lá, passando pela briga como se só estivesse desviando de uma poça na calçada.
Nossos olhos se encontraram.
O olhar dele ficou preso em mim. Por um segundo, juro que vi alguma coisa tremular ali. Não era preocupação. Não, nada tão humano. Era mais como... reconhecimento. Fome, talvez. Uma tensão estranha passou entre nós, como eletricidade no ar.
Então ele piscou, quebrou o contato visual e continuou andando.
Sem palavras. Sem hesitar.
Ele simplesmente foi embora.
E alguma coisa dentro de mim estalou.
Eu queria gritar. Não só de dor, mas de traição. De saber que até meu meio-irmão — que podia ter parado aquilo com um simples olhar — escolheu não fazer nada.
O soco seguinte foi um borrão, mas eu nem senti. Eu já estava anestesiado. Meus pensamentos giravam em outro lugar, perdidos na escuridão que crescia atrás dos meus olhos.
Aí veio o estrondo.
Uma porta arrebentou no fim do corredor, com um barulho alto o bastante pra congelar todo mundo no meio do movimento.
“Que porra você acha que tá fazendo?!”
Uma voz — feminina. Afiada, mandona, puta da vida o suficiente pra acordar um morto.
Uma garota ruiva invadiu a sala como se tivesse acabado de sair de um campo de batalha, os olhos verdes em chamas de raiva.
Os atletas hesitaram. “Lucia?”
“Isso mesmo”, ela rosnou. “E a não ser que vocês queiram ficar de castigo até se formarem, eu sugiro que comecem a correr.”
“Cai fora, Lucia”, Brad rosna. “Isso não é problema seu.”
Lucia dá um passo à frente e, mesmo sendo baixinha, tem uma presença de quem manda em tudo, corajosa e ousada pra caramba.
“Três marmanjos em cima do aluno novo? Que coragem”, ela rebate. “Eu já avisei o técnico Peterson. Ele tá vindo com o diretor Williams.”
O sorrisinho do Brad some na hora. “Você tá mentindo.”
“Duvida”, Lucia diz, cruzando os braços. “Quero ver como fica sua vaguinha no basquete quando descobrirem que você tá intimidando novato aqui dentro da escola.”
Houve uma pausa. Aí, caos.
Os caras se embolaram, xingando, tropeçando uns nos outros pra fugir antes que as reputações preciosas fossem pro ralo. Um chutou uma cadeira ao sair. Outro bateu o joelho com força numa carteira. Eu teria rido se não sentisse como se minhas costelas tivessem virado pó.
Lucia se virou pra gente, e o fogo no olhar dela amoleceu.
“Keith?”, ela disse, correndo até o garoto ainda encolhido perto dos armários. “Você tá bem?”
Ele assentiu, tremendo. “T-Tô. Valeu, Lucia…”
Ela se agachou ao meu lado em seguida. “E você. Qual é o seu nome, herói do futebol americano?”
Eu pisquei pra ela, atordoado. “Chase.”
“Você consegue ficar em pé?”
“Define ‘consegue’”, eu murmurei.
“Engraçadinho. Vem.” Ela enlaçou o braço no meu e me puxou pra cima com uma força surpreendente pra alguém com pouco mais de um metro e cinquenta. “A gente precisa sair daqui. Agora.”
“Espera — e os professores?”
“Não tem professor nenhum”, ela deu um sorriso de lado. “Eu tava blefando.”
Eu soltei uma risada e tossi. “Você é maluca.”
“Obrigada. Agora corre.”
Ela nos guiou pelo corredor como uma general conduzindo suas tropas, com o Keith mancando atrás, agarrado à mochila. A gente passou por uma escada vazia e se enfiou no depósito do zelador enquanto ela espiava pela fresta da porta.
“Tá”, ela disse por fim, batendo as mãos uma na outra. “Acho que agora tá tranquilo.”
Só então ela virou de volta pra mim e me olhou de verdade. O sorriso dela diminuiu um pouco quando reparou no sangue seco no meu lábio e nos hematomas se formando debaixo do meu olho.
“Você deixou eles bem putos, hein?”
Eu dei de ombros, fazendo careta de dor. “Acho que eu não sei a hora de calar a boca.”
Ela estendeu a mão de novo. “Lucia Randall. Agente oficial do caos do Colégio Devil’s Lake.”
Eu apertei. “Chase Tanning. Saco de pancada oficial do aluno novo.”
“Ah, coitadinho”, ela provocou, depois inclinou a cabeça, curiosa. “Pera… Tanning?”
Eu assenti.
“Você acabou de se mudar pra cá?”
“Semana passada. Minha mãe casou de novo, aí a gente veio morar com o novo marido dela.”
Os olhos da Lucia se estreitaram. “Qual é o nome dele?”
“…Landon Marshall.”
A expressão dela mudou na hora. O corpo inteiro pareceu ficar tenso, como um predador sentindo um cheiro inesperado.
“Você tá com a família Marshall?”
“Ué… sim?”, eu respondi, devagar, sem saber. “Meu meio-irmão é o Alexander—”
Os olhos dela se arregalaram.
“Ah, merda”, ela sussurrou.
