Capítulo 2 Capitulo 2
A minha dinâmica de sobrevivência funcionava exatamente assim.
Quando a pressão no peito ameaçava esmagar meus pulmões, eu implodia através do exagero profano. Quando o silêncio da culpa ameaçava devorar a minha mente, eu socava música ensurdecedora nos alto-falantes e abarrotava a minha sala com pessoas de almas vazias. E durante algumas horas de degradação, eu encenava a mentira de que estava no controle.
Abri a segunda garrafa da noite. Acendi um charuto novo. Deitei no sofá de couro italiano, o torso nu exposto, as pernas esticadas e a cabeça pesando toneladas. O relógio digital na parede cravava meia-noite em ponto. O céu lá fora estava limpo, cravejado de estrelas. A minha essência, contudo, estava em estado de putrefação.
Bati as cinzas do tabaco diretamente no tapete importado, desprezando qualquer zelo pelo ambiente. Desbloqueei o celular por puro reflexo. A foto do meu perfil corporativo ainda exibia o fantasma do passado: o uniforme tático, o fuzil cruzando o peito, a medalha de honra ao mérito brilhando no canto esquerdo. A maior farsa já documentada.
Eu fui o soldado impecável. A lâmina mais afiada do batalhão. Apenas na superfície.
Por dentro, eu era um terreno baldio forrado de escombros, pólvora e uma ressaca moral incurável.
Nenhum dos meus subordinados ou superiores enxergava o que eu engolia a seco. Ninguém escutava o som agoniante que continuava reverberando dentro do meu cérebro quando as luzes do mundo se apagavam.
A sociedade aplaudia o ex-militar de elite, o estrategista carregado de histórias de triunfo. Mas a hipocrisia humana nunca questiona o que sobra do homem quando a operação é encerrada e a fumaça abaixa.
Sobraram os rostos desfigurados. Sobraram os gritos de desespero cravados nos tímpanos. Sobraram as sentenças de morte que eu fui obrigado a assinar apenas com um aceno de cabeça, olhando diretamente nos olhos de quem iria sangrar.
Homens demais foram aniquilados sob a minha autorização. Soldados sob o meu comando direto foram exterminados porque eu ordenei o avanço da tropa. Inocentes demais foram reduzidos à estatística fria e calculada de "dano colateral". E eu? Eu retornei para casa. Com o peito condecorado de metal e o inferno inteiro instaurado na minha memória.
Eu já causei o pranto desesperado de mães de um lado da fronteira, enquanto gerava orgulho nacional do outro. Eu já fui coroado como salvador da pátria e amaldiçoado como assassino impiedoso no espaço de uma única missão.
E a constatação mais devastadora? Eu já não sei qual das duas versões é a verdadeira.
Em noites de extrema exaustão, eu ainda sonho com aquele jovem recruta arrogante que jurou a bandeira acreditando que mudaria o mundo com as próprias mãos. Hoje, a minha única prece é desejar que aquele garoto nunca tivesse nascido.
O colete balístico blindou a minha carne. Mas a guerra desintegrou a minha alma.
E agora, o resultado final de todo aquele patriotismo doentio era este homem jogado na escuridão. Bebendo em solidão absoluta. Aspirando o monóxido da própria culpa. Convocando parasitas para dentro de casa em um apelo mudo e desesperado por amnésia alcoólica.
Porque o silêncio da madrugada tem um poder de perfuração muito superior ao calibre de um fuzil.
E eu já havia suportado mais perfurações na alma do que qualquer estrutura humana poderia aguentar sem desabar.
A alta cúpula do exército classificou a minha atitude como covardia no dia em que exigi a minha exoneração. A baixa patente espalhou o boato de que eu havia quebrado sob pressão. Mas nenhum daqueles engravatados ou oficiais de gabinete esteve presente no dia em que ela cruzou a linha de segurança e cravou os olhos na minha alma.
A mãe.
A imagem daquela mulher franzina, desgastada pelo sofrimento, com o corpo tremendo de ódio puro e a essência da morte transbordando no olhar, é uma cicatriz que não cicatriza.
Ela invadiu o perímetro da base militar carregando a camisa encharcada com o sangue do próprio filho nos braços. Um garoto de treze anos. Um único disparo de alta precisão que lhe rasgou o abdômen e o deixou agonizando no asfalto quente. Ele estava no lugar errado. No milésimo de segundo errado. E a bala que encerrou a sua existência? Ela partiu do fuzil de um dos meus atiradores.
O relatório oficial lavrou o caso como um infortúnio tático. Um trágico acidente de percurso. O clássico e asqueroso dano colateral.
Mas aquela mãe não queria ler relatórios assinados por generais.
Ela parou diante de mim. O olhar dela me dissecou de cima a baixo como se eu fosse a materialização do próprio demônio. Ela cuspiu no chão aos meus coturnos, ergueu o dedo trêmulo a centímetros do meu rosto e gritou, com uma dor que fez as paredes de concreto do alojamento tremerem:
— Você assassinou o meu menino!
E eu... o grande comandante estratégico, o homem forjado para não recuar diante de exércitos inteiros... eu fui incapaz de articular uma única sílaba.
Porque a sentença daquela mulher era a mais absoluta verdade.
O meu dedo indicador não estava no gatilho que disparou o projétil. Mas a voz que ecoou no rádio ordenando a invasão agressiva foi a minha. O selo de aprovação tática tinha a minha assinatura. A negligência de não exigir uma varredura dupla no perímetro antes de autorizar fogo livre era um erro exclusivamente meu.
O sangue daquele garoto banhava as minhas mãos.
E desde aquele dia maldito, o timbre quebrado da voz dela tornou-se a minha trilha sonora. Em todas as madrugadas. Estendido na cama. Sob a água fervente do chuveiro. Refletido no espelho do banheiro.
O rosto do menino invade os meus pesadelos com uma precisão sádica.
O corpo frágil estirado na rua. A temperatura caindo. Os olhos abertos, vidrados em direção ao vazio, exigindo uma resposta que eu nunca terei capacidade de dar: "Por que eu, comandante?"
Aquele segundo específico obliterou a minha honra, a minha estabilidade e o meu propósito. Eu renunciei à farda. Abandonei a corporação agarrado aos últimos resquícios da minha dignidade. Escolhi assumir a pecha de homem instável e desequilibrado em vez de continuar operando como uma engrenagem fria daquela máquina de moer vidas.
