Quando a dor encontra o amor

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Capítulo 3 Capitulo 3

Hoje, a sociedade me chama de empresário bem-sucedido. Sou o Diretor Executivo de uma multinacional de segurança privada de altíssimo escalão. Vendo treinamento tático para a elite. Presto consultoria bélica para operações internacionais. Eu articulo discursos elaborados, visto ternos com cortes italianos e assino contratos com cifras de oito dígitos.

Mas quando a porta do meu escritório se fecha? Eu sou apenas o soldado responsável pelo extermínio do filho de uma mulher que continua assombrando os meus passos.

A confissão mais cruel é que não foi o peso do exército que fraturou a minha espinha dorsal. Foi o olhar de fúria e condenação de uma mãe despedaçada.

A campainha da cobertura soou, agressiva e pontual.

Caminhei até o hall de entrada com o copo de uísque balançando na mão, o torso descoberto e a expressão de quem estava prestes a declarar guerra contra a própria sanidade. Escancarei a porta.

— Vocês atrasaram — decretei com frieza.

— Eu precisei de tempo para selecionar a dedo a elite da noite, Montenegro — retrucou Breno, o ápice da canalhice do nosso círculo, invadindo o apartamento com caixas térmicas pesadas em uma mão e duas mulheres penduradas nos ombros.

O restante do grupo feminino adentrou a cobertura logo em seguida. Estaturas imponentes, saltos agulha esmagando o piso de mármore, maquiagens carregadas para esconder intenções, curvas delineadas por tecidos escassos e a malícia destilando de cada poro. O ambiente foi instantaneamente contaminado por perfumes excessivamente adocicados, decotes projetados para devorar a atenção e risadas meticulosamente ensaiadas. Todas elas estavam preparadas para entregar uma noite de libertinagem extrema e receber o devido esquecimento matinal.

— Este lugar está parecendo um mausoléu, Montenegro — uma delas murmurou, arrastando as unhas vermelhas pelo meu peito nu enquanto se encostava em mim. — Que tal a gente profanar isso tudo até perder a linha?

— O espetáculo é inteiro de vocês — respondi, o tom de voz grave, arrastado e sujo. — A minha única função aqui é fornecer e financiar o campo de batalha.

Em questão de minutos, os graves da música eletrônica faziam os vidros das janelas vibrarem. O uísque envelhecido passou a ser consumido como se fosse água. Os estofados de couro se transformaram em palcos de exibição. O piso refletido virou uma pista de atritos. E a minha sala de estar sofisticada converteu-se no mais caro e decadente bordel de São Paulo.

Corpos femininos se esfregavam no meu em uma confusão de pele e suor. Bocas com gosto de álcool procuravam a minha no escuro. Mãos com unhas longas arranhavam os meus ombros e apertavam a minha nuca. Gargalhadas estridentes explodiam nos meus ouvidos. Bebi do copo de uma, capturei os lábios da segunda e enterrei os dedos no cabelo da terceira. O limite entre os corpos deixou de existir. A minha audição captava gemidos e sussurros obscenos de mulheres das quais eu sequer havia perguntado o primeiro nome.

Uma delas montou no meu colo de forma possessiva, o quadril movendo-se com força e ritmo de encontro ao meu, guiada pelas batidas pesadas do som. Outra se aproximou por trás, os lábios colados na cartilagem da minha orelha, e sussurrou como uma promessa letal:

— Eu garanto que hoje você não vai se lembrar de absolutamente nada.

A ignorância dela era quase cômica.

Ela não tinha a menor capacidade de compreender que eu me afundava naquele oceano de carne e luxúria exatamente por não suportar mais o fardo de lembrar com tantos detalhes.

E ali, no meio do caos, entre uma dose que queimava o esôfago e o toque ardente de peles desconhecidas, entre o ritmo frenético da música e o calor do desejo banal, a minha visão periférica continuava projetando o pesadelo:

O rosto lívido e infantil do garoto.

O grito cortante da mãe ecoando acima dos alto-falantes.

A poça de sangue negro coagulando na calçada.

O ácido da culpa corroendo as paredes do meu estômago.

Nenhum daqueles convidados tinha noção do meu abismo. Para eles, eu era o intocável Capitão Montenegro. A referência de poder. O homem implacável. O militar de elite que havia retornado da guerra para sentar-se em um trono de riqueza e privilégios.

Apenas eu carregava o fardo da verdade.

Eu era um homem morto, que usava festas descontroladas, álcool e corpos descartáveis em uma tentativa patética de simular um sopro de vida para o mundo exterior. Naquela noite de excessos, o caos não era uma celebração. Era apenas o meu método particular de afogamento contínuo... mantendo a cabeça acima da água o suficiente para não morrer de vez, mas me recusando a nadar para a margem.

O impacto da claridade foi um golpe físico. Acordei com as pálpebras pesando chumbo, a boca ressecada feito lixa e o gosto ácido de uma ressaca violenta grudado no paladar. O ar do quarto estava espesso, empesteado com a mistura nauseante de suor, fluidos corporais, destilados caros e fumaça velha de charuto.

O sol matinal invadia o ambiente de forma agressiva pelas frestas das cortinas blackout. Era uma luminosidade obscena para um homem que desejava permanecer apodrecendo na escuridão.

Na minha cama king-size, duas mulheres dormiam profundamente, os corpos nus entrelaçados aos lençóis desfeitos. Uma delas mantinha a perna cruzada de forma possessiva sobre as minhas coxas. A outra estava abraçada a um travesseiro de penas, a maquiagem completamente derretida ao redor dos olhos e os lábios ressecados abertos em um suspiro lento.

Se eu tentasse vasculhar a memória, não conseguiria resgatar o nome, a voz ou um único detalhe real sobre quem eram elas.

Afastei a perna da primeira com a lentidão e o cuidado de um soldado rastejando em um campo minado. Levantei-me do colchão, o movimento fazendo as paredes do meu crânio latejarem no ritmo acelerado do meu coração. O estômago revirava em um protesto violento. O peito... continuava sendo uma caverna oca e gelada.

Analisei a zona de destruição ao meu redor: garrafas de uísque e vodka tombadas sobre o carpete, taças de cristal estilhaçadas no canto, peças de roupas íntimas penduradas nas luminárias e um vestido de seda jogado displicentemente sobre a poltrona. Girei o pescoço, deparando-me com a porta espelhada do imenso closet. O reflexo devolveu a imagem de um homem vestindo apenas cueca, a pele marcada pelo suor noturno e por manchas de batom vermelho no pescoço, ostentando um olhar fosco, típico de um cadáver recém-desenterrado.

Aquele lixo humano era eu.

Caminhei em silêncio até a mesa de canto, puxei um cigarro solto do maço e o acendi. Puxei a fumaça para os pulmões com violência, segurando o ar até que a queimação na garganta mascarasse o latejar da cabeça. O primeiro vício do dia. Ou talvez o último suspiro de uma noite que se recusava a acabar.

Sentei-me na extremidade do colchão, expirando a fumaça lentamente enquanto observava as duas mulheres adormecidas. Eram visualmente impecáveis. Entregues de corpo e alma ao meu vazio. E tão miseravelmente ocas quanto o homem que as hospedava.

— Meus parabéns, Capitão Montenegro... — sussurrei para o nada, o tom pingando escárnio e auto-aversão. — Mais uma madrugada de degradação absoluta para o seu arquivo confidencial.

Esfreguei as mãos no rosto com brutalidade, esfregando a pele áspera na tentativa inútil de arrancar o cansaço impregnado nos ossos. Mas a exaustão moral não saía com água e sabão. Ela estava fundida no meu DNA.

A euforia da festa havia evaporado completamente. Mas o fardo das minhas ações? Esse apenas começava a cobrar os juros diários da minha sobrevivência.

E bem lá no fundo daquela escuridão mental, uma certeza se solidificava, inabalável e premonitória.

Era apenas uma questão de tempo até que a vida ou alguma força colérica e incontrolável arrombasse a porta daquela cobertura e viesse me cobrar, com juros e sangue, por toda essa existência suja que eu tentava, em vão, sepultar debaixo de rios de dinheiro e luxúria barata. A minha ruína não estava no passado. Ela estava caminhando, lenta e implacavelmente, na minha direção.

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