Capítulo 6
POV da Elizabeth
Já faz doze dias.
Doze dias longos, arrastados, desde que entrei e vi aquela mulher de joelhos, chupando o pau do Christian como se estivesse faminta por aquilo.
Doze dias desde que vi o olhar frio, sem um pingo de arrependimento, nos olhos dele enquanto ele fechava o zíper da calça, sem a menor vergonha.
E desde então eu não o vi mais.
Ele saiu para uma viagem de negócios sem dizer uma palavra. Nem bilhete. Nem despedida. Simplesmente sumiu — como se eu não existisse. Bom, acho que eu não existo mesmo… não pra ele. Eu sou só a esposa dele no papel. Sem votos, sem casamento, sem aliança. Nada que prenda a gente além da tinta.
E talvez seja melhor assim.
Um acordo maquiado, embalado em silêncio e tensão.
Empurrei as cobertas e sentei na cama, o ar frio beliscando minhas pernas nuas. Prendi o cabelo num coque frouxo e fui até a janela, puxando as cortinas.
A luz da manhã se espalhou pelo quarto, destacando os móveis caros que ainda não pareciam meus.
As paredes eram perfeitas demais, o silêncio denso demais. Essa casa parecia mais um museu do que um lar.
Passei os últimos doze dias como uma sombra. Comer, dormir, andar e repetir.
Os funcionários me tratavam como se eu não existisse.
Talvez tenham sido orientados a isso. Ninguém sustentava o olhar. Ninguém falava, a não ser quando era necessário.
Exceto a Nana — doce, paciente Nana. Ela era a única que me tratava como se eu fosse mais do que só uma visita.
Uma batidinha suave interrompeu meus pensamentos.
— Senhorita? — a voz da Nana veio do outro lado da porta.
— Pode entrar — eu respondi, apertando mais o roupão no corpo.
Ela entrou com um sorriso caloroso, usando o vestido preto de sempre com um avental branco, o cabelo prateado preso direitinho num coque.
— Bom dia, querida. Dormiu bem?
— Dormi — menti, forçando um sorriso.
— Você não precisa subir aqui toda manhã, sabia? Eu consigo descer as escadas muito bem.
— Eu sei — ela disse, se abaixando para pegar uma das minhas pantufas debaixo da cama. — Mas eu tenho minhas obrigações. O Christian me pediu pra cuidar de você, e eu levo isso a sério.
Dei uma risadinha sem humor.
— Ele pediu pra você cuidar de mim, mas nem se deu ao trabalho de se despedir?
A Nana não respondeu. Só me deu um sorriso cheio de pena.
— Ele não é exatamente do tipo carinhoso, né? — murmurei.
Ela se endireitou.
— Não se preocupe. Ele vai acabar cedendo, do jeito dele.
Eu não acreditei, mas também não disse isso.
— Agora vamos — ela falou. — O café da manhã está pronto.
— Já desço em cinco minutos.
— Não demore — ela disse com suavidade, e saiu.
Depois de escovar os dentes e me arrumar um pouco, troquei de roupa: uma blusa de tricô macia e uma legging. Nada chique. Não tinha ninguém pra impressionar.
Quando saí do meu quarto, o cheiro rico de manteiga, canela e café chegou até mim.
— É o que eu tô pensando? — eu sorri, descendo as escadas quase correndo.
— É sim — a Nana disse, colocando um prato de panquecas na mesa. — Sua favorita.
— Você está me mimando — eu disse, me acomodando numa cadeira. — E eu nem sou uma esposa de verdade.
— Não diga isso. — Ela franziu a testa. — Você ainda está aqui, não está?
Espetei um pedaço de panqueca com o garfo.
— Fisicamente, sim.
Ela serviu café pra mim.
— Você precisa de mais alguma coisa?
Eu hesitei, mastigando devagar antes de perguntar:
— Você tem ideia de quando o Christian volta?
Ela suspirou.
— Ele não comenta essas coisas. As viagens dele demoram.
— Sei… — murmurei. — Claro.
Baixei os olhos para o prato, e a empolgação do café da manhã foi sumindo.
— Eu tô entediada — soltei, de uma vez. — Quero dizer, entediada de verdade, completamente. Você conhece algum lugar aqui perto que eu possa visitar? Uma livraria? Um café?
Ela piscou.
— Você quer sair?
— Só por um tempo — eu disse. — Uma saidinha rápida. Algo normal. Eu tô cansada de passar o dia inteiro andando de um lado pro outro nesses corredores perfeitos.
Ela hesitou.
— Elizabeth, você sabe que isso não é permitido. O Christian ia ficar uma fera se soubesse.
Cruzei os braços.
— Ele não precisa saber. Eu tô cansada de ficar trancada nessa casa como se fosse uma prisioneira. Eu só quero uma noite pra me sentir eu de novo. Eu não vou longe, eu juro. Você pode até escolher o lugar.
— Elizabeth… — ela parou, dividida.
— Por favor, Nana — eu implorei, suavizando a voz. — Só uma vez. Só hoje à noite. Eu prometo que volto antes que alguém perceba.
Ela suspirou, rendida.
— Tá bom. Pra onde você quer ir?
Eu sorri, mas a culpa ainda beliscou meu peito.
— Talvez… uma balada? — sugeri, dando de ombros, meio sem jeito.
Os olhos dela se arregalaram.
— Uma o quê?!
— Uma balada — repeti, mais baixo. — Eu só quero dançar, tomar uns drinks… nada demais.
— Nem pensar! — ela disse, pondo as mãos na cintura. — Você é uma mulher casada, Elizabeth!
— No papel — respondi rápido. — E, mesmo se eu não fosse, isso não quer dizer que eu não possa extravasar de vez em quando. É só uma noite, Nana. Ele nem tá aqui.
A Nana me encarou por um longo momento e então soltou o ar, como se tivesse envelhecido dez anos na minha frente.
— Tá — resmungou. — Tem uma baladinha não muito longe daqui. Vou mandar o motorista te levar. E vou garantir que ele fique de boca fechada.
Minha boca se abriu.
— Você tá falando sério?!
— Não me faça me arrepender disso — ela avisou.
Eu dei um gritinho e a abracei forte.
— Meu Deus, obrigada, Nana! Muito obrigada mesmo!
— Por favor, Elizabeth… — ela disse, dando tapinhas nas minhas costas com um suspiro. — Se cuida. E volta no horário. Não bebe demais. Não fala com homens estranhos. E—
— Nana — interrompi com cuidado, sorrindo. — Vai dar tudo certo. Prometo.
Ela me lançou um olhar — daqueles que mãe faz bem antes de entregar a chave do carro pra um adolescente — e então assentiu, a contragosto.
— Eu saio por volta das onze — falei, já montando os horários na cabeça. — Devo voltar à uma.
— Faça isso. Se o Christian voltar mais cedo e você não estiver aqui…
— Eu vou estar aqui — garanti, embora uma parte de mim se perguntasse se ele se importaria. Ele não tinha me olhado uma única vez com interesse. Nem depois do escritório. Nem nunca. Pra ele, eu era só mais uma assinatura num papel.
Mas hoje… hoje à noite era minha.
Eu nem lembrava da última vez que tinha entrado numa balada, muito menos dançado ou me permitido relaxar.
A última vez que eu fiquei bêbada, acabei com um filho.
Mas hoje seria diferente.
Só um pouco de diversão. Um pouco de liberdade. Um lembrete de que eu ainda existia fora dessa prisão fria de vidro.
O que poderia dar errado?
