Reapers MC: Coroada pela Morte

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Capítulo 2 Criado no bar

Lily - Seis anos

Meus pés não alcançam o chão.

Eles balançam para a frente e para trás debaixo do banco alto, com as pontas dos tênis roçando o ar, brancas de tanto arrastar. O assento é grande demais para mim, e o vinil gruda na parte de trás das minhas pernas porque aqui dentro está quente. Quente demais. Um tipo de calor que cheira a cerveja, fumaça e alguma coisa forte para a qual eu ainda não tenho nome.

Mamãe põe um guardanapo na minha frente mesmo assim, alisando-o com a palma da mão como se isso importasse.

“Fique quieta”, ela diz sem olhar para mim. “E comece seu dever de casa.”

“Eu já comecei”, eu digo.

Ela olha por cima do ombro, erguendo uma sobrancelha. Eu me endireito na mesma hora.

Meu livro de matemática está aberto na tabuada. A página já está amassada porque eu a dobrei errado dentro da mochila. Seguro o lápis com força demais e aperto a ponta no papel, cobrindo os números três até ficarem escuros e feios.

Três vezes quatro é igual a...

Mordo a borracha e encaro os números.

Atrás do bar, mamãe se move como se pertencesse àquele lugar. Como se o bar fosse uma extensão dos braços dela. Os copos tilintam enquanto ela os enfileira. Ela não precisa olhar quando serve. As garrafas se inclinam na medida certa, e líquido âmbar, transparente e vermelho escorre para os copos como truques de mágica.

“Whisky. Puro”, diz um homem.

Ela estende a mão sem perguntar de que tipo.

Outro homem se apoia no balcão, com os cotovelos bem abertos. “Soube do que aconteceu ontem à noite?”

A mão de mamãe para por meio segundo. Só meio.

“Não”, ela diz. “Mas imagino que você esteja prestes a me contar.”

Finjo estar muito interessada na minha matemática.

Três vezes cinco é igual a...

Eu consigo ouvir tudo.

O estalo das bolas de sinuca atrás de mim. O raspar dos tacos no feltro. Alguém ri alto demais, como se quisesse chamar atenção. Outra pessoa tosse, fundo, com catarro.

Os homens no bar se inclinam para mais perto uns dos outros quando falam. As vozes deles ficam mais baixas. Mamãe não se inclina. Continua limpando o balcão, devagar e sem parar, como se não estivesse ouvindo nada.

Mas está.

Eu sei porque ela faz perguntas que parecem não ser nada.

“Que horas eram?”

“Tem certeza de que era ele?”

“E ninguém viu nada?”

Ela desliza as bebidas pelo bar enquanto fala, os dedos nunca parando. O rosto dela não muda, mas os olhos sim. Eles sobem, depois se desviam. Ela observa as mãos. Quem pega primeiro. Quem espera. Quem nem toca na bebida.

Tento escrever os números, mas continuo errando.

Três vezes seis é igual a...

Em vez disso, ergo os olhos.

Há uma mesa de sinuca à minha esquerda. Dois homens estão perto um do outro, um deles explicando alguma coisa com as mãos. Ele aponta como se estivesse desenhando um mapa no ar.

“Foi aí que ele fez merda”, ele diz. “Devia ter esperado.”

“Ou então não devia ter aberto a boca de jeito nenhum”, responde o outro.

Eles riem. É uma risada cruel.

Eu não gosto.

Do outro lado do salão, perto do corredor que leva aos escritórios, duas pessoas estão grudadas uma na outra. Um homem de cabeça raspada e uma mulher de blusa vermelha. As costas dela estão contra a parede. A mão dele está no quadril dela.

Eles estão se beijando, mas não parece com os beijos dos meus livros de histórias.

Parece uma bagunça.

Baixo os olhos de volta para o meu dever de casa, com as bochechas queimando.

“Lily”, mamãe diz, num tom cortante.

Eu me sobressalto.

“O quê?”, pergunto.

“Olhos no seu livro”, ela diz. “Você ficou encarando.”

“Eu estava pensando”, digo.

“Pensar não termina a matemática”, ela responde. “Escreva.”

Eu assinto e volto a segurar o lápis com firmeza.

Três vezes sete é igual a...

Atrás de mim, alguém diz alguma coisa nojenta. Uma palavra que eu sei que não devo repetir. Os homens riem de novo, mais alto dessa vez. Um deles dá um tapa na mesa, forte o bastante para fazer as bolas de sinuca tremerem.

A mandíbula da mamãe se contrai.

“Ei”, ela diz, com a voz calma, mas firme. “Aqui dentro, não.”

Um dos homens levanta as mãos. “Foi mal, Mara.”

Ele soa como se estivesse falando sério.

É aí que eu percebo uma coisa importante.

Eles obedecem a ela.

Não porque ela fala alto. Não porque ela grita. Mas porque ela observa, e ela se lembra.

Eu termino uma linha de contas e começo outra. Os números ainda embaralham, mas eu me esforço mais. Eu não quero que ela fique brava comigo.

Três vezes oito é igual a...

Um homem se senta a dois bancos de distância de mim. Ele cheira a couro e óleo. Ele acena para mim, sorrindo.

“E aí, garotinha”, ele diz. “Tá fazendo o quê?”

“Meu dever de casa”, digo.

Ele ri. “Isso é osso.”

Mamãe desliza uma cerveja para ele sem que ele peça. “Não distraia ela.”

“Nem ia”, ele diz, erguendo as mãos. “Só tô dizendo oi.”

Ele toma um gole e se recosta, com os olhos vagando pelo salão. Eu reparo que ele não vira as costas para a porta.

Eu guardo isso na minha cabeça, mesmo não sendo matemática.

Outra pessoa se aproxima do bar, sussurrando alguma coisa para mamãe. Eu não consigo ouvir tudo, mas pego alguns pedaços.

“—estrada de trás—”

“—tarde—”

“—sem faróis—”

Mamãe assente uma vez. “Vou passar adiante.”

Passar adiante para quem?, eu me pergunto.

Ela olha para mim de novo, conferindo. Eu baixo os olhos rápido.

Três vezes nove é igual a...

Meu lápis arranha o papel. Eu termino a página, mais devagar do que eu queria, mas termino.

Enquanto trabalho, eu escuto.

Eu escuto quem discute e quem não discute.

Quem bebe rápido.

Quem vai embora cedo.

Quem nunca vai embora.

Eu escuto a voz da mamãe mudar dependendo de com quem ela está falando. Mais suave aqui. Mais afiada ali. Simpática, mas nunca descuidada.

Quando eu finalmente fecho o livro, minha mão dói.

“Terminei”, digo baixinho.

Mamãe olha, surpresa. Ela seca as mãos numa toalha e se inclina mais perto, conferindo meu trabalho.

“Bom”, ela diz. Aí, mais suave: “Mas da próxima vez, você não vai com pressa.”

“Eu não fui”, digo. “Eu só escutei.”

Os olhos dela encontram os meus. Algo indecifrável passa por eles.

Ela se endireita e põe um copo no balcão. “Escutar não é ficar encarando.”

“Eu sei”, digo.

Ela me observa por um longo segundo e então assente uma vez. “Termina seu suco.”

Eu tomo um gole do suco de maçã que ela tinha me servido antes, o canudo torto. O bar zune ao meu redor. O barulho não me assusta mais. Parece um quebra-cabeça.

Eu não entendo tudo o que ouço.

Mas eu me lembro.

E eu penso, mesmo naquela época, que saber das coisas pode ser tão importante quanto dizê-las.

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