Capítulo 1 Thales
THALES – DIAS ANTES DA RUÍNA
A garrafa de uísque já havia ultrapassado a metade, mas o líquido âmbar queimando na garganta não era o suficiente para anestesiar a mente. O charuto consumia-se lentamente entre os meus dedos, a brasa avermelhada sendo a única luz constante na penumbra. O silêncio absoluto da madrugada era a única entidade que eu ainda respeitava.
A varanda da minha cobertura oferecia uma visão privilegiada da cidade inteira. São Paulo estava acesa lá embaixo. Uma metrópole sufocante, poluída, pulsando um caos incessante exatamente como o interior do meu próprio crânio. Abaixo de mim, a existência continuava o seu curso medíocre e previsível. Aqui no alto, isolado em metros quadrados de puro luxo frio, eu era apenas um espectador de uma vida da qual já não fazia parte.
Naquela noite, não havia operação tática. Não havia uniforme militar de alta performance. Não havia uma guerra declarada em território hostil. As únicas trincheiras que restavam eram as que desmoronavam dentro de mim.
Arranquei a camisa e a atirei em qualquer canto, permitindo que a ventania noturna açoitasse o meu peito úmido de suor. O clima estava denso. Meu corpo fervia de uma energia contida e inútil, enquanto a minha mente operava em uma frieza calculista. Essa era, historicamente, a combinação perfeita para o desastre absoluto.
A tela do celular acendeu na mesa de vidro. Três chamadas perdidas. Uma mensagem urgente da assessoria de imprensa da empresa. Duas mensagens da mulher com quem eu havia dormido na noite anterior.
Ignorei absolutamente tudo.
Companhia feminina em excesso esgota a paciência. Mentiras corporativas em excesso esmagam o que resta de sanidade. E, no ponto em que eu me encontrava, a linha que separava o prazer do puro fardo havia desaparecido por completo.
Levei o copo pesado de cristal à boca e virei a dose de uma vez. O uísque desceu rasgando, abrindo um espaço provisório no peito para que eu pudesse puxar o ar. Mas era um alívio patético. Uma ilusão líquida.
O problema central nunca foi o álcool. O abismo real era o que me aguardava quando o efeito da bebida começava a evaporar no sangue.
A fúria implacável. O vazio monumental. A memória nítida do homem que eu costumava ser antes de vestir a farda de comandante. Antes de sentir o cheiro do sangue nas minhas mãos. Antes de me transformar em uma máquina de destruição que eu mesmo era incapaz de reconhecer diante do espelho.
A realidade nua e crua? Eu não estava vivo. Eu era um homem clinicamente morto, sobrevivendo cercado de cifras milionárias. Um fantasma perambulando em trajes de alfaiataria impecável.
A fumaça espessa do charuto subiu em espirais lentas em direção ao céu escuro, dissipando-se no vento. A imagem trouxe à tona a voz da minha mãe, um eco distante cravado na memória, dizendo que tudo o que sobe de forma arrogante, mais cedo ou mais tarde, despenca com violência.
Eu ri. Um som áspero, cínico, rasgando o silêncio da cobertura.
Eu estava de peito aberto, aguardando o momento em que o destino finalmente cobraria a sua dívida.
— Hoje eu não aceito migalhas. Eu exijo o caos completo — falei no viva-voz, a garrafa presa em uma das mãos e a paciência completamente esgotada. — Eu quero o tipo de perturbação que faça os vizinhos implorarem pela intervenção da polícia.
Do outro lado da linha, a risada grave de Breno soou imediatamente.
— Diga as ordens, comandante... vai iniciar a operação de resgate esta noite?
— Vai iniciar a carnificina — respondi com a voz de pedra. — Traga as garrafas mais caras, traga as mulheres, coloque o som no limite da surdez e compre fumaça suficiente para intoxicar o andar inteiro. Eu exijo o cheiro da mais absoluta degradação dentro desta casa até o amanhecer.
Desliguei a chamada sem dar tempo para qualquer resposta. Eles apareceriam. Eles sempre apareciam quando o anfitrião bancava o inferno.
