Capítulo dois
Antes mesmo de a névoa da manhã se dissipar, a projeção espelhada do Palácio do Trono Eterno já havia se espalhado dentro da fortaleza.
Na tela, o salão de audiências do Palácio do Trono Eterno parecia excepcionalmente vazio. A figura da Imperatriz Iserlin estava oculta nas sombras atrás do trono, visíveis apenas seus olhos frios. Selena Ironheart ajoelhava-se com um joelho no chão sobre a laje de pedra gelada, como uma espada recém-forjada. O brilho metálico da medalha “Escudo do Império” cintilava no reflexo, ferindo meus olhos. Embora eu não conseguisse ouvir a conversa em detalhes, eu conhecia Selena bem demais; a tensão nas costas e a leve inclinação da cabeça naquele instante eram, com clareza, uma declaração de lealdade à Imperatriz. O ódio entranhado nela, aquele desejo resoluto de escapar da sombra que por tanto tempo pairara sobre sua vida, parecia transbordar até mesmo através do reflexo.
Eu me obriguei a desligar a tela, mas a dor surda de ter sido abandonado pelo tempo se agarrou a mim como uma sanguessuga.
Naquela tarde, os pesados portões de ferro da fortaleza foram empurrados à força, e o rangido estridente do metal ecoou pelo corredor como um grito. O Ministro das Finanças Imperiais, acompanhado de uma guarda pessoal conhecida como as “Doze Estátuas”, irrompeu no salão do palácio — um lugar terminantemente proibido a estrangeiros. Ele não se curvou; sua arrogância era como a de quem observa uma antiguidade prestes a chegar ao fim.
Ele arremessou sobre a mesa de mogno, diante de mim, um documento selado com cera, com tanta força que o serviço de chá tilintou.
— General Ironheart — disse ele. — De acordo com a ordem emergencial de corte financeiro recém-emitida pela Casa Imperial e com a reavaliação do Departamento de Segurança Imperial, sua cota de “Elixir da Alma” será reduzida ainda mais, com efeito imediato.
Ele nem sequer levantou os olhos; seu olhar varreu as cicatrizes de batalha, manchadas e antigas, nas paredes da fortaleza, sem disfarçar o desprezo.
— O tesouro nacional agora deve priorizar o fornecimento de armas psiônicas às “Doze Estátuas”. Sua Majestade determinou que, se ainda considera esse agente de sustentação antigo necessário, então compre com o próprio dinheiro. Ou escolha o meio mais digno... abdique e dê lugar à nova geração.
Eu estava sentado no meio de uma montanha de pergaminhos táticos, silencioso como pedra. A postura burocrática dele soava como um dobre de finados. Sem que ele soubesse, a cada segundo eu sentia um frio estranho, cortante, atravessando minha coluna. Apertei o apoio do braço; a madeira gemeu e estalou sob minha força, e farpas cravaram na minha pele. Aldrich arfou num canto — devia ter visto a névoa cinzenta, mal contida, nos meus olhos. Eu conduzi à força os últimos vestígios da minha energia espiritual, empurrando aquela aura de morte de volta às profundezas. Quando ergui a cabeça lentamente, uma luz âmbar encobriu com violência o caos dentro do meu olhar. O ministro já havia ido embora; não fazia ideia do quão perto estivera de ser engolido pelo vazio naquele instante.
A noite caiu, e a fortaleza mergulhou num silêncio mortal. Só a vela que Aldrich deixara tremeluzia. Fitando sua luz fraca, senti uma solidão como nunca antes. Então, bem no centro do salão, a luz azul da comunicação espelhada começou a piscar de um jeito sinistro.
O rosto de Selena apareceu na tela. Ela já tinha se livrado da pesada roupa formal e vestido um uniforme impecável de general; ao fundo, o apartamento dela estava cheio das velhas coisas de sua mãe.
— Pai, abdique — disse sem rodeios, com uma calma de gelar o sangue.
— Você não entende... — comecei com dificuldade. — O vazio não foi destruído; o ritmo daquele abismo nunca cessou. Se aquele limiar não for mantido...
— Chega! — ela interrompeu, fria. — Nos últimos cinquenta anos, todo o sofrimento do império tem o seu nome. Você ficou lá em cima, vendo o povo passar fome, vendo os recursos serem despejados nesse seu poço sem fundo de remédios! A sua suposta proteção é ficar sozinho nesta torre por uma vida inteira?
— Sobre a sua mãe... — tentei tocar naquele assunto proibido, mas ela me cortou de imediato.
— Não mencione ela! — Os olhos dela eram frios como lâminas. — Onde você estava quando eu precisava do meu pai? Você guardou aquela muralha vazia e ainda me empurrou para ela também! Agora, tanto o decreto da Imperatriz quanto as minhas ordens militares exigem que você entregue o seu selo. Pai, não me faça ser eu a puxar você para baixo.
O espelho se apagou. Com um clique suave, o comunicador ficou completamente escuro. Percebi que não era apenas uma disputa de poder, mas uma negação total do meu papel como pai.
Na calada da noite, a energia psíquica dentro de mim enfim saiu do controle. Era como se mil cobras frias e venenosas rastejassem pelas minhas veias. Tentei me levantar para aliviar a dor, mas, quando meus dedos tocaram o requintado mobiliário de prata, ele enferrujou na mesma hora, virando pó entre meus dedos. Ao ver minhas mãos cobertas de poeira de ferrugem, uma onda de desespero me atingiu.
No espelho, meu reflexo passava por uma distorção assustadora. O âmbar característico do meu olho direito estava se estilhaçando, substituído por um cinza espesso e estagnado. Lá no fundo das pupilas, um vórtice interminável parecia se abrir aos poucos, espiando o mundo com ganância.
— Mate todos...
A voz da súcubo soou mais uma vez. Desta vez, ela não vinha do vazio distante; ela estava bem atrás de mim, o hálito gelado roçando a nuca. O tom era sedutor, e cada palavra se cravava na minha consciência como um ferro em brasa: — Olhe para a sua filha, olhe para essas formigas que você um dia protegeu... Eles te levaram ao desespero; queriam que você morresse de fome e de vergonha. Mate-os, Darius, volte ao nada, e você encontrará libertação...
Um rosnado bestial escapou da minha garganta e, num surto repentino de força, dei um soco no espelho de bronze à minha frente.
O estalo agudo do espelho se partindo sacudiu a fortaleza inteira. Incontáveis estilhaços cortaram minhas bochechas e as palmas das mãos; sangue quente pingou no chão de granito frio com um baque abafado. Encarei meu eu despedaçado, urrando para a fortaleza vazia.
— Eu não vou... virar a sua arma!
Mas minha mão direita trêmula não parava; a fome que emanava dos meus ossos, das profundezas do abismo, como uma maré crescente de água negra, lentamente engolia a minha razão. Observei a sombra cinzenta no meu reflexo ficar cada vez mais turva, sabendo muito bem — meu tempo tinha se esgotado por completo.
