Capítulo 5 Adrenalina
Apertei o botão de ignição e o motor roncou grosso, um monstro acordando. Liguei o som no talo. Rap pesado estourando os alto-falantes. Copo de uísque no porta-copo. Cigarro aceso entre os dedos. Botei o óculos escuro, joguei o encosto do banco pra trás e soquei o pé no acelerador, saindo da garagem cantando pneu.
A porra dessa cidade era o meu tabuleiro. E eu era o rei dessa escória toda.
Furei sinal vermelho. Joguei o carro em cima de um babaca que tava travando a esquerda num SUV de merda. Olhava pras pessoas na calçada com o mais puro nojo. Parei num farol e dois moleques me reconheceram. Apontaram. Um bateu no peito, pagando pau. O outro me olhou com inveja.
Caguei pros dois. Acelerei de novo.
Esse era o personagem. O Thales Montenegro intocável que essa gente medíocre venerava. Mas o desgraçado atrás do volante tava apodrecendo a cada quilômetro.
Olhei pro retrovisor. Cara de pedra, olho vazio, mandíbula travada. Um homem caminhando pro precipício e torcendo pra queda ser fatal.
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Estacionei o Audi atravessado na frente de um galpão abandonado na beira de uma rodovia esquecida. Ali rolava o submundo que a alta sociedade finge que não existe. Rachão, grana alta voando em aposta, pó, puta e loucura.
Desci do carro, batendo a porta blindada com força, já chamando a atenção.
— Bora fazer merda, que a vida de vocês tá muito parada, bando de inútil! — gritei pra roda de playboys e marginais encostados nos capôs.
A galera urrou.
— O Rei chegou, caralho! Montenegro na área!
Eles abriram caminho, sorrindo, levantando garrafa, pagando pedágio pro meu ego. Sanguessugas do caralho. Gostavam de estar perto do poder, do perigo que eu exalava. E eu? Eu só queria um pretexto pra causar um acidente de perda total.
A pista improvisada era um trecho de asfalto liso, sem fiscalização, sem regra, sem lei.
Uma moto esportiva preparada de um lado. Uma BMW M4 do outro. E eu no meio. O Audi roncando tão alto que tremia o chão.
— Vai botar a cara mesmo, Montenegro? Tá com vontade de correr ou só quer se matar com estilo? — um playboyzinho abusado gritou, rindo.
Dei um sorriso sádico.
— Hoje eu quero que o mundo inteiro se foda e engula minha poeira, seu bosta.
O delírio foi geral. Uma patricinha qualquer subiu no capô de uma caminhonete. Short socado no rabo, top minúsculo, segurando uma bandeira encardida.
— Atenção, vagabundos... no três! — ela berrou, a voz esganiçada competindo com o grave do som automotivo.
O ar fedia a borracha queimada, gasolina, álcool e suor. O puro suco da degradação. Duas mulheres vieram na minha janela. A loira de vestido vermelho decotado debruçou no vidro, esfregando os peitos na porta do carro.
— Se ganhar essa corrida, eu te espero sem calcinha no banco de trás, Montenegro... — ela ronronou, com olhar de quem achava que tava me seduzindo.
Dei uma risada seca, encarando ela com total indiferença.
— Eu não corro por prêmio barato, princesa. Eu corro pra esquecer que eu ainda existo. Rala do meu carro.
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— UM!
— DOIS!
— TRÊS, PORRA!
Os motores explodiram. Os pneus lixaram o asfalto.
Fiz o V8 berrar e larguei na frente. A força G esmagou minhas costas contra o banco de couro. A primeira curva fechada veio rápida. Não tirei o pé. Joguei a porra do volante, o carro atravessou de lado, cantando pneu e levantando fumaça. O velocímetro escalava os números num piscar de olhos. Meu coração socava as costelas no ritmo do conta-giros.
Tudo do lado de fora virou um borrão distorcido. A escória gritando nas laterais. O grave do som balançando meus tímpanos. Os babacas apostando grana na minha morte.
Eu comecei a rir. Uma risada insana dentro da cabine fechada.
— VAI TOMAR NO CU! — eu rugi, espancando o volante com as duas mãos.
Tava no limite extremo. No fio da navalha entre a vida e a parede de concreto armado. Naquele milésimo de segundo, enquanto flertava com a morte a duzentos e vinte por hora, eu era absoluto. Raiva, gasolina, arrogância e vazio, tudo embalado numa casca de ferro.
