Capítulo 4 Odio
Me arrastei nu até o banheiro, o cigarro ainda queimando entre os dedos, a fumaça ardendo no olho. O piso de mármore gelado contrastava com o inferno que tava na minha cabeça. Liguei o chuveiro no máximo. A água despencou fervendo, estalando contra as minhas costas, escorrendo pela pele como se fosse capaz de arrancar a porra da culpa que tava entranhada na carne.
Mas a real é que culpa não desce pelo ralo. Não sai com sabonete caro. Ela gruda na espinha. Fica ali, te lembrando que você é um lixo, não importa o tamanho da sua conta bancária.
Encostei as duas mãos na parede de vidro do boxe e abaixei a cabeça. A água espancava minha nuca, o cigarro apagou no canto da boca, virando um fiapo molhado com gosto de cinza e derrota. Os fantasmas tavam ali, me rondando no vapor denso. Eles nunca me dão paz. Têm passe livre na porra da minha mente. Fiquei ali uns bons minutos, respirando fundo, sentindo o peito apertar, morrendo mais um pouco por dentro.
Quando fechei a torneira e saí pro quarto, a visão era de dar nojo. O cenário exato da minha decadência. As duas mulheres esparramadas na minha cama, os lençóis de seda suados, uma zona do caralho pelo chão e aquele cheiro azedo de sexo, álcool caro e noite inútil empesteando meu ar.
— A festa acabou — avisei, a voz saindo grossa, seca, rasgando o silêncio enquanto eu andava direto pro closet, cagando pra nudez delas. Puxei uma calça de moletom preta qualquer e vesti.
— Já, Thales? — uma delas resmungou, espreguiçando o corpo nu com uma lentidão ridícula, como se tivesse algum direito de permanência. Como se comer na minha mão desse a ela posse sobre o meu território.
— Já. Põe a porra da roupa e vaza. — Fui direto. Sem massagem.
— Você nem vai tomar um café com a gente? — a outra teve a audácia de perguntar, dando um sorrisinho sínico, enrolada na coberta, querendo pagar de namorada.
Girei o pescoço devagar. Meu olhar cruzou o dela e a temperatura do quarto despencou. O tipo de olhar que eu usava pra destruir a moral de tenente arrogante.
— A cama foi favor, não assinei contrato com nenhuma das duas — disparei, frio feito gelo. — Rala daqui. As duas. Agora.
Elas tomaram o golpe. O sorriso sumiu, a marra caiu por terra. Se entreolharam com cara de tacho e começaram a catar os pedaços de dignidade pelo tapete, vestindo as calcinhas e os vestidos amassados num silêncio constrangedor. Quando tavam prontas pra meter o pé, a primeira ainda tentou bancar a ousada. Chegou perto, ficou na ponta dos pés e deixou um beijo no canto da minha boca, exalando aquele perfume doce que já tava me dando ânsia de vômito.
— Até a próxima, general... — ela sussurrou, achando que tava no controle de alguma merda.
Passei as costas da mão na boca, limpando a saliva dela com desprezo aberto, e nem me dei ao trabalho de responder. Bati a porta do quarto na cara delas assim que pisaram no corredor.
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Desci as escadas pisando duro e entrei na cozinha. Tia Lara já tava no posto dela, encostada na ilha de granito com a xícara na mão. Camisa de seda alinhada, cabelo preso, postura impecável. Era o oposto absoluto da minha mãe, e justamente por isso, a única pessoa dessa família fodida que eu ainda engolia.
— Tá cedo demais pra esse fedor de puteiro, Thales — ela soltou, sem nem levantar os olhos da tela do tablet.
— A casa é minha — respondi, arrogante, pegando a garrafa de café e virando a porra do líquido preto direto num copo de vidro. Sem açúcar. Sem frescura. Amargo igual a minha vida.
— Mas o pulmão é meu — ela retrucou no mesmo tom, sem recuar um milímetro. — E esse cheiro tá me dando ânsia.
Dei um meio sorriso cínico. O único que eu conseguia esboçar a essa hora da manhã.
Tia Lara morava comigo desde que a minha mãe morreu. E não era por caridade da minha parte. Era dívida. Ela cuidou da minha mãe quando a porra do câncer devorou o que a desgraça da vida não tinha conseguido foder. E agora ela cuidava dessa casa e tentava, inutilmente, me impedir de explodir os miolos.
— Vai sair hoje? — ela perguntou, dando um gole no café.
— Talvez.
— Só tenta não voltar pra cá com mais duas desconhecidas e um trauma novo nas costas, tá bom? — A velha mandava a real, direto na jugular. Sem dó.
Levantei o copo de vidro, bati de leve na beirada da pia.
— Não prometo porra nenhuma.
Catei a chave na bancada e desci. Na garagem, o alarme do Audi RS6 piscou no escuro. Preto absoluto, blindado nível três, motor V8 estúpido de forte. Um brinquedo que eu me dei depois que minha empresa fechou o primeiro contrato de nove dígitos.
— Vai pra onde? — escutei a voz da tia Lara ecoar.
— Resolver merda — falei, virando as costas.
— Só não resolve tua vida, né, seu desgraçado...
Soltei uma risada pelo nariz. Entrei na nave. O sol já rasgava o céu lá fora. O tipo de manhã limpa que faria um homem normal agradecer por estar vivo. Em mim, só dava vontade de acelerar até encontrar um muro de concreto.
