Queda do Céu

Download <Queda do Céu> grátis!

BAIXAR

Capítulo Quatro

Sob a cúpula gigantesca da Grande Catedral, o ar estava impregnado do cheiro denso de incenso e mofo acumulado ao longo de séculos. Dentro da câmara do julgamento, apenas os restos sobre a longa mesa dourada no centro ainda testemunhavam a solenidade da “Justiça Imperial”.

O som de uma cadeira de rodas deslizando era particularmente estridente no salão silencioso. Era Deng Fa, o último ancião do Império, o homem que, cinquenta anos atrás, havia colocado pessoalmente o Elmo do Deus da Guerra sobre a minha cabeça ao lado do falecido Imperador. Ele tinha noventa e dois anos este ano; a pele mirrada mal lhe escondia os ossos, mas seus olhos, enterrados nas órbitas fundas, continuavam afiados como os de um abutre.

Minha imagem era projetada na tela mágica da praça, observando-o usar as mãos artríticas e deformadas, tremendo enquanto ele percorria com os dedos a superfície quebrada da estátua. Eram os cortes deixados pela Lâmina do Céu, que, para os outros, não passavam de provas irrefutáveis de atrocidade.

— Estas são, de fato, marcas da Lâmina do Céu — a voz de Deng Fa, amplificada pelo arranjo mágico, trazia um arrepio de decomposição. — Em todo o Império, somente esta arma poderia criar cortes tão lisos, ainda quentes de energia psíquica. Só uma pessoa possui esse poder.

A praça explodiu, um rugido furioso capaz de estilhaçar os céus, transmitido com clareza pelo arranjo sônico da fortaleza até os meus aposentos. Eles nem precisavam que Deng Fa dissesse o nome; sob a influência daquela “avaliação autoritativa”, já me haviam tomado como a raiz de todo o mal desta era.

No entanto, no salão lateral da câmara do julgamento, por um ponto cego do arranjo de vigilância, vi o rosto pálido e impotente de Deng Fa depois que ele largou o megafone. Ele tentou agarrar a manga da Imperatriz Iserlin e sussurrar:

— Majestade, eu examinei a textura da base… há vestígios de energia psíquica distorcida à força nesses cortes. Darius pode ter perdido o controle, mas ele não…

A Imperatriz não o deixou terminar. Seus olhos, profundos e indevassáveis, me lançaram um breve olhar antes que o cetro — símbolo do poder imperial — batesse com peso na laje de pedra.

— Vossa Graça — a voz dela era fina e fria, como o sibilar de uma serpente venenosa —, seu dever é manter a unidade e a ordem do Império, não buscar verdades históricas que há muito viraram cinzas. O Vazio se foi; dentro do Império, as palavras “Raça do Vazio” já não existem. Esta é a definição oficial, e a única verdade.

Deng Fa enrijeceu. Aquele velho que havia lutado ao meu lado, após um silêncio longo e mortífero, baixou a cabeça, saudou a Imperatriz com desalento e então empurrou lentamente a cadeira de rodas para longe, as costas curvadas como as de um fantoche esvaziado da alma.

Naquela noite, a luz azul da sala de comunicações voltou a tremular no palácio escuro. Olhei para a tela, e o rosto de Selena surgiu. Ela havia retirado o traje formal elaborado que simbolizava uma General Imperial, vestindo apenas o mais comum uniforme militar cinza. Na parede atrás dela pendia uma fotografia antiga, o único registro que eu tinha feito dela e de sua mãe durante uma trégua nos combates.

— Pai, abdique — disse ela, o olhar preso em mim; nos olhos herdados da mãe havia uma racionalidade gélida. — Renuncie ao seu Selo do Deus da Guerra, deixe a capital, deixe esta fortaleza. Em troca, eu vou suplicar à Imperatriz que perdoe todas as acusações contra você sobre aquele “ferimento acidental”. Vá para a Cordilheira de Graystone, viva como um mortal; esta é a última migalha de clemência que o Império pode lhe oferecer.

— Você realmente acha que eu os matei de propósito? — perguntei baixinho, tentando encontrar um vestígio de calor por trás daquele rosto de gelo.

Selena não respondeu; o silêncio dela se estendeu, longo e opressivo, na sala de comunicações apertada. Aquele silêncio era mais sufocante do que uma torrente de insultos, porque significava que ela nem se dava ao trabalho de encenar um confronto — ela já me definira por completo como a própria encarnação do desastre.

— Isso importa? — respondeu ela friamente, virando o rosto para longe de mim. — Aquelas vítimas não precisam da verdade; precisam de um escape. Você virou um câncer que este império tem de erradicar, esteja esse escape certo ou errado. Se você abdicar, eu vou mandar você para um asilo; se recusar…

— E se eu recusar? — perguntei.

— Então vou ter que arrastar o senhor para baixo com minhas próprias mãos. — O tom dela era tão calmo quanto se estivesse falando do desmanche de uma arma, sem a menor oscilação. — Pai, por favor, encare a realidade. Eu não sou mais apenas sua filha que vive chegando atrasada; eu sou uma general do império, a comandante direta deste Esquadrão das Doze Estátuas Sagradas. Se o senhor não entregar o seu selo, a primeira coisa que faremos ao entrar na fortaleza amanhã de manhã será executar o senhor por enforcamento.

A comunicação foi interrompida. Um silêncio mortal caiu sobre o salão. A sede causada pela privação prolongada do Elixir da Alma, como incontáveis larvas venenosas, começou a roer furiosamente meus pulmões.

— Prepare suas coisas, Aldrick. — Virei-me para meu velho companheiro, que estava no canto, já soluçando sem conseguir se conter. — Amanhã, nós vamos embora.

Eu não estava me rendendo à Imperatriz, nem confessando crimes que não cometi. Eu estava partindo porque precisava voltar à minha terra natal amada — Greystone Ridge. Nas profundezas daquela tumba desolada, outra Lâmina do Céu estava selada. Aquela lâmina era o presságio que eu havia plantado para resistir ao impasse final do Vazio. Se a história me destinava a ser o sacrifício nesse massacre, então ao menos eu levaria aquela lâmina comigo para retalhar este mundo caótico, corrompido pelo poder imperial.

No entanto, o ritmo do Vazio dentro de mim finalmente chegou ao limite naquele instante.

Era uma dor poderosa o bastante para rasgar a alma; meu cérebro parecia ter sido aberto à força por uma lâmina enferrujada. Antes mesmo que eu pudesse explicar a Aldrick, meu corpo saiu completamente do meu controle. Com um gemido abafado, desabei no chão, as mãos golpeando freneticamente a parede de granito. As pedras se estilhaçaram, e os escombros cortaram minha pele como lâminas afiadas. Senti meus ossos rangendo enquanto a energia do Vazio substituía minha carne à força.

A Súcubo do Vazio estava bem diante de mim — real, não mais uma ilusão. As asas escuras dela se abriram devagar dentro da fortaleza, e seus dedos longos e translúcidos acariciaram de leve a minha bochecha. A sensação gelada, como de faca, me atravessou com um arrepio mórbido em meio à dor excruciante.

— Desista, Deus da Guerra — sussurrou ela, com uma voz sobreposta a mil vozes, como o lamento de incontáveis mortos. — Olhe o que este império lhe deu! Como cravou seu nome no pilar da vergonha! Abandone esses juramentos hipócritas de proteção! Se você assentir, se demonstrar nem que seja um fiapo de ressentimento por eles, eu lhe concederei o poder de destruir tudo…

— Saia… saia da minha mente… — Mordi a língua, o sangue subindo para a garganta, usando aquele último resquício de dor para empurrar a ilusão para trás à força.

Aldrich ouviu o ruído inumano do lado de fora da porta e entrou correndo, sem hesitar. Viu sangue por toda parte, punhos arrebentados e paredes rachadas. As mãos dele tremiam ao tentar me amparar, mas a luz cinzenta pulsando freneticamente nos meus olhos o assustou, fazendo-o recuar meio passo.

Agarrei os ombros dele, um rosnado selvagem e rouco escapando da minha garganta:

— Aldrich… escute… se um dia meus olhos ficarem completamente cinzentos, se minha mente for totalmente consumida por aquela fome… não hesite: atravesse meu coração com a espada que está na sua mão. Faça o que fizer… não me deixe virar a vanguarda do Rei do Vazio.

Na manhã seguinte, a alvorada fria atravessou a fumaça das muralhas externas da fortaleza. Coloquei o pesado cetro dourado do Deus da Guerra na beirada do terraço; o cetro, símbolo de cinquenta anos de poder, reluzia com frieza à luz da manhã. Virei-me e cambaleei em direção ao portão.

No instante em que eu ia cruzar aquele portão rumo a Graystone Ridge, uma voz clara e fria me deteve como água gelada.

— Pai…

Eu me virei. Selena estava parada em silêncio na saída sombria do portão. A brisa matinal agitava o uniforme militar perfeitamente ajustado dela. Atrás, doze guerreiros com armaduras douradas, cintilantes, estavam em formação como deuses descendo do céu, cada lança apontada para o meu coração. Ela me olhou sem expressão, como se olhasse para um condenado sem esperança. Não havia intenção assassina em seus olhos — apenas um poder frio, quase aterrador, de carrasca.

— Entregue o seu Selo do Deus da Guerra e recue para além da linha de defesa. — Ela estendeu a mão para mim, com a autoridade de uma general. — Última chance, Pai. Não me obrigue a dar a ordem de atirar.

Naquele momento, olhando para ela, pareceu que eu via, por trás de seu rosto jovem, a sombra de Elena e a boca faminta do Vazio pairando silenciosa sobre nós. Eu sabia que minha hora tinha chegado. Eu sabia que tudo estava… acabado.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo